Receita da celulose se concentra e municípios do leste de MS cobram compensação
Crescimento industrial atrai população para polos econômicos, pressiona serviços urbanos e amplia desigualdade
O avanço da indústria de celulose no leste de Mato Grosso do Sul tem concentrado população, investimentos e arrecadação em poucos municípios, enquanto cidades menores crescem em ritmo mais lento e enfrentam dificuldades para acompanhar o desenvolvimento regional. O fenômeno, impulsionado principalmente pela expansão da silvicultura e pela instalação de grandes empreendimentos industriais, tem provocado migração interna, mudanças na base econômica e pressão sobre a infraestrutura urbana dos polos receptores.
RESUMO
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A expansão da indústria de celulose no leste de Mato Grosso do Sul concentra população e arrecadação em poucos municípios, enquanto cidades menores enfrentam êxodo rural e queda na renda. Três Lagoas arrecadou R$ 1,3 bilhão em 2024, contra R$ 127 milhões de Selvíria. Gestores defendem a criação de um fundo de compensação para municípios que perdem receita e trabalhadores para os grandes polos industriais da região.
Diante desse cenário, gestores municipais defendem a criação de mecanismos de compensação para cidades que sofrem impactos indiretos da atividade. Documento elaborado pelo secretário-adjunto de Meio Ambiente e Turismo de Selvíria, Valticinez Barboza Santiago, que também atua como consultor contábil e ambiental, propõe a criação de um fundo de participação destinado a municípios que perdem arrecadação e enfrentam efeitos sociais decorrentes da concentração industrial. A medida prevê compensação financeira, incentivo ao desenvolvimento local e apoio à agricultura familiar.
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A proposta busca reduzir desigualdades regionais e distribuir de forma mais equilibrada os benefícios do crescimento econômico, incluindo municípios menores que ficam na área de influência dos grandes polos industriais.
Crescimento concentrado - Os dados populacionais evidenciam a concentração. Em Três Lagoas, principal polo industrial da região, a população passou de 132.152 habitantes no Censo de 2022 para 143.523 em 2025, crescimento de cerca de 8,6% em três anos. No mesmo período, Ribas do Rio Pardo, que recebe novos empreendimentos industriais, saiu de 23.150 para aproximadamente 24.152 moradores, aumento de cerca de 4,3%, além de uma população flutuante estimada em 10 mil trabalhadores temporários.
Municípios menores registram avanço mais discreto. Em Selvíria, a população aumentou de 8.142 habitantes em 2022 para cerca de 8.716 em 2025. Situação semelhante ocorre em Brasilândia, onde o total passou de 11.579 habitantes para aproximadamente 11.833 no mesmo período, crescimento de cerca de 2,2%.
Diferença nas receitas - A concentração também aparece na arrecadação. Três Lagoas registrou cerca de R$ 1,3 bilhão em receitas brutas em 2024. Ribas do Rio Pardo somou R$ 366 milhões, enquanto Selvíria arrecadou aproximadamente R$ 127 milhões no mesmo período. Municípios menores, como Brasilândia, operam com orçamento mais reduzido, o que limita a capacidade de investimento e reforça a dependência econômica regional.
A disparidade evidencia a concentração financeira nos polos industriais. O principal polo arrecada cerca de dez vezes mais que Selvíria, enquanto Ribas do Rio Pardo tem receita quase três vezes superior à do município menor.
Migração e deslocamento - Segundo o documento técnico elaborado por Santiago, a expansão econômica tem estimulado a migração de trabalhadores em busca de emprego. Esse deslocamento reduz a população rural e enfraquece comunidades menores, ao mesmo tempo em que concentra renda e serviços em poucos centros urbanos.
Esse movimento é percebido na prática. Em Brasilândia, a prefeita Márcia Amaral (PSDB) afirma que a atividade econômica do município mudou com o avanço da silvicultura, substituindo a pecuária, antes predominante. Segundo ela, houve êxodo rural e perda de trabalhadores do campo.
“Antigamente a principal atividade era a pecuária. Hoje quase não temos mais. A silvicultura tomou espaço em praticamente todo o município. O impacto é muito grande, mas o reflexo positivo é muito pequeno”, afirmou.
A prefeita relata que muitos moradores deixaram a zona rural e migraram para a cidade, mas não encontraram oportunidades compatíveis. “Não tem trabalho na área deles. Muitos foram embora do município em busca de renda. A geração de emprego não acontece na mesma proporção.”
