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Meio Ambiente

Pesquisa sobre araras envenenadas no Pantanal é publicada na Nature

Animais morreram após ingerirem pesticida e necropsia foi feita pelo instituto Arara Azul

Por Tainá Jara | 20/03/2021 15:41
Arara azul envenenada por organofosforado no Pantanal (Foto: Divulgação/Carlos Cézar Corrêa/Arara Azul)
Arara azul envenenada por organofosforado no Pantanal (Foto: Divulgação/Carlos Cézar Corrêa/Arara Azul)

Pesquisa sobre o envenenamento de araras por pesticida no Pantanal, foi publicado na Revista Natura, uma das mais importantes da ciência, no dia 10 de março deste ano. O artigo científico, de autoria das biólogas Eliane Vicente e Neiva Guedes, do Instituto Arara Azul, faz relato sobre a morte por envenenamento de três exemplares de araras azuis (Anodorhynchus hyacinthinus).

O fato ocorreu em 2014. As aves, encontradas pelo proprietário. Uma arara estava morta e duas agonizando em vida, mas indo a óbito em seguida. Ele as encaminhou para o Instituto Arara Azul. Durante a necropsia verificou-se um quadro compatível com envenenamento e por isso, foi realizada a coleta de órgãos viscerais como fígado, baço e estômago e encaminhado para o Centro de Serviço Toxicológico Ceatox – Unesp Botucatu, um centro de referência em análise de pesticidas e agrotóxicos no Brasil.

Foi identificado um alto valor de Phosdrin/Menvifos (158,44ppb) produto encontrado em vários pesticidas, com diferentes nomes comerciais, utilizados para controle de ácaros, carrapatos e insetos, de interesse à pecuária. Embora essa mortalidade tenha sido um caso isolado e relativamente raro, o caso serve de alerta para o uso inadequado destes produtos. Estes produtos podem ser carreados pela água, infiltrados no solo e posteriormente serem absorvidos pela pele ou mucosas, levando a óbito diferentes exemplares da fauna silvestre.

Segundo o artigo das biólogas Eliane Vicente e Neiva Guedes, o uso de pesticidas pode afetar direta e indiretamente a vida selvagem. Alguns animais podem ser diretamente afetados durante a aplicação de pesticidas, porque consomem os alimentos e água contaminados, ou por envenenamento secundário devido aos efeitos residuais dos pesticidas na contaminação do ar, água e solo. Os efeitos residuais dos pesticidas podem promover mudanças de comportamento em muitos organismos, e afetar importantes fases de desenvolvimento ou aspectos do seu ciclo biológico, especialmente a reprodução.

Um dos exemplares de arara morta utilizado na pesquisa (Foto: Divulgação/Carlos Cézar Corrêa/Arara Azul)
Um dos exemplares de arara morta utilizado na pesquisa (Foto: Divulgação/Carlos Cézar Corrêa/Arara Azul)

Por outro lado, o aumento da libertação de pesticidas no Brasil desde 2019 é uma séria preocupação, especialmente com o conhecimento atual dos efeitos residuais dos pesticidas sobre o ambiente. O impacto dos resíduos de pesticidas afetou vários grupos animais, especialmente abelhas, um dos grupos mais estudados relativamente às consequências e danos causados por venenos sintéticos ou fito moleculares.

A intenção do Instituto Arara Azul e dos pesquisadores, com os estudos que resultaram nesta publicação, não é a de denúncia e sim de subsídios e alerta na formulação das Políticas Públicas que envolvem a biodiversidade. É compreensível que o desenvolvimento socioeconômico é necessário, mas é mais importante que esta compreensão esteja respaldada no conhecimento científico, para que os impactos não sejam desastrosos. A toxicidade dos organofosforados e de outros pesticidas indicam o quão potencialmente agressivos eles são para o meio ambiente e a vida selvagem, além dos riscos que causam a população humana.

A arara azul é uma espécie bandeira para a conservação que pode viver até 35-40 anos na natureza (em cativeiro tem relatos de até 60 anos). É uma espécie extremamente especializada na alimentação, comendo basicamente castanhas de duas palmeiras em cada local de ocorrência. E vale ressaltar que encontrar araras azuis mortas na natureza não é fácil. Tem que estar andando no campo com frequência, ou encontra-las perto das residências ou currais antes que outras espécies como urubus, lobinhos, tatus, porcos usem para se alimentar.

O Instituto Arara Azul, através de seus projetos de pesquisa e conservação, se sente responsável por transmitir à sociedade os resultados que vem conquistando ao longo de 30 anos, como é o caso do Projeto Arara Azul.

O artigo pode ser acessado em https://www.nature.com/articles/s41598-021-84228-3.

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