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Política

Para Procuradoria-Geral, Trutis cometeu 3 crimes ao fingir ser alvo de atentado

Deputado federal sul-mato-grossense disse ter sido vítima de emboscada "de cinema" em fevereiro de 2020

Por Anahi Zurutuza | 04/10/2021 14:38
Loester Trutis passou de denunciante, a investigado, alvo de operação da PF e agora, denunciado. (Foto: Redes sociais/Reprodução)
Loester Trutis passou de denunciante, a investigado, alvo de operação da PF e agora, denunciado. (Foto: Redes sociais/Reprodução)

Para a Procuradoria-Geral da República, o deputado federal bolsonarista Loester Carlos Gomes de Souza, o Trutis (PSL), deve ser punido por três crimes depois que mobilizou a PF (Polícia Federal) para investigar “atentado fake”. A PGR denunciou o parlamentar sul-mato-grossense por falsa comunicação de crime, porte ilegal e disparo de arma de fogo, conforme apurado pelo portal R7.

A suposta emboscada para matar Trutis, da qual ele só teria saído vivo porque, como em um filme de ação, se abaixou dentro do carro onde estava e revidou, aconteceu no dia 16 de fevereiro de 2020. Naquele domingo, o deputado publicou no Facebook, por volta das 9h, que ele e sua equipe haviam sofrido um ataque a tiros a caminho de Sidrolândia – distante 70 quilômetros de Campo Grande. Para ir até à PF pedir que o crime fosse investigado, ele recorreu à escolta do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais).

“Segundo consta dos autos, diversos laudos periciais, relatórios e informações policiais, além de oitivas, revelaram a real dinâmica dos fatos e refutaram a versão inicialmente apresentada pelos denunciados à Polícia Federal”, sustenta a denúncia, assinada pelo vice-procurador-geral, Humberto Jacques, ainda de acordo com o R7.

Como Loester Carlos é parlamentar federal, todos os passos da investigação foram analisados pelo STF (Supremo Tribunal Federal) até agora. Por duas vezes, a defesa do parlamentar tentou “trancar” o inquérito, sob o argumento de que as investigações estavam sendo conduzidas de forma irregular e que Trutis era vítima de “descarado abuso de autoridade”, mas os dois pedidos feitos ao Supremo foram negados.

Apesar de concluir, assim como a Polícia Federal, que o suposto atentado não passou de uma mentira, o crime tem relação com as atividades parlamentares, o que ainda garante a Trutis o foro privilegiado. Por isso, a denúncia foi encaminhada ao STF, que vai decidir se a acolhe ou não. A ministra Rosa Weber está responsável pela análise.

Além do deputado, as acusações também recaem sobre o assessor dele, Ciro Fidélis, que sustentou a narrativa do chefe ao longo do inquérito policial.

Ciro Fidélis (à direita) ao lado de Trutis em foto posada para a campanha do assessor, que tentou vaga na Câmara de Campo Grande no ano passado. (Foto: Divulgação)
Ciro Fidélis (à direita) ao lado de Trutis em foto posada para a campanha do assessor, que tentou vaga na Câmara de Campo Grande no ano passado. (Foto: Divulgação)

O Toyota Corolla em que Trutis estava de carona com o assessor era alugado. A PF havia entendido que o parlamentar cometeu um quarto crime ao fingir a tentativa de homicídio, o de dano ao patrimônio privado, uma vez que o veículo foi danificado por disparos. A PGR, por sua vez, pediu a intimação da empresa de locação de automóveis para que, querendo, entre com ação penal privada contra o deputado.

Desmascarado - “O carro em que estavam foi alvejado por, no mínimo, 5 disparos”, dizia a nota divulgada em rede social de Trutis naquele 16 de fevereiro. A imagem anexada à postagem mostrava Corolla preto com vidros estilhaçados e marcas de bala. “O deputado conseguiu revidar o ataque. Apesar da emboscada, todos estão bem e sem ferimentos”, continuava comunicado.

