Tráfico leva filhotes, destrói ninhos e ameaça futuro dos papagaios livres em MS
Projeto monitora cavidades, enfrenta saque das aves recém-nascidas e cria novos abrigos para ajudar a espécie
Antes de ganhar o céu, um filhote de papagaio-verdadeiro depende do abrigo de uma árvore e do cuidado dos pais. É nesse começo da vida que o tráfico de filhotes e, às vezes, até ovos, mais acontece. A ação dos traficantes se concentra nos meses de setembro e outubro, enquanto os pequenos estão frágeis e ainda sem penas dentro dos ninhos. No Cerrado e na Mata Atlântica de Mato Grosso do Sul, traficantes arrombaram 75% das cavidades acompanhadas pelo Projeto Papagaio-verdadeiro, vinculado à Fundação Neotrópica do Brasil, segundo dados apresentados pela idealizadora e coordenadora da iniciativa, doutora Gláucia Seixas.
RESUMO
Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!
Dados do Projeto Papagaio-verdadeiro, da Fundação Neotrópica do Brasil, mostram que 1.292 de 1.724 cavidades monitoradas no Cerrado e na Mata Atlântica de Mato Grosso do Sul foram arrombadas entre 2016 e 2024, com cerca de 1.089 filhotes roubados. A coordenadora Gláucia Seixas aponta que o tráfico se concentra em setembro e outubro. Ninhos artificiais têm sucesso reprodutivo de 44%, contra 21% nos naturais. Entre 1988 e 2025, cerca de 12.500 filhotes foram apreendidos no estado.
O saqueador retira as aves e danifica os ninhos onde outras gerações poderiam nascer. O levantamento apresentado pela pesquisadora mostra que, de 1.724 cavidades monitoradas, cerca de 1.292 sofreram arrombamentos por traficantes. Algumas foram invadidas de 1 a 5 vezes. Nestas cavidades monitoradas pelo projeto, estima-se que os traficantes roubaram dos ninhos 1.089 filhotes, com aproximadamente 5 a 50 dias de vida.
- Leia Também
- Dois filhotes de papagaio-verdadeiro são roubados de ninho monitorado em MS
- Beija-flor e papagaio protegido internacionalmente são resgatados de cativeiro
Os números foram apresentados por Gláucia durante um evento de ConservAÇÃO MS, realizado em Campo Grande. Eles se referem ao acompanhamento nas regiões do Cerrado e da Mata Atlântica de MS, no período de 2016 a 2024, e não representam todos os ninhos da espécie existentes no Estado. Para a pesquisadora, proteger os filhotes também exige preservar as cavidades que os abrigam.
Segundo os dados, esses ninhos, normalmente em palmeiras, têm vida útil média de seis a sete anos, mas os danos provocados pelo arrombamento reduzem sua duração. A destruição do ninho para retirada dos filhotes de papagaio deixa um prejuízo que pode alcançar outras estações reprodutivas. É para enfrentar essa pressão que o projeto percorre áreas de Batayporã, Glória de Dourados, Ivinhema, Itaquiraí, Jateí, Naviraí, Novo Horizonte do Sul e Taquarussu.

No início de cada estação, a equipe verifica cerca de 300 a 400 cavidades naturais cadastradas e procura novos abrigos. Depois, o trabalho se concentra nos ninhos ativos, aqueles onde há adultos, ovos ou filhotes. São aproximadamente 150 a 250 cavidades por estação, em um número que muda conforme as condições encontradas pelas aves.
“Este número varia bastante, de ano para ano”, explica Gláucia.
A disponibilidade de alimento, as chuvas e a existência de cavidades estão entre os fatores que influenciam a reprodução dos papagaios. Esses dados de monitoramento se referem apenas aos oito municípios do Cerrado e Mata Atlântica de MS, e não incluem os ninhos acompanhados pelo projeto no Pantanal.
Gláucia explica que a pressão do tráfico se soma à perda de árvores com cavidades, afetadas pela transformação dos ambientes naturais pela ação humana, como agricultura industrial e limpeza de pastagem, ou pelos incêndios florestais. Para uma ave que precisa desses abrigos para se reproduzir, a falta de árvores também limita a possibilidade de criar filhotes.

