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Política

Repressão política aos Neder em MS atingiu família, reputação e destruiu negócio

Humberto virou alvo prioritário da ditadura em Campo Grande e saiu do país para escapar da perseguição militar

Por Vasconcelo Quadros, de Brasília | 19/09/2026 07:30
Repressão política aos Neder em MS atingiu família, reputação e destruiu negócio
Família Neder reunida em registro de época. Na última fila, o segundo da esquerda para a direita é Renê Neder, ao lado do irmão Alberto; Humberto Neder aparece no lado extremo direito. Na fila intermediária, a segunda da esquerda para a direita é a esposa de Renê. Também aparecem no registro outros integrantes da família, entre eles Alfredo Neder e os avós. (Foto: Acervo da família Neder)

Um breve olhar na galeria das vítimas da ditadura mostra que, além de torturar, matar e sumir com corpos, o aparato militar estruturado a partir do golpe de 1964 reprimiu com crueldade as famílias de opositores. Em alguns casos, como os Petit e os Grabóis, na Guerrilha do Araguaia, nenhum deles escapou do extermínio premeditado. Em outros, como a ferrenha perseguição aos irmãos Neder, em Campo Grande, pessoas respeitadas na sociedade foram presas, humilhadas em público, estigmatizadas pelo preconceito ideológico anticomunista e sofreram pesadas perdas, que vão da marginalização social patrocinada por setores da elite rural alinhados ao regime militar, a prejuízos econômicos.

RESUMO

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A ditadura militar brasileira pós-1964 perseguiu sistematicamente famílias de opositores, como os irmãos Neder, de Campo Grande. Renê, Alberto e Humberto foram presos no porão da NOB, centro clandestino de tortura. Humberto, ex-senador e pioneiro das telecomunicações, teve sua empresa telefônica desapropriada e incorporada à Telebrás em 1972, com indenização inferior a 20% do valor real, e viveu exilado no Paraguai por uma década. O Ministério Público Federal investiga o caso.

“Foi uma nuvem escura sobre nossa família”, disse ao Campo Grande News o economista Henrique Neder, filho do advogado, empresário rural e colonizador Renê Neder, preso com os irmãos Alberto e Humberto. Os três ficaram detidos no porão da antiga superintendência da NOB (Noroeste do Brasil), na esquina das avenidas Mato Grosso com Calógeras, que funcionou também, segundo o Comitê Memória, Verdade e Justiça do Estado, como centro de tortura clandestina na capital.

Alvos antes do golpe

Os irmãos Neder entraram na mira dos órgãos de repressão bem antes da eclosão do golpe, em 31 de março de 1964. Eles eram monitorados pela chamada Operação Tarrafa, que os listava como prioridade número 1 de prisão. Dos três, o médico Alberto Neder era quem tinha ligações documentadas com o PCB (Partido Comunista Brasileiro), embora praticamente toda a família fosse à época conhecida por suas posições políticas progressistas.

Nenhum dos perseguidos políticos perdeu tanto quanto o empresário Humberto Neder, que estava no auge de sua trajetória empresarial quando ela foi interrompida pela repressão. Ele acabaria vivendo por mais de uma década, entre 1975 e 1985, exilado no Paraguai para proteger a família dos riscos impostos pela ditadura no período agudo dos anos de chumbo, que terminou com 434 mortos e desaparecidos políticos no país.

Numa ofensiva que atingiu opositores também em seu patrimônio, a história de Humberto se confunde com a empresa de telefonia de Campo Grande, a Teleoeste (Companhia Telefônica Oeste do Brasil), empreendimento que levou as telecomunicações a uma região ainda marcada pelo isolamento e pela precariedade da infraestrutura. A história da família Neder está sendo resgatada pelo Ministério Público Federal no chamado Despacho Saneador 149/2026 e em uma Ação Civil Pública que pretende reconstituir graves violações em um universo de mais de mil casos de perseguição política no antigo Sul de Mato Grosso.

Se Alberto e Renê foram atingidos pela repressão em razão de suas trajetórias políticas, Humberto Neder aparece numa dimensão mais complexa da perseguição. Advogado, banqueiro, industrial e empresário, ele não aparece nos documentos militares com a mesma identificação política atribuída a Alberto, formalmente apontado como secretário político do PCB. Humberto foi enquadrado no Plano Tarrafa como “Prioridade 01 de Prisão”, com determinação de prisão preventiva imediata sob a acusação de “advocacia de fomento comunista”. O documento do Ministério Público Federal, porém, não o identifica como dirigente ou integrante do partido.

Antes de se tornar empresário e político, Humberto teve uma passagem pela Força Expedicionária Brasileira (FEB), durante a Segunda Guerra Mundial. Seu período na Itália ficou registrado em um diário de campanha posteriormente publicado, material que também ajuda a iluminar uma fase pouco conhecida de sua formação. Segundo o ex-deputado, jornalista e pesquisador Sérgio Cruz, que reuniu documentos e escreveu sobre a trajetória de Humberto, a experiência italiana aparece associada a um ambiente político em que ele manteve contato com militantes comunistas, embora isso não seja suficiente para classificá-lo como integrante do partido.

Essa passagem pela guerra ajuda a compor um personagem cuja trajetória política não cabe numa identificação única. Décadas depois, Humberto apareceria nos arquivos da repressão como alvo prioritário de prisão, mas sua vida pública havia sido construída também no empreendedorismo, no trabalhismo e na expansão das comunicações, combinação que torna sua trajetória especialmente reveladora sobre os diferentes caminhos percorridos pelos perseguidos da ditadura.