Rastreador do carro, câmeras espalhadas pela BR-060, perícia e exaustiva investigação levaram a Polícia Federal a descobrir, contudo, que a suposta emboscada era uma farsa ou, como classificaram os investigadores, uma “tragicomédia com dois atores”: o deputado e seu motorista, Ciro Fidélis.

Marcas de tiro em Toyota Corolla que parlamentar federal viajava; foto foi divulgada na rede social dele, no dia do suposto atentado. (Foto: Assessoria Loester Trutis/Divulgação)
Marcas de tiro em Toyota Corolla que parlamentar federal viajava; foto foi divulgada na rede social dele, no dia do suposto atentado. (Foto: Assessoria Loester Trutis/Divulgação)

A perícia identificou disparos de pistola Glock 9 mm de fora para dentro do Corolla e disparos de pistola Taurus de dentro para fora do carro. Para a PF, os tiros nas duas direções serviram para justificar a versão do deputado, de que ele revidou ao ataque e por isso, sobreviveu. Mas, de acordo com análise técnica, seria impossível Trutis sair ileso do atentado.

O deputado e Fidélis foram alvos, em 12 de novembro do ano passado, da Operação Tracker, que não por acaso significa rastreador em inglês. A PF estava atrás de mais provas para concluir as investigações. O parlamentar acabou preso com armas mantidas em casa sem registro em seu nome. Foi liberado no mesmo dia.

Mas antes de novembro, a equipe da PF já havia descoberto vários detalhes do ocorrido. A PF refez os passos de Loester, afinal ele deveria estar sendo monitorado por quem tinha a intenção de matá-lo ou feri-lo.

O Corolla, alugado com recursos do gabinete do parlamentar, só chegou a Campo Grande um dia antes do atentado. Além de filmagens analisadas, policiais estudaram os dados do GPS do veículo e constaram que o carro não circulou somente pela BR-060, na saída para Sidrolândia, onde teria acontecido a abordagem, mas entrou em estradas vicinais.

Numa das estradas, o carro ficou para “por exatos 40 segundos” também registraram os investigadores, “tempo suficiente para descer do veículo, efetuar vários disparos de arma de fogo e retornar para dentro do veículo”. Foi neste trecho de terra que a PF encontrou jogados estojos de munição 9 milímetros.

Outro lado – A apuração é rica em detalhes, mas Trutis sempre alegou ser vítima de complô “da esquerda” para “assassinar sua reputação”.

Ao jornal O Estado de S. Paulo, ele repetiu mais ou menos o que vem dizendo desde que foi alvo da Operação Tracker. “Confio no poder da verdade. Sou vítima de um refinado conluio de autoridades locais, que induziram o PGR e a ministra a erro".

O deputado acusou a Polícia Federal de agir ilegalmente para incriminá-lo. “Testemunhas essenciais não foram ouvidas, e provas foram destruídas ou manipuladas, como por exemplo o GPS do carro que eu ocupava, que foi formatado pela locadora. Ou mesmo o veículo alvejado, que não foi preservado pela polícia técnica, tendo sido devolvido à locadora, reformado e vendido. Em ambos os casos me foi cerceada qualquer possibilidade de proceder perícia complementar e independente. Tudo isso foi feito com a autorização da Polícia Federal do Mato Grosso do Sul, um verdadeiro absurdo jurídico. Espero ansiosamente que as provas possam ser analisadas fora do MS, e os atos ilícitos dessa investigação – que nunca teve o intuito de apontar o autor da tentativa de assassinato que sofri, e sim tenta promover um assassinato de reputação e da minha vida política – sejam finalmente demonstrados”.

Mário Panziera Junior, advogado de Loester Carlos, disse ao Campo Grande News, também em junho, que como a PF não achou os mandantes do atentado, chegou a conclusões equivocadas. A reportagem tentou contato com o defensor nesta segunda-feira, dia 4, mas ele não foi localizado no escritório e o celular deu sinal de ocupado ou desligado nas várias tentativas de chamada.

*Matéria alterada às 17h02 para acrescentar o posicionamento do deputado dado ao Estadão.

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