Mata Atlântica perdeu 184 mil hectares em MS enquanto lavouras avançaram 582%
Hoje a agropecuária ocupa 72% deste bioma em Mato Grosso do Sul
Conhecida em Mato Grosso do Sul pelas florestas e águas cristalinas da Serra da Bodoquena e pelas várzeas preservadas no entorno do Rio Paraná, a Mata Atlântica perdeu aproximadamente 184 mil hectares de vegetação nativa no Estado entre 1985 e 2025. No mesmo período, a agricultura cresceu 582% na área ocupada pelo bioma em território sul-mato-grossense e passou de 196,1 mil para 1,34 milhão de hectares.
RESUMO
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A Mata Atlântica em Mato Grosso do Sul perdeu cerca de 184 mil hectares de vegetação nativa entre 1985 e 2025, enquanto a agricultura cresceu 582% no bioma, passando de 196,1 mil para 1,34 milhão de hectares, segundo dados da Coleção 11 do MapBiomas. A soja ocupa 25,29% da área do bioma no Estado, e as pastagens recuaram 52%. Os principais remanescentes estão na Serra da Bodoquena e no entorno do Rio Paraná.
Os dados fazem parte da Coleção 11 do MapBiomas, divulgada nesta segunda-feira (21), Dia da Árvore. O levantamento acompanha as transformações da cobertura e do uso da terra no Brasil ao longo de 41 anos.
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A área delimitada como Mata Atlântica em Mato Grosso do Sul soma aproximadamente 3,74 milhões de hectares. Em 1985, as florestas e a vegetação herbácea e arbustiva ocupavam, juntas, cerca de 941,9 mil hectares. Em 2025, essa extensão havia diminuído para 758,1 mil hectares. A diferença entre os dois períodos corresponde a uma perda aproximada de 183,8 mil hectares, ou 19,5% da vegetação nativa registrada no início da série histórica.
Natalia Crusco, coordenadora técnica da Mata Atlântica no MapBiomas, confirma que a maior redução ocorreu nas áreas de floresta. Foram perdidos aproximadamente 152 mil hectares, uma queda de quase 30% em relação a 1985. A vegetação herbácea e arbustiva, representada principalmente por campos alagados e áreas pantanosas, perdeu cerca de 31 mil hectares, redução de 8%.
As áreas de floresta passaram de 525,8 mil para 373,5 mil hectares, enquanto a vegetação herbácea e arbustiva diminuiu de 416,1 mil para 384,6 mil hectares.
Em 2025, as florestas correspondiam a 9,98% da área de Mata Atlântica em Mato Grosso do Sul. A vegetação herbácea e arbustiva, que reúne campos alagados, áreas pantanosas e formações campestres, representava 10,28%. Juntas, essas classes ocupavam aproximadamente 20,3% da porção do bioma existente no Estado. A agropecuária, por sua vez, estava presente em 72,44% dessa área.
Agricultura - A principal transformação registrada nas áreas agropecuárias foi a redução das pastagens e o avanço das lavouras. Segundo o levantamento, a agricultura passou de 196,1 mil hectares, em 1985, para 1,34 milhão de hectares em 2025. O crescimento de 582% representa um acréscimo de aproximadamente 1,14 milhão de hectares.
Conforme o levantamento, a soja responde pela maior extensão agrícola identificada no levantamento. A cultura passou de 149 mil para 946,5 mil hectares, crescimento de 536%. Em 2025, ocupava 25,29% de toda a área de Mata Atlântica delimitada em Mato Grosso do Sul.
A cana-de-açúcar alcançou 321,7 mil hectares, equivalentes a 8,6% da área do bioma no Estado. As demais lavouras temporárias ocupavam 66,5 mil hectares, enquanto o arroz estava presente em 2,5 mil hectares.
No sentido contrário, as pastagens diminuíram de 2,19 milhões para 1,05 milhão de hectares, retração de 52%. A perda de área das pastagens foi de aproximadamente 1,14 milhão de hectares, extensão semelhante à incorporada pela agricultura.
De acordo com Natalia Crusco, 84% da expansão agrícola na porção sul-mato-grossense da Mata Atlântica ocorreu sobre áreas que anteriormente eram utilizadas como pastagem. Outros 7% do avanço das lavouras atingiram diretamente áreas de vegetação nativa.
