Aos 10 anos de idade, prisão do pai transformou política em trauma de infância
Filho de Humberto Neder relata prisões, perseguição e exílio que marcaram a família após o golpe de 1964.
Na noite de 31 de março de 1964, Humberto Neder Filho estava em casa, em Campo Grande, ao lado do pais, que acompanhava pelo rádio as notícias preocupantes sobre o golpe que começava a derrubar o governo João Goulart. Tinha 10 anos. Foi quando o telefone tocou. Do outro lado da linha estava o vigia noturno da Companhia Telefônica, empresa presidida por seu pai. Ele avisava que um grupo de soldados queria entrar e ocupar as instalações da central sob o argumento de que precisava protegê-las.
RESUMO
Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!
O pai de Humberto foi até a companhia acompanhado do advogado da empresa. Segundo o filho, permitiu a entrada dos militares e, quando se preparava para deixar o local, um suboficial cochichou alguma coisa no ouvido do capitão que comandava a tropa. A ordem seguinte foi para que os soldados cercassem o empresário. Com armas e baionetas apontadas para ele, deram voz de prisão ao senador da República e o levaram em um veículo militar para um quartel.
- Leia Também
- Perseguição à família durante a ditadura militar levou Henrique a “radicalizar”
- Repressão política aos Neder em MS atingiu família, reputação e destruiu negócio
“Naquela noite o meu pai não voltou para casa”, escreveu Humberto Filho décadas depois, ao reconstruir a história para suas próprias filhas. A família, conta, ficou profundamente abalada e sem compreender o que o empresário e seus irmãos, Alberto e Renê Neder, haviam feito para justificar as prisões.
A cena da prisão na central telefônica ficou como a primeira imagem de uma ruptura que atravessaria sua infância e juventude. O pai não era apenas um empresário: ainda que tenha ocupado interinamente o cargo, era senador da República e, segundo o filho, um dos líderes da resistência democrática no então Estado de Mato Grosso.
Os presos políticos foram levados para o quartel e cadeia da Polícia Militar. Os que tinham diploma universitário, segundo Humberto Filho, ficaram alojados numa grande sala de Estado-Maior, enquanto os presos comuns permaneciam em celas de pouca ventilação, sob forte calor. As famílias dos presos políticos passaram a se organizar para levar refeições aos detidos, porque, segundo seu relato, a alimentação fornecida pelo Estado era de péssima qualidade.
Humberto não acompanhava os debates políticos como um adulto, mas guardou a lembrança daqueles encontros. Os presos com formação superior podiam circular entre as salas onde estavam alojados e o pátio, onde havia bancos em torno de um campo de futebol. Ali, conta, conversavam sobre as primeiras cassações de mandatos e suspensões de direitos políticos e sobre os Atos Institucionais que começavam a definir o contorno do que seria a mais longa ditadura militar do país.
Para o menino, porém, a política chegou primeiro com a ausência repentina do pai em casa. Décadas depois ele diria que ver o pai, os tios e os companheiros de política presos foi uma experiência traumática que marcou sua infância e juventude.
“Foi uma época muito difícil, muito sofrida, a família toda foi perseguida. Nós, ainda criança, tivemos que aguentar muitas passagens ruins, com os pais presos.”, lembra, em entrevista ao Campo Grande News.
Prisões e mudança para SP
Humberto Neder permaneceu preso por quase dois meses e passou a responder a um Inquérito Policial Militar. Depois de libertado, continuou respondendo aos procedimentos em liberdade. Segundo o filho, os processos terminaram sem que fossem encontradas ilegalidades nos atos praticados pelos acusados.
A liberdade, porém, não significou o fim da perseguição. Humberto Filho afirma que o pai voltou a ser preso duas vezes entre maio de 1964 e julho de 1965, sem acusações formais. Uma nova prisão ocorreu no Rio de Janeiro, para onde Humberto Neder havia sido chamado depois de prestar esclarecimentos à Polícia Federal em São Paulo. Ao comparecer à unidade fluminense, recebeu novamente voz de prisão.
Foi então que, segundo o filho, os pais concluíram que permanecer em Campo Grande significaria viver sob a ameaça permanente de novas prisões. A família decidiu ficar em São Paulo, para onde havia ido inicialmente durante as férias escolares de julho de 1965.
