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Meio Ambiente

Tronco sem vida, cupins... morte de jovem gera alerta sobre condição de árvores

Manual aponta espaço inadequado em 48% dos exemplares; especialista defende monitoramento da saúde das árvores

Por Inara Silva | 20/08/2026 17:36
Tronco sem vida, cupins... morte de jovem gera alerta sobre condição de árvores
Árvore seca em frente ao Parque das Nações Indígenas na Avenida Antônio Maria Coelho (Foto: Direto das Ruas)

A morte da estudante Khadyja Gharyb Rocha, de 23 anos, atingida por parte de um tronco enquanto passeava de patinete pelo Parque dos Poderes, na quarta-feira (19), fez moradores de Campo Grande voltarem a atenção para as condições das árvores espalhadas pela cidade. Nas redes sociais, leitores do Campo Grande News passaram a apontar árvores ocas, secas ou de grande porte com sinais de deterioração e a questionar como identificar riscos e a quem recorrer.

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A morte de uma jovem atingida por uma árvore no Parque dos Poderes gerou alerta sobre a saúde da arborização em Campo Grande. Apesar do título internacional de Cidade Árvore do Mundo, especialistas apontam que 48% dos exemplares possuem espaço permeável insuficiente, o que compromete a estabilidade. A recomendação é monitorar sinais como cupins e galhos secos, mas intervenções exigem laudo técnico e autorização municipal para evitar acidentes e garantir a segurança da população.

A preocupação surge justamente em uma cidade reconhecida pela arborização. A Capital acumula por 7 anos consecutivos, de 2019 a 2025, o título internacional de Tree City of the World (Cidade Árvore do Mundo). O reconhecimento é concedido pela Arbor Day Foundation em parceria com a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) e considera critérios relacionados à gestão e ao planejamento da arborização.

O próprio Manual de Arborização Urbana do município destaca que, para receber o reconhecimento, as cidades precisam atender a critérios como legislação, equipe, orçamento e inventário dedicados às árvores urbanas, além de envolver a comunidade.

Após a tragédia, porém, o questionamento tem sido como acompanhar a saúde das árvores que já fazem parte da paisagem urbana?

Uma leitora chamou atenção para uma árvore antiga na Rua Brilhante, nas proximidades do supermercado Comper. "Se essa árvore cai, faz um estrago dos grandes", escreveu. Outro morador afirmou que "Tem muitas árvores na cidade na mesma situação [...] se cortar, vem a prefeitura e multa; se deixa, acontece isso".

Na mesma região do acidente, outro leitor procurou o Campo Grande News para relatar preocupação com uma árvore de grande porte, sem folhas e com galhos secos, localizada em frente ao Yotedy, no estacionamento do Parque das Nações Indígenas. Segundo ele, um galho já caiu e chegou a amassar a grade próxima ao local. A árvore também fica ao lado de um ponto de ônibus, o que aumenta a apreensão de quem passa pela área.

“Já caiu um galho e amassou a grade. Imagine se cair em uma pessoa? É um problema que com uma motosserra pode ser resolvido em cinco minutos”, afirmou o leitor que não quis se identificar.

Tronco sem vida, cupins... morte de jovem gera alerta sobre condição de árvores
Falsa-seringueira, com 25 metros de altura, foi removida na Praça do Rádio, em 2020 (Foto: Arquivo Campo Grande News)

Preocupação legítima - Para a doutora em Botânica Zildamara Holsback, professora e coordenadora do curso de Ciências Biológicas da UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul), a preocupação é legítima e deve ser acompanhada de avaliação técnica. A especialista defende uma espécie de "vigilância da saúde das árvores", especialmente nos pontos de maior circulação.

Para uma pessoa sem conhecimento técnico, segundo ela, é difícil determinar se uma árvore corre o risco de cair. Alguns sinais, entretanto, merecem atenção, como rachaduras em galhos, presença de cupins e perda de folhas em uma parte da árvore enquanto outra permanece saudável.

Um caso polêmico de retirada de árvore por risco ocorreu na Praça do Rádio Clube, no Centro de Campo Grande. Em 2020, a Prefeitura decidiu pela remoção de uma figueira de grande porte que fazia parte da paisagem da região e ainda mantinha a copa verde. A medida gerou mobilização de moradores contrários ao corte, mas o laudo técnico apontava comprometimento do estado fitossanitário, com ausência de vitalidade, pontos de necrose no tronco e nos ramos, além de infestação por cupins e fungos e risco de queda de partes da árvore. Para Zildamara, diante daquele diagnóstico técnico, a retirada era necessária para evitar riscos às pessoas que circulavam pelo local.

