Bairro onde quem dá medo “é o Choque” tem um projeto social a cada esquina
A aposta é em transformar os índices que estão entre os piores da Capital

O Parque do Lageado expõe uma Campo Grande vulnerável. Concentra favelas, crimes violentos que saem no jornal e gente em modo de sobrevivência. Mas esse pacote não resume o bairro. Projetos sociais a cada esquina revelam que a vontade de transformar a realidade é uma característica forte que costuma ficar de fora.
Sua população de 16.653 habitantes tem a segunda menor renda per capita (R$ 332,65) da cidade, ficando atrás apenas do Caiobá (R$ 299,63). A taxa de analfabetismo também ocupa a segunda posição, sendo de 9,55% enquanto a primeira é de 9,78% no bairro vizinho, o Los Angeles. Os dados são da prefeitura e estão baseados no Censo 2022 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
RESUMO
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O Parque do Lageado, em Campo Grande, concentra a segunda menor renda per capita da cidade, com R$ 332,65, e a segunda maior taxa de analfabetismo, de 9,55%, segundo o Censo 2022. O bairro enfrenta violência, infraestrutura precária e degradação ambiental, mas também abriga projetos sociais como o Instituto Misericordes, o Fraternidade Despertar e o CEU das Artes, que atendem crianças, adolescentes e famílias em situação de vulnerabilidade.
O Lageado foi criado na década de 80, a partir da desapropriação de fazendas. Cresceu em torno do que se prefere distância: o Presídio Federal, uma estação de tratamento de esgoto e o antigo lixão a céu aberto da Capital, depois substituído por um aterro sanitário. A expansão pressionou a Bacia do Córrego Lajeado, importante para o abastecimento de água na Capital, enquanto também é uma das mais degradadas.
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No ano passado, foi um dos bairros que mais registrou homicídios, de acordo com o painel de monitoramento criminal da Sejusp (Secretaria Estadual de Justiça e Segurança Pública). Neste ano, o último registrado tem nem um mês. A vítima foi Luiz Guilherme da Costa dos Santos, de 20 anos, morto a tiros numa quadra de futebol na madrugada de 3 de junho.
“Só respeitam o Choque” - A criminalidade não vem de hoje. Os moradores mais antigos lembram do passado de disputa entre gangues da mesma região.
Lucilene Santana tem 36 anos e vive no Lageado há seis anos, então só ouviu falar dos grupos rivais. Ela e o marido decidiram vender tudo no interior e morar numa casa bem estruturada que compraram por R$ 85 mil na época, um valor bem abaixo dos preços pesquisados. Não imaginavam que estavam se mudando para um bairro onde veriam viaturas com tanta frequência.
São frequentes as ações do batalhão de elite da Polícia Militar no bairro. “Aqui, para respeitar, é só o Choque”, percebe. Apesar do medo, decidiu agir para mudar a realidade. Lucilene é uma entre as moradoras que dedicam boa parte de seu tempo ao trabalho voluntário.
Pelo futuro - Um dos projetos sociais mais antigos do Parque do Lageado surgiu no meio do antigo lixão, em 2013. A iniciativa foi do padre Agenor Martins, que por muito menos costumava ser chamado de “comunista”. Há 10 anos, mudou-se para um terreno doado pela prefeitura e passou a funcionar com o nome de Instituto Misericordes. O idealizador voltou a morar no Sul, mas o trabalho continua pelas mãos de diversas mulheres voluntárias, principalmente elas.
O objetivo é mudar o destino de crianças de 6 a 15 anos, oferecendo refeições nutritivas, reforço escolar, esportes e atividades que ensinam o respeito ao meio ambiente. Pais e avós recebem doações de alimentos e também podem participar de oficinas gratuitas para a geração de renda. Cerca de 80 famílias são atingidas.