A proporção de lavouras implantadas sobre antigas pastagens em Mato Grosso do Sul ficou acima da registrada no conjunto da Mata Atlântica brasileira. Em todo o bioma, o MapBiomas identificou que 79% do aumento da agricultura ocorreu sobre pastagens. Essa conversão respondeu por 19% das mudanças de cobertura e uso da terra observadas entre o início e o fim da série histórica.
Mesmo com alterações expressivas dentro da classe agropecuária, sua área total em Mato Grosso do Sul cresceu apenas 2%, passando de 2,66 milhões para 2,71 milhões de hectares. Os números mostram uma mudança na composição do território produtivo, com menos pastagens e mais lavouras.
A silvicultura também avançou, com a área que passou de 1,4 mil para 12 mil hectares, aumento de 731%. Já a área urbanizada cresceu 102%, de 9,2 mil para 18,7 mil hectares, e representava 0,5% da porção estadual do bioma em 2025.

Parques - Os principais remanescentes de Mata Atlântica em Mato Grosso do Sul estão concentrados no entorno do Rio Paraná e na Serra da Bodoquena. Segundo o Imasul (Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul), o Estado abriga a maior área contínua preservada de Mata Atlântica no interior do Brasil. No entorno do Rio Paraná, um mosaico de unidades de conservação abrange mais de 1 milhão de hectares.
O conjunto inclui o PEVRI (Parque Estadual das Várzeas do Rio Ivinhema), a APA (Área de Proteção Ambiental) das Ilhas e Várzeas do Rio Paraná, além de reservas particulares e parques municipais. A extensão dessas unidades não corresponde necessariamente apenas à vegetação nativa, pois áreas protegidas podem reunir diferentes ambientes e formas de ocupação.
Criado em 1998, o Parque Estadual das Várzeas do Rio Ivinhema possui 73.345 hectares distribuídos entre Jateí, Naviraí e Taquarussu. Na Serra da Bodoquena, o parque nacional de mesmo nome protege aproximadamente 76,4 mil hectares. Criada em 2000, a unidade conserva uma região em que a Mata Atlântica ocorre em contato com Cerrado, Pantanal e Chaco paraguaio.
O parque também abriga rios conhecidos pela transparência das águas, favorecida pela presença de carbonato de cálcio. Entre eles está o Rio Salobra, reconhecido pelo Governo do Estado como rio cênico.
Vegetação regenerada - Em Mato Grosso do Sul, quase um terço da vegetação nativa de Mata Atlântica existente em 2025 era secundária, formada por áreas que voltaram a crescer após terem sido desmatadas desde 1985. Segundo Natalia Crusco, a vegetação secundária representava 32% da cobertura nativa da porção sul-mato-grossense do bioma, percentual superior aos 24% registrados no conjunto da Mata Atlântica brasileira.
Essa participação cresceu de forma expressiva nas últimas duas décadas. Em 2005, a vegetação secundária correspondia a 22% da vegetação nativa do bioma no Estado. Em 2025, chegou a 32%, um aumento de dez pontos percentuais. No mesmo período, a participação da vegetação primária diminuiu de 77% para 68%.
“A regeneração da vegetação é importante para a conservação da Mata Atlântica e para a manutenção de serviços ecossistêmicos, como a qualidade da água, do solo e do ar”, explica a coordenadora técnica do MapBiomas.
No conjunto da Mata Atlântica, o bioma perdeu 9,7 milhões de hectares de vegetação madura em 41 anos, enquanto mais de 8 milhões de hectares de vegetação secundária se estabeleceram em áreas anteriormente desmatadas.
Segundo o levantamento, a vegetação regenerada também vem sendo destruída. Entre 2021 e 2025, a Mata Atlântica perdeu 1,2 milhão de hectares de vegetação nativa. Desse total, 700 mil hectares eram de vegetação secundária e 500 mil de vegetação madura. Com isso, 60% da supressão registrada nos últimos cinco anos atingiu áreas que haviam voltado a crescer.
Em todo o Brasil, o bioma perdeu 5 milhões de hectares de vegetação nativa desde 1985, redução de 12%. Rio de Janeiro e São Paulo foram os únicos estados que não registraram perda no período.
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