O homem que levou o telefone ao interior

Humberto Neder está associado à criação da Companhia Telefônica de Campo Grande, inaugurada em 1957. O Senado Federal o registra como advogado, banqueiro e industrial e também como presidente do Sindicato das Empresas Telefônicas do Estado de São Paulo. Em 1963, poucos meses antes do golpe, chegou ao Senado por Mato Grosso como suplente de Filinto Müller, nome fortemente associado ao período repressivo da ditadura Vargas, exercendo o mandato pelo PTB entre 3 de maio e 13 de junho daquele ano.

Mas foi no empreendedorismo das telecomunicações que Humberto deixou uma marca que, segundo os relatos reunidos pelo Comitê Memória, Verdade e Justiça, ultrapassava os limites de Campo Grande. Dirigente da entidade, o advogado Lairson Palermo o descreve como pioneiro das comunicações no antigo Sul de Mato Grosso e afirma que Humberto investiu recursos próprios na construção da rede, ampliou linhas já existentes e chegou a construir milhares de quilômetros de linhas telefônicas.

A dimensão da empreitada ajuda a compreender o personagem. Naquele período, quando as empresas eram regionais, levar telefone para o interior significava enfrentar grandes distâncias e uma infraestrutura ainda precária. Cada nova linha representava não apenas um negócio, mas a expansão de uma rede de comunicação em uma região que começava a se integrar econômica e socialmente.

Palermo conta ter conhecido pessoalmente os depósitos da companhia, onde estavam armazenadas grandes bobinas de fios, e compara a atuação de Humberto à de pioneiros nacionais da comunicação, como Davi Nasser e Roquette-Pinto. A comparação revela o conceito de homem com visão de negócios que o empresário adquiriu na memória de pessoas próximas e do movimento que hoje procura recuperar a história dos perseguidos pela ditadura.

Repressão política aos Neder em MS atingiu família, reputação e destruiu negócio
Humberto Neder Filho lembra a história do pai (Foto: arquivo pessoal)

Prisão e perdas

O golpe de 1964 interrompeu essa trajetória. O Plano Tarrafa, elaborado para organizar a repressão, colocou Humberto entre os alvos prioritários de prisão, abrindo um processo contínuo de perseguição que se estendeu à família Neder. O despacho do MPF que resgata a documentação da repressão registra que Alberto, Renê e Humberto, por discordarem do regime de exceção, viraram alvos também de ações destinadas a destruir suas reputações. No caso de Humberto, as acusações de vínculo os partidos comunistas falsas, destinadas a justificar a repressão.

Segundo Palermo, Humberto foi preso em 1964, mas continuou, naquele primeiro momento, proprietário da companhia telefônica. A perda do negócio ocorreu posteriormente, quando o regime, sustentado pelo AI-5 (Ato Institucional número 5) mergulhou definitivamente na ditadura, intensificando a repressão. Ainda de acordo com esse relato, Humberto foi pressionado a fazer um acordo que preservasse seus negócios, mas recusou a negociação. A partir de então, começou a sofrer consequências econômicas.

Palermo afirma que no auge da perseguição, a Companhia Telefônica foi desapropriada, e seu patrimônio, incorporado à estrutura da Telebrás, em 1972. Na avaliação de um dos filhos do empresário, Humberto Neder Filho, no final houve uma compensação financeira pífia, equivalente a menos de 20% do que valia a companhia.

Essa é uma das principais questões ainda abertas na investigação, já que a reconstituição da história deve embasar pedidos de reparação política e também financeira. A afirmação sobre a desapropriação e a ausência de indenização adequada será confrontada com documentos patrimoniais, societários e administrativos.

No mesmo período, a ditadura apertava o controle sobre a sociedade e o setor de telefonia, que era estratégico para o monitoramento de adversários por meio de grampos telefônicos usados largamente pelo aparato policial-militar. Outras operadoras, em diferentes regiões, também foram estatizadas.

O senador que virou alvo

A trajetória política torna o caso ainda mais singular. Humberto havia chegado ao Senado pelo PTB e ocupado temporariamente a cadeira de Filinto Müller em 1963. Menos de um ano depois, aparecia na documentação repressiva como alvo prioritário de prisão, um sintoma claro de represália a sua vinculação política ao trabalhismo de João Goulart e Leonel Brizola. A distância entre essas duas situações sintetiza a ruptura provocada pelo golpe em sua vida pública.

O despacho da procuradora do MPF, Samara Dalloul, dá hoje dimensão documental a essa ruptura. Alberto, Renê e Humberto são listados numa narrativa familiar entre as vítimas nominadas no inquérito. A procuradora determinou a busca, junto ao Comando Militar do Oeste, de livros de registro de presos, fichas de entrada e saída e IPMs referentes aos três.

A história de Humberto, contudo, não termina com a prisão. Depois do exílio no Paraguai, ao retornar a Campo Grande com a família, oito anos depois de encerrada a ditadura militar de 21 anos, não encontraria o mesmo lugar que havia ocupado antes do golpe. Sua trajetória empresarial no Brasil estava interrompida, e ele se tornaria personagem singular na vida política e econômica do antigo Sul de Mato Grosso: um empresário ligado à expansão da infraestrutura de comunicação da região cuja história foi quase apagada no que viria a ser Mato Grosso do Sul.