A mudança teve relação direta com a situação do pai, mas também com a própria estrutura do principal empreendimento da família. A Companhia Telefônica Oeste do Brasil, a Teleoeste, já tinha sua sede social em São Paulo. Segundo Humberto Filho, a empresa era o principal empreendimento de seu pai e possuía concessões para prestar serviços de telefonia local nas principais cidades do então Estado de Mato Grosso, além de serviços de longa distância intermunicipal, interestadual e internacional.
Infância interrompida
Em agosto de 1965, aos 11 anos, Humberto Filho começou a estudar na Escola Estadual Caetano de Campos, na Praça da República, no velho centro da capital paulista. A mudança foi brusca. Ele havia deixado para trás a casa de Campo Grande, com quintal e piscina, além dos amigos, primos, tios, tias e avós.
Em São Paulo, passou a viver com os pais e os cinco irmãos em um apartamento relativamente pequeno no centro da cidade. A família havia saído de uma vida marcada pela convivência com uma extensa rede de parentes para uma rotina completamente diferente numa metrópole.
Até o sotaque se tornou uma marca da ruptura. Acostumado à maneira de falar do então Mato Grosso, Humberto recebeu na nova escola o apelido de “Capiau”. O nome o acompanharia por décadas e, segundo ele, continuou sendo usado nas reuniões de ex-alunos, algo que levava na esportiva.
Ele lembra que os seis filhos e a mãe passaram a viver boa parte do dia dentro do apartamento, sem o espaço para brincar, correr e jogar bola que tinham em Campo Grande. As diversões ficaram restritas à televisão, aos livros, às revistas em quadrinhos e aos aeromodelos.
A lembrança da mudança representou a perda repentina de uma infância longe dos amigos, parentes, restrições à liberdade de circular pelas ruas e da convivência com uma família extensa. A perseguição aparecia sobretudo nos documentos como prisão, inquérito e vigilância, que invadiam o cotidiano.
Dez anos de exílio
A ruptura se prolongaria para além da mudança para São Paulo. Segundo Humberto Filho, a família permaneceu cerca de dez anos no Paraguai. O exílio, segundo afirma, foi consequência de um período em que a família não conseguia mais viver com tranquilidade no Brasil diante da perseguição ao pai.
Ele situa o retorno no início do processo de redemocratização, em meados dos anos 1980.
A experiência do pai preso e da família deslocada para São Paulo não ficou restrita à memória doméstica. Humberto Filho afirma que aqueles acontecimentos produziram nele uma profunda revolta e uma disposição de resistência que o acompanhariam pela vida.
A herança política
A trajetória posterior ajuda a medir a o tamanho dessa formação. Ele tornou-se delegado da Polícia Civil de São Paulo e, depois de aposentado, manteve atuação política. Em 2020, disputou, sem sucesso, a Prefeitura de Angatuba, no interior paulista, pelo PT, como Delegado Humberto Neder. A sequência biográfica é reveladora: o menino que tinha 10 anos quando viu o pai ser preso na noite do golpe cresceu, tornou-se policial e, décadas depois, entrou numa disputa eleitoral pelo partido do líder mais combatido pelo grupo que controla a política na terra natal.
Essa trajetória se soma à de outros descendentes dos Neder e ajuda a explicar por que a história da família não termina com a prisão de Alberto, Renê e Humberto. Os efeitos da perseguição alcançaram também os filhos, seja pela ruptura da vida familiar, pelas experiências de deslocamento e exclusão ou pelas escolhas políticas que cada um fez posteriormente.
No caso de Humberto Filho, há uma linha que atravessa seis décadas desde a noite em que o pai foi atraído para a armadilha da prisão em sua própria empresa. Para a família Neder, o golpe continuou a produzir efeitos entre os filhos muito depois do fim da ditadura. É uma história que a ditadura quase apagou da vida sul-mato-grossense, mas que a memória restaurativa teima em trazer de volta para não ser esquecida: “Muito mais do que pela questão patrimonial, pela questão de resgate da história.”, disse Humberto Filho ao Campo Grande News.