Ela afirma que a maior parte das vagas está concentrada em atividades de campo, com poucas oportunidades para cargos mais qualificados. “As vagas para Brasilândia são para campeiro. Não existem oportunidades de cargos que ganham melhor. Os trabalhadores acabam indo para municípios vizinhos.”
Mudança econômica - Segundo a prefeita, o município tem grande área de plantio florestal, mas pouca geração local de renda. “Estamos entre as dez cidades com maior plantio do país. A gente é um quintal, mas não tem nada. É um quintal limpo”, afirmou.
Ela também defende a criação de um plano de compensação. “Eu concordo com a criação de um fundo para as cidades que perdem arrecadação. Quando as empresas chegam, trazem terceirizadas, mas isso não gera emprego aqui. Precisamos de capacitação e divisão das oportunidades.”
Márcia Amaral acrescenta que a valorização das terras favoreceu proprietários, mas não trouxe o mesmo benefício para trabalhadores. “O proprietário arrendou ou vendeu, mas e o trabalhador? A geração de emprego é muito pequena.”
Perdas - Em Selvíria, o impacto também é sentido na arrecadação. O secretário-adjunto Valticinez Barboza Santiago afirma que a matéria-prima é produzida nos municípios impactados, mas a tributação ocorre nas cidades-sede das indústrias.
“A matéria-prima é plantada aqui, mas a tributação acontece no município sede da empresa. Ficamos sem a receita do ISS (Imposto Sobre Serviços) do transporte e sem parte do Fundersul (Fundo de Desenvolvimento do Sistema Rodoviário do Estado de Mato Grosso do Sul)”, explicou.
Ele afirma que Selvíria não possui arrecadação industrial relevante e perdeu atividades tradicionais. “Perdemos mais de 70 mil cabeças de gado. A pecuária diminuiu de forma brusca e a zona rural esvaziou. Isso afeta também a agricultura familiar.”
O secretário destaca que um boi gerava arrecadação e emprego, enquanto a silvicultura concentra receitas fora do município. “O eucalipto gera matéria-prima e imposto para o polo industrial. Nós perdemos a arrecadação e a mão de obra.”
Segundo ele, Dados indicam que o rebanho de Selvíria caiu de cerca de 219 mil cabeças em 2010 para aproximadamente 59,5 mil em 2025. No mesmo período, o mercado da arroba do boi teve valorização média de cerca de 248%, evidenciando a mudança estrutural na atividade econômica local.
Necessidade de compensação - Valticinez Barbosa defende ajustes na legislação para equilibrar o desenvolvimento. “Não somos contra a silvicultura. Mas é preciso atualizar leis ambientais, criar mecanismos compensatórios e definir novas regras de uso do solo”, afirmou.
Ele também sugere uma legislação específica para a atividade, com mecanismos tributários e compensatórios semelhantes a modelos adotados em outras regiões.
Expansão florestal - A expansão do setor florestal reforça o peso econômico da atividade. A pesquisa Produção da Extração Vegetal e da Silvicultura divulgada pelo IBGE aponta que duas cidades de Mato Grosso do Sul estão entre as líderes nacionais em produção florestal em 2024. Três Lagoas aparece na 2ª posição do ranking, enquanto Brasilândia ocupa o 3º lugar, ambas impulsionadas pelo plantio de eucalipto voltado à indústria de celulose.
No topo está General Carneiro (PR), com R$ 674,4 milhões em produção econômica, seguida por Três Lagoas; em 3º lugar aparece João Pinheiro (MG), depois Brasilândia (4º) e Buritizeiro (MG) (5º). No total, a produção econômica das florestas brasileiras somou R$ 44,3 bilhões em 2024, crescimento de 16,7% em relação ao ano anterior.
Em Três Lagoas, a presença da Eldorado Brasil Celulose consolidou o município como referência nacional no setor, enquanto em Brasilândia a expansão das áreas de eucalipto está ligada à expectativa da nova fábrica da Bracell em Bataguassu. Segundo o IBGE, 77,6% das florestas plantadas no Brasil são de eucalipto, espécie preferida pela indústria por ter ciclo rápido de crescimento, entre sete e oito anos. No Estado, Ribas do Rio Pardo também se destaca com a maior área contínua de eucalipto do Brasil, somando 380,7 mil hectares, quase o dobro do território de São Paulo.
“O crescimento é importante, mas precisamos que os benefícios cheguem também às cidades menores”, afirmou a prefeita de Brasilândia. “Sozinhos não conseguimos. O caminho é unir os municípios e buscar soluções conjuntas”, conclui.
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