ACOMPANHE-NOS     Campo Grande News no Facebook Campo Grande News no X Campo Grande News no Instagram Campo Grande News no TikTok Campo Grande News no Youtube
AGOSTO, SÁBADO  15    CAMPO GRANDE 21º

Política

Letalidade policial e feminicídios testam discurso de resultados de Riedel

Fronteira, facções, mortes e eficácia da política de segurança desafiam a agenda tímida dos candidatos

Por Vasconcelo Quadros, de Brasília | 14/08/2026 08:42
Letalidade policial e feminicídios testam discurso de resultados de Riedel
Viaturas na granja onde adolescente foi encontrado, em julho deste ano; polícia diz que ele reagiu, foi baleado e morreu (Foto: Divulgação)

Mato Grosso do Sul chega à campanha eleitoral com uma conta que dificilmente poderá ficar fora do debate sobre segurança pública: a contagem feita pelo Campo Grande News já apontava, nesta sexta-feira (14), 107 mortes decorrentes de intervenção policial em 2026, faltando ainda quatro meses e meio para encerrar o ano.

RESUMO

Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!

Mato Grosso do Sul registrou 107 mortes decorrentes de intervenção policial em 2026, número que supera o total de 2025 e pode bater o recorde de 133 casos em 2023. O dado entra na campanha eleitoral como desafio para o governador Eduardo Riedel, candidato à reeleição. O Estado também figura entre os com maiores taxas de feminicídio do país, com 39 casos em 2025. Especialistas divergem sobre o peso eleitoral do tema.

O número supera o total registrado em 2025 pelas duas referências usadas para medir o fenômeno: 47 casos na base da Sejusp e 75 no levantamento do FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública). As metodologias são diferentes e recomendam cautela na comparação, mas o dado político é difícil de ignorar: a letalidade policial chegou a um nível que pode superar o recorde de 133 mortes registrado em 2023.

O tema ganha peso porque segurança não é uma questão periférica para Mato Grosso do Sul. O Estado ocupa posição estratégica na fronteira com Paraguai e Bolívia, em uma das principais rotas internacionais utilizadas pelo crime organizado, e convive com a presença de facções como PCC e Comando Vermelho. O avanço dessas organizações acrescentou novas dimensões à violência, com disputas por rotas e territórios e maior pressão sobre as forças de segurança.

Posição inversa - Os 107 casos de mortes decorrentes de intervenção policial já representam aumento de 42,7% em relação às 75 mortes registradas pelo FBSP em 2025 e de 127,7% sobre os 47 casos contabilizados pela Sejusp. Mantido o ritmo médio observado até agora, de cerca de 14,5 mortes por mês, uma simples anualização levaria o número para perto de 171 casos em 2026. Isso equivaleria a aproximadamente 5,8 mortes por 100 mil habitantes, próximo ao dobro da taxa nacional de 3,1 registrada em 2025. Os números mostram uma inversão de posições, já que o Estado tinha, em 2025, uma taxa bem menor que a nacional, de 2,6.

É nesse ambiente que a campanha de Eduardo Riedel terá de defender sua política de segurança. Fontes ligadas à campanha reconhecem que a letalidade policial está entre os assuntos que exigirão preparação do candidato para o período eleitoral. A questão, segundo essas fontes, vem sendo discutida internamente, mas só entrará na agenda de debates se o governador for provocado.

A resposta do governo nos bastidores parte da própria realidade da fronteira. Segundo fontes da campanha, o governo deverá sustentar que o enfrentamento ao crime organizado exige força policial, além de inteligência e integração entre as instituições. A avaliação é que, diante da expansão das facções e da posição geográfica de Mato Grosso do Sul, não seria possível combater o crime organizado sem recorrer ao uso da força.

A formulação antecipa uma das disputas narrativas que podem aparecer na eleição. Riedel pretende apresentar a reeleição não como mera continuidade, mas como evolução de uma política de resultados, baseada em metas, indicadores e entregas. Segundo fontes da campanha, a estratégia será mostrar os “big numbers” do Estado e aquilo que o governo pretende melhorar, evitando bravatas e concentrando a comunicação no trabalho realizado. Na segurança, porém, existe um indicador que escapa à lógica convencional de produtividade policial: as mortes produzidas pela própria ação do Estado.

