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Meio Ambiente

Enquanto a água não vem do céu, o fogo parece brotar do chão pantaneiro

Chamas continuam a consumir grandes áreas; lago seco e animais mortos mudam o cenário da região

Por Nyelder Rodrigues e Marcos Maluf | 21/09/2020 18:44
Confira a Galeria de Imagens:

Parece redundante escrever isso. E é mesmo. O fogo em solo pantaneiro já se tornou algo redundante e retratar qualquer coisa sobre ele acaba assim também sendo. Entre 100 e 200 quilômetros além de Coxim, uma chuva como essa de segunda-feira (21), que trouxe alívio aos campo-grandenses, nem passou perto dali.

A situação é cada vez mais preocupante na região, já que a estiagem não dá trégua e os incêndios são dia após dia mais perigosos. O último mesmo começou na noite de sábado (19) e foi contido apenas no fim do domingo (20).

De um lado, a fazenda Brasil Novo, onde tudo começou. Três tratores e 20 homens a posto para conter as chamas. Do outro, a fazenda Santa Marta, onde dois tratores e nove pessoas foram designadas para fazer o serviço e evitar que tudo fosse perdido.

"Começamos a trabalhar contra o fogo eram umas 11 da noite no sábado e só paramos lá pelas sete e meia da noite de domingo", conta o capataz da propriedade. Ele não quis se identificar, mas conta que cerca de 1 mil hectares foram afetados na fazenda Brasil Novo, em extensão que soma aproximadamente 5 mil quilômetros.

O trabalho foi duro e solitário. Nem mesmo o Corpo de Bombeiros de Coxim, quando acionado e avisado do incêndio, pode ajudar. "Apenas nos falaram que não tinham como enviar equipes, mas podiam colocar dois bombeiros para coordenar as ações. Recusamos e nós mesmos apagamos o fogo", revela o capataz da outra fazenda, a Santa Marta.

Ele foi acordado pelo colega da área vizinha às quatro da manhã e avisado que logo as chama ali também chegariam. "Recebi a ligação e nos mobilizamos. O serviço só parou às oito da noite. Foi uma operação, um verdadeiro mutirão. Apagamos com trato e folhas de bacuri, na força pantaneira mesmo", descreve.

Ali, na Santa Marta, foram 200 hectares atingidos. "O fogo estava bravo e tivemos que apagar mais ou menos umas 40 aroeiras verdes que estavam em pura brasa", diz o outro capataz, da fazenda Brasil Novo.

Área devastada pelo fogo, que atingiu duas fazendas e várias chácaras (Foto: Silas Lima)
Área devastada pelo fogo, que atingiu duas fazendas e várias chácaras (Foto: Silas Lima)

No caminho, cinzas - Quanto mais nossa equipe andou pela porção norte pantaneira em Mato Grosso do Sul, mais precisamente na rodovia Transpantaneira, mais restos de incêndios foram encontrados. Fomos embora, mas o problema não acabou.

Para trás ficaram animais mortos. Se flagramos um boi e uma cobra, há certamente inúmeros outros bichos sacrificados ali pelo fogo. Com sorte, também registramos um lagarto, que escapou do fogo, mas não vai conseguir escapar da dificuldade de viver, ao invés da terra umidade e alagada ao qual deveria, em um solo árido e quase morto.

As cinzas são rastros da destruição do fogo e deixam marcas. Até o lago, outrora cheio, míngua à secura. Enquanto a chuva não chegar lá, essa é a dura realidade. Dona Tereza Francisca sabe disso. Ela tem 68 anos, 18 só de chácara no Pantanal.

O mesmo destino que a levou para a região a colocou também no caminho do fogo. Perdeu 60% de sua propriedade para ele e seu pequeno rebanho acabou tendo que ir para o vizinho. "Foram 22 hectares queimados. Estamos sem pasto e o vizinhos nos ajudou com isso. Deixei todo meu rebanho lá para salvá-los".

Dona Tereza não se surpreende facilmente com o fogo. Diz que é comum ali, ao menos de dois em dois anos. Contudo, neste ano, a coisa foi pior. "Esse ano foi realmente muito forte, por que o pasto estava vedado e meu marido não deu conta de apagar sozinho".

Saindo dali, a reportagem do Campo Grande News seguiu viagem e navegou por um baixo e seco rio Taquari, com suas margens muito abaixo do normal. O assoreamento, algo recorrente, só piora nesse momento. Um problema leva a outro.

Animais mortos, lagos secos e rios morrendo. O Pantanal que tanto inspirou canções e poesias, como as de Manoel de Barros, era um exemplo de vida. Hoje, ganha toques de sertão, o mesmo que inspirou Ariano Suassuna, Graciliano Ramos e tantos outros.

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