A presidente Nilda Silva garante que o trabalho é sério e dá resultados. “Os frutos desse projeto que moravam debaixo da lona cresceram, depois ficaram aqui como voluntários um tempo. Hoje os encontramos no supermercado, no salão de beleza, trabalhando aqui pelo bairro”, conta. Outro orgulho são as medalhas que os assistidos têm ganhado em competições esportivas, inclusive em outros estados.
Embora o fundador seja católico, o enfoque do projeto não é passar ensinamentos religiosos. “A intenção é que a inserção traga uma mudança radical de vida. A gente prega princípios, tem o esporte, a música, qualidade alimentar. Pontos criteriosos para inserir na comunidade local por meio do trabalho social”, explica a voluntária Daniela Rodrigues.
A alegria das crianças toma conta do lugar três vezes na semana. Psicóloga social, a irmã Regina Bastos diz que vê mudanças até na fisionomia dos assistidos nos primeiros dias após a matrícula.
O projeto oferece ainda a educação financeira por meio da “misereca”, cédula fictícia criada pelo padre Agenor. As crianças e adolescentes recebem o dinheiro de mentirinha para comprar suas refeições, brinquedos e roupas, por exemplo, e são ensinados a poupar para o futuro. Casos de indisciplina são punidos com a cobrança de um “imposto” deles.
O Instituto Misericordes é mantido por meio de emendas parlamentares, convênio com a prefeitura e doações.
Dois num só - Perto do Misericordes, dois projetos sociais passaram a funcionar no local onde ficava uma das sedes do Programa Rede Solidária, do governo estadual. O espaço foi doado por um empresário espírita. As emendas parlamentares também ajudam no financiamento, além das doações.

Eles são o Fraternidade Despertar e o Opammas. O policial penal e comerciante Gilson Martins é o voluntário que gerencia o local toda segunda, quarta e sexta. Ele explica que há professores de informática, artes, recreação, futebol, vôlei e pilates para crianças e famílias. Nos fundos, um voluntário ensina a cultivar uma horta e a plantar mudas de árvores nativas.
O local estava tomado pelo mato e foi reativado há apenas três meses. Já está com todas as vagas ocupadas. Os assistidos são principalmente crianças e adolescentes de 6 a 17 anos. A ideia inicial era oferecer apenas lanches entre as atividades, mas alguns precisam de mais. "Chegam aqui à tarde sem ter comido nada, daí começamos a dar almoço para quem quer", conta Gilson.
Esse é o projeto em que Lucilene Santana trabalha. Ela vê que os meninos e meninas gostam muito de estar lá. "Querem vir todos os dias porque aqui tem o que eles não têm em casa", afirma. Pelas contas da voluntária, outros cinco projetos existem apenas nas proximidades.

Por trabalhar num presídio, o voluntário fica atento a certas histórias que escuta e se convence dia após dia da importância da assistência social. "Muitos falam que têm pais e irmãos presos. E eles têm muitos irmãos. Vemos muitas mulheres jovens grávidas, a taxa de natalidade aqui deve ser bem alta", relata.
CEU das Artes - Inaugurado há quase um ano, o CEU (Centro de Artes e Esportes Unificados) das Artes é um espaço administrado pela prefeitura que contou até com visita da ministra da Cultura, Margareth Menezes, na inauguração. Na estrutura com cheiro de nova ainda, funciona um CRAS (Centro de Referência em Assistência Social) e há várias salas para aulas culturais, uma pequena biblioteca, além de quadras esportivas para uso coletivo e uma pista de skate.
A reportagem o visitou numa manhã em que mulheres faziam curso de assistente administrativo e idosas faziam uma oficina de arte. Havia algumas crianças passeando no corredor, mas o movimento era pouco perto do potencial do lugar.

Coordenador do CRAS, Ismael de Deus Lima, explica que o gerenciamento do CEU é dividido entre a Fundação Municipal de Cultura e Fundação Municipal do Esporte. Para o uso pleno, ainda falta nomear um gestor para a área aberta. Outra questão pendente é o acesso ao auditório. Ainda falta instalar aparelhos de ar-condicionado.
Quanto à assistência social, o responsável afirma que o cadastro e atualização de cadastro em programas sociais, que é uma das principais demandas, é feito em um prédio separado, mas todas as reuniões com as famílias atendidas são realizadas no CEU.
As demais atividades relacionadas ao CRAS estão concentradas no prédio novo, exceto no caso em que é necessário deslocar equipe com psicólogo e assistente social para acompanhar as famílias mais vulneráveis. A maioria dos atendimentos acolhe as mães solo. "É um bairro em que há muitas mulheres que precisam cuidar dos filhos e têm dificuldade de entrar no mercado de trabalho. Um bairro com problemas crônicos", reforça Ismael.
Pelas ruas - Os moradores andam bastante a pé, muitas vezes passando por ruas sem asfalto. É comum se depararem com cachorros e gatos abandonados pelo caminho.
Gilson Martins afirma que já presenciou carros parando e deixando animais para trás. "Moro em outro bairro, mas ando muito por aqui e já vi vários casos. Tinha que fazer alguma coisa", fala.
O despejo de lixo é outro problema. Muitos trabalham com venda de materiais recicláveis lá, mas não é por isso. "Acham que aqui é depósito. Que tudo o que não serve têm que jogar aqui", se revolta o voluntário.
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