No caso da árvore que atingiu Khadyja,  a especialista evita apontar uma causa antes da conclusão técnica. Segundo testemunhas, não havia vento forte no momento do acidente.

Como identificar árvores em risco - A professora explica que seria necessário analisar diversos aspectos para identificar a origem da queda da árvore, mesmo sem ventos:

  • raízes e tronco,

  • presença de fungos, cupins ou necrose,

  • as condições do solo,

  • possíveis intervenções anteriores

  • avaliar se as raízes conseguiram se desenvolver adequadamente e

  • se eventuais podas alteraram o equilíbrio da copa.

Tronco sem vida, cupins... morte de jovem gera alerta sobre condição de árvores
Plantio inadequado de árvore de grande porte que pode comprometer a calçada e oferecer riscos a pedestres (Foto: Direto das ruas)

48% têm espaço abaixo do recomendado - Um levantamento de 2024 citado pelo Manual de Arborização Urbana de Campo Grande mostra que aproximadamente 48% das árvores avaliadas tinham faixa livre permeável inferior à recomendada e quase 18% apresentavam o colo pavimentado. Segundo o documento, essas condições podem provocar calosidades nas raízes e lesões na casca da base das árvores, reduzindo a resistência aos ventos.

Zildamara explica que as raízes funcionam como ancoragem e precisam de espaço compatível com o porte da árvore. A impermeabilização do entorno pode dificultar esse desenvolvimento.

"Tudo que é muito impermeável em volta dela, tudo que é muito duro, prende o desenvolvimento das raízes", explica. Áreas permeáveis favorecem a drenagem e permitem o crescimento lateral das raízes, contribuindo para a sustentação da árvore.

Segundo o manual, as árvores para o plantio na área urbana são classificadas conforme a altura que podem atingir na fase adulta. Entre as espécies indicadas na revisão do Plano Diretor de Arborização Urbana de 2024 estão:

  • Pequeno porte - de 4 a 6 metros: casca-branca, joão-mole e pau-santo;
  • Médio porte - de 6 a 12 metros: balsaminho, caroba, ipê-verde e pau-terra;
  • Grande porte - acima de 12 metros: açoita-cavalo, angico-branco, canafístula, peroba-rosa e louro-pardo.

Espaço-árvore - O manual estabelece o chamado “espaço-árvore”, uma área permeável que permite o desenvolvimento do tronco e das raízes, além de favorecer a infiltração da água. O documento não recomenda o plantio em calçadas com menos de 2 metros de largura e, quando houver espaço adequado, orienta que a área permeável mínima seja:

  • 1 m² para árvores de pequeno porte,

  • 2 m² para médio porte e

  • 3 m² para grande porte,

Para a professora, sem essas condições, é preferível que não se plante árvores ou opte pelos arbustos, como a quaresmeira e a resedá. O documento também alerta que a poda de raízes não é recomendada. O corte de raízes grossas pode comprometer a estabilidade da planta, razão pela qual a prioridade deve ser ampliar a faixa permeável quando possível.

Podas inadequadas na copa também representam problema. Segundo Zildamara, retirar excessivamente os galhos de apenas um lado pode provocar desequilíbrio e concentrar peso na parte preservada.

Tronco sem vida, cupins... morte de jovem gera alerta sobre condição de árvores
Local onde a árvore caiu é utilizado para as práticas esportivas (Foto: Osmar Veiga)

O que fazer diante de uma árvore preocupante - O morador que suspeita que uma árvore esteja comprometida não deve simplesmente cortá-la. O Manual de Arborização estabelece que a supressão depende de autorização do órgão municipal responsável.

Em áreas públicas, o documento prevê diferentes responsáveis conforme a situação e inclui Corpo de Bombeiros e Defesa Civil nos casos de acidentes, temporais ou risco iminente de queda. Mesmo quando o morador pretende custear a retirada de uma árvore localizada em via pública, é necessária autorização.

Para Zildamara, segurança não significa retirar árvores indiscriminadamente. A especialista defende a arborização, mas acompanhada de planejamento, escolha adequada das espécies e monitoramento ao longo dos anos.

"A gente quer a cidade mais arborizada. Porém, a gente quer ela arborizada com segurança", resume.

Onde buscar ajuda - Em caso de risco iminente de queda, a orientação é acionar o Corpo de Bombeiros (193) ou a Defesa Civil (199). Se a árvore estiver em contato com a rede elétrica, o chamado deve ser feito à Energisa. Para avaliação preventiva, poda ou remoção, o atendimento é solicitado à Prefeitura pelo 156.