Novos abrigos - Uma das ferramentas do projeto são os ninhos artificiais. Desde 2019, cerca de 450 ninhos foram confeccionados, instalados e monitorados para oferecer novas oportunidades de reprodução. Os resultados apresentados por Gláucia mostram um sucesso reprodutivo de 44% nos ninhos artificiais do Cerrado e da Mata Atlântica, diante de 21% nos naturais dessas regiões. No Pantanal, o sucesso reprodutivo da espécie em ninhos naturais é de 53%.
Segundo a especialista, 40% dos ninhos artificiais disponíveis são ocupados por papagaios-verdadeiros, enquanto outros 40% abrigam cerca de 20 espécies de aves. E neste caso ela costuma dizer "não é verde, mas é vida", pois o projeto está ajudando inúmeras espécies. Durante o monitoramento de todos os ninhos, Gláucia também marca os filhotes com anilhas numeradas.
Na atual estação reprodutiva, ela informou já ter colocado anilhas em aproximadamente 20 filhotes, sendo a maioria nascida em ninhos artificiais. A identificação ajuda a reconhecer a origem das aves, caso sejam encontradas posteriormente, inclusive em apreensões fora de Mato Grosso do Sul.
Enquanto o projeto procura garantir que esses filhotes de papagaios tenham a oportunidade de crescer e voar livremente na natureza, muitos filhotes morrem durante a captura, o transporte ou as etapas posteriores do comércio ilegal. Outros chegam aos centros de triagem e reabilitação, onde começa uma nova tentativa de recuperação.
Uma vida dedicada à espécie - O Projeto Papagaio-verdadeiro nasceu em 1997, durante a experiência de Gláucia no CRAS em Campo Grande, onde recebiam filhotes vítimas do comércio ilegal. O contato com essas aves se transformou em uma paixão, além de missão de vida. Da especialização ao pós-doutorado em Ecologia e Conservação, Gláucia se dedicou a gerar conhecimentos para dar base à conservação e combate ao tráfico da espécie. Ela idealizou e coordena a iniciativa executada pela Fundação Neotrópica do Brasil, instituição que também ajudou a fundar em 1993.
O panorama sobre a espécie foi retratado em um artigo científico publicado em setembro de 2026 na revista Ambiente & Sociedade, assinado por José Rodolfo Wendt-Oliveira, Carla Letícia Gediel Rivero-Wendt, Alexandre de Matos Martins Pereira e Neiva Guedes. Os pesquisadores analisaram 271 relatórios de apreensão da Polícia Militar, do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e da Polícia Rodoviária Federal, referentes ao período de 2017 a 2021 em Mato Grosso do Sul.
O papagaio-verdadeiro apareceu em 27% dos registros e foi a espécie com maior frequência e quantidade de indivíduos apreendidos. Em 13 das 20 ocorrências com maior número de animais, foram contabilizados 892 papagaios-verdadeiros. O levantamento também identificou concentração das apreensões da espécie no segundo semestre, período que coincide com a pressão sobre os ninhos descrita por Gláucia.
Os registros mostram a parcela do problema alcançada pela fiscalização. Não permitem calcular quantos animais foram retirados da natureza sem serem encontrados.
Uma vida dedicada à espécie - O Projeto Papagaio-verdadeiro nasceu em 1997, durante a experiência de Gláucia no CRAS em Campo Grande, onde recebiam filhotes vítimas do comércio ilegal. O contato com essas aves se transformou em uma paixão, além de missão de vida. Da especialização ao pós doutorado em Ecologia e Conservação, Gláucia se dedicou a gerar conhecimentos para dar base à conservação e combate ao tráfico da espécie. Ela idealizou e coordena a iniciativa executada pela Fundação Neotrópica do Brasil, instituição que também ajudou a fundar em 1993.
O trabalho reúne pesquisa científica, educação ambiental, apoio às políticas públicas e manejo para conservação, com ninhos artificiais. Gláucia orienta as pessoas a não retirarem ou comprarem papagaios nascidos em vida livre, além de denunciar o saque de ninhos e a venda ilegal.
Como ajudar - Interessados em contribuir com o projeto Papagaio-verdadeiro podem fazer doações por meio do Pix (67) 99252-8866. Informações sobre a Campanha Adote um Ninho e seja Amigo(a) dos Louros, ou outras formas de apoio estão nos perfis @projetopapagaioverdadeiro e @fundacaoneotropicabrasil e pelo telefone (67) 99252-8866.
Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais.