Letalidade policial e feminicídios testam discurso de resultados de Riedel
Da esquerda para a direita: Ana Carolina Goes, Adrielle Encarnação Rodrigues e Nathália Rodrigues Nogueira, vítimas de feminicídio em Mato Grosso do Sul (Foto: Reprodução)

A outra face da segurança - Há, porém, uma outra dimensão da violência que também deve entrar no debate eleitoral: os feminicídios. Mato Grosso do Sul registrou 39 casos em 2025 e aparece entre os Estados com maiores taxas do país. O aumento, segundo o FBSP, foi de 10,5% na comparação com 2024. O painel oficial do Monitor da Violência contra a Mulher registrava 16 feminicídios até 29 de julho de 2026. O próprio planejamento estadual de políticas para as mulheres aponta que, entre 2015 e 2024, foram 332 casos no Estado e que, em 2024, os feminicídios já superavam os homicídios dolosos de mulheres por outras causas.

São problemas diferentes, mas que colocam diante dos candidatos uma mesma pergunta sobre segurança: a política pública é capaz de impedir que a violência chegue ao ponto da morte? No caso da letalidade policial, trata-se de controlar o uso da força pelo Estado; no feminicídio, de identificar ameaças, proteger mulheres e interromper ciclos de violência antes do desfecho fatal. Na avaliação de especialistas, segurança pública também se mede pela capacidade de prevenir mortes.

Em Mato Grosso do Sul, porém, a dimensão da letalidade não significa necessariamente que o tema terá peso eleitoral. Para o cientista político Daniel Miranda, a morte de suspeitos em confrontos pode até ser popular entre parte do eleitorado, dificultando que a oposição transforme a estatística em desgaste para o governo. “O problema da segurança pública é que ela desumaniza”, afirma. Na avaliação dele, para transformar as mortes em questão política, Fábio Trad teria de humanizar as vítimas e apresentar casos concretos, em vez de se limitar aos números. Caso contrário, diz, Riedel poderá simplesmente responder: “Então vota em mim, porque a minha segurança pública funciona”.


Fora da agenda - Trad apresenta uma formulação que pode levar a discussão para outro terreno. Para ele, o aumento da letalidade “pode ser um sintoma da falta de preparação e da falta de investimento nas polícias”. O candidato defende uma polícia profissionalizada, capacitada e rigorosa, mas sempre dentro da lei. E faz uma advertência ao eleitor que comemora o crescimento das mortes: “Se ele aplaudir um número alto de letalidade policial de forma indiscriminada, pode ser a próxima vítima na esquina mais perto de onde mora.”

A fala de Trad, contudo, vem acompanhada de uma estratégia eleitoral cautelosa. Questionado se a letalidade será explorada espontaneamente na campanha, respondeu: “Se provocarem.” Caso contrário, a tendência é concentrar o discurso na falta de investimento nas polícias, no déficit de efetivo e na ausência de uma política pública permanente para as corporações.

A avaliação do cientista político Paulo Catanante Júnior é ainda mais cética quanto ao potencial eleitoral da segurança. Para ele, custo de vida e saúde estão à frente entre as preocupações dos sul-mato-grossenses. “Não acredito que a segurança seja a pauta”, afirma. A avaliação inclui a própria letalidade policial: mesmo o crescimento das mortes decorrentes de intervenção policial dificilmente teria força suficiente para constranger eleitoralmente Riedel neste momento.

O limite da força  - A questão não se resume às estatísticas, mas a quem eram essas pessoas, em que circunstâncias morreram e o que efetivamente aconteceu em cada ocorrência. Um exemplo é o caso de um homem morto pela Polícia Militar em Três Lagoas, na quarta-feira (12), Cláudio Borget, cuja família contesta a versão oficial de confronto durante uma abordagem. A contestação não permite concluir, por si só, que houve abuso, mas mostra a zona de disputa que pode surgir quando a versão policial e a dos familiares são diferentes, o que força o Estado a comprovar que a força letal era necessária em cada ocorrência.

João Henrique Catan, do Novo, oferece outro caminho para a mesma discussão. O candidato diz que “o aumento da letalidade policial merece ser analisado com seriedade, mas não pode ser usado para criminalizar o policial que enfrenta o crime”. Sua formulação tenta ocupar uma posição diferente da de Trad: não questiona a necessidade de uma polícia forte, mas condiciona sua eficiência à preparação, valorização e controle. “Polícia forte não é polícia sem controle. É polícia preparada, valorizada e respaldada para enfrentar o crime dentro da lei”, afirma.

O registro de 107 casos não prova, sozinho, excesso policial nem permite atribuir responsabilidade individual ao governo. Mas cria uma questão política que combina segurança, controle institucional e transparência, um dos eixos do debate nacional que dificilmente deixará de entrar na agenda dos políticos do Estado.

Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais.