Mesmo tombada, Vila dos Ferroviários fica no limbo e perde potencial turístico
Em 2023, complexo recebeu proteção definitiva do Iphan; moradores cobram revitalização que não saiu do papel

Décadas de histórias estão gravadas nas ruas de pedras, nos prédios históricos remanescentes e nas fachadas das casas da Vila dos Ferroviários, na região central de Campo Grande. Construída para abrigar trabalhadores da antiga Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, a região ajudou a moldar a Capital de Mato Grosso do Sul e hoje guarda um dos conjuntos urbanos mais importantes da história da cidade. Apesar disso, moradores dizem viver em um lugar com grande potencial turístico que o poder público parece ter esquecido.
RESUMO
Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!
A Vila dos Ferroviários, em Campo Grande, tombada definitivamente pelo Iphan em 2023, enfrenta abandono apesar do potencial turístico. Moradores relatam ruas deterioradas e insegurança. Cerca de R$ 40 milhões em recursos federais estão vinculados à revitalização da Esplanada Ferroviária, mas três projetos arquitetônicos já foram rejeitados pelo Iphan. A Agesul assumiu a elaboração de nova proposta, sob risco de perda dos recursos caso os prazos não sejam cumpridos.
Entre a Avenida Calógeras e a Rua 14 de Julho, cerca de 170 imóveis guardam parte da memória da antiga NOB (Estrada de Ferro Noroeste do Brasil), responsável por impulsionar o desenvolvimento econômico e urbano da Capital. Ali viveram maquinistas, mecânicos, manobradores, chefes de estação e suas famílias. Muitos descendentes continuam morando no local. Outros chegaram mais recentemente, atraídos pela tranquilidade e pelo valor histórico da região.
- Leia Também
- Feira Central pode mudar de local com R$ 40 milhões investidos em complexo
- Casa histórica abandonada há anos entra em monitoramento para recuperação
Apesar das diferenças de origem, há um ponto de convergência entre os moradores. Todos acreditam que a vila poderia ser um dos principais cartões-postais turísticos de Campo Grande, como a Rua do Amparo, em Olinda (PE), ou a Rua XV de Novembro, em Curitiba (PR).

O Campo Grande News esteve na sexta-feira (5) no local e conversou com moradores da Rua Dr. Ferreira, escondida entre a Avenida Calógeras e a Rua 14 de Julho, que contaram suas histórias, a relação com o complexo ferroviário e também o abandono que, segundo eles, a região enfrenta há décadas por parte do poder público.
As reclamações começam pelo básico. As ruas de pedra apresentam desníveis, buracos e dificuldades de circulação. Há moradores que defendem a preservação integral dos paralelepípedos, mas cobram manutenção adequada.
A professora aposentada Marceli Moreira Vicente Teixeira, de 62 anos, vive na vila há três décadas. Casada com o ex-maquinista Roberto Mendes Teixeira, de 76 anos, ela acompanhou a transformação da região desde os anos 1990. "Eu vejo que a vila está esquecida. Por ter se tornado patrimônio histórico, acabou sendo esquecida. Você não vê turista passando por aqui. E essa vila era para ser muito visitada", afirma.
Segundo ela, um dos problemas é o próprio desnível da Rua Dr. Ferreira. "O que precisa ser feito é retirar os paralelepípedos um por um, nivelar a rua e recolocar. Dá para preservar e melhorar ao mesmo tempo. Aqui arrumaram um trecho quando fizeram melhorias para a feira, mas o restante ficou abandonado", disse.
Ela também reclama da segurança na região. "Não temos segurança nenhuma. Há uns 12 ou 13 anos roubaram a bicicleta do meu filho. Mais recentemente, vários carros tiveram os para-brisas quebrados. Continuo pagando vigilância para proteger meu carro durante a noite", relembra Marceli.

Mesmo quem não possui raízes ferroviárias enxerga possibilidades para a região. O militar aposentado Manuel Rocha Miyazato, morador da vila há cerca de três anos, compara o potencial do local a áreas históricas já consolidadas em outras cidades. Ele cita a Rua XV de Novembro, em Curitiba, como exemplo de espaço urbano que alia preservação, turismo e convivência. "Aqui é calmo, agradável e bonito. Poderia ser muito melhor aproveitado", avalia.
Ele também acredita que a infraestrutura da rua poderia ser melhor. "Na minha opinião, a rua poderia ser melhorada. É tudo muito apertado. Com algumas adequações ficaria melhor para os carros e para os moradores", avalia Manuel.
Uma vila sem turistas - O sentimento de abandono contrasta com a importância histórica do local. Em 2023, o Complexo Ferroviário de Campo Grande recebeu o tombamento definitivo do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), encerrando um processo iniciado em 2009.
O reconhecimento levou em conta a relevância da ferrovia para a formação da cidade e a preservação de um conjunto arquitetônico raro, capaz de revelar, inclusive pelas características das casas, a posição ocupada pelos trabalhadores dentro da antiga Noroeste do Brasil.
Mas o título de patrimônio nacional não trouxe, ao menos até agora, a revitalização esperada. "Era para ser um cartão-postal. Tem a estação ferroviária, tem a locomotiva exposta, tem toda uma história. Mas os turistas não chegam até aqui", lamenta Marceli.
Para ela, a situação é contraditória. "A vila foi tombada, mas parece que isso acabou afastando investimentos. Quando querem fazer alguma coisa, fazem. Quando não querem, colocam mil obstáculos".

Uma das moradoras que viu com os próprios olhos os tempos áureos da vila e a situação atual da região é Geni de Odorico Ramon, de 79 anos. Ela explica que mora no local desde que nasceu, em 1947. Filha de ferroviário, cresceu acompanhando o movimento dos trens, o cotidiano dos trabalhadores e o crescimento de Campo Grande impulsionado pelos trilhos. "Aqui nós somos abandonados. Essa rua é abandonada", resume.
Ela explica que o pai era maquinista e seus irmãos nasceram na mesma vila. Quando adulta, chegou a tentar uma vaga na antiga RFFSA (Rede Ferroviária Federal S.A.), mas não conseguiu ingressar na empresa. Mesmo assim, continuou acompanhando a vida ferroviária.
Hoje, vê com tristeza o estado da região. "O que falta aqui é interesse. Muito interesse mesmo dos políticos. Precisava cuidar das casas, fazer as calçadas, preservar esse espaço", disse. "Ninguém nunca veio procurar saber da gente", completou Geni.

Outro morador antigo, mas que hoje já não está na Vila dos Ferroviários, é Ariel Islan Barbosa Carneiro, de 38 anos, que cresceu na região e tem uma ligação afetiva que vai além das memórias da infância. "Eu peguei a época em que os trens ainda passavam ali no fundo. Meu tio cuidava do campinho que existia na parte de baixo. São lembranças de um tempo que não volta mais."
Filho de ferroviário, ele morava na antiga Rua dos Ferroviários, enquanto a atual esposa vivia na Rua Doutor Ferreira. Os dois estudaram na Escola Álvaro Martins Neto, conhecida pelos moradores como Batatinha, e se conheceram ainda crianças. Anos depois, já adultos, voltaram a se encontrar e começaram o relacionamento. "Eu amo este lugar. Para mim é maravilhoso. Tenho muitos amigos aqui, amigos do meu pai também. É uma ligação muito forte", afirma Ariel.
Por carregar tantas lembranças familiares, Ariel acredita que a região tem potencial para se tornar um importante espaço turístico e cultural da Capital. Para ele, a recuperação de áreas degradadas, como a Rotunda, poderia transformar a paisagem e atrair visitantes sem apagar a identidade ferroviária do local.
"É uma área grande, que hoje está subutilizada. Poderia servir para muitas coisas, como atividades culturais ou quadras esportivas. Na região central, poderia se transformar em algo parecido com o Belmar Fidalgo, com melhor iluminação, mais circulação de pessoas e mais segurança", defende Ariel.
Rotunda - O símbolo do abandono mais apontado pelos moradores é a Rotunda. A estrutura circular, utilizada no passado para manobras e manutenção de locomotivas, é considerada um dos elementos mais emblemáticos do patrimônio ferroviário campo-grandense.
Hoje, porém, acumula mato, telhas arrancadas e sinais de deterioração. O local também foi apontado como fator de insegurança para a vizinhança, já que há trânsito de pessoas em situação de rua, algumas delas com problemas relacionados ao uso de drogas.
Entretanto, o autônomo Wendell Pereira da Silva, de 48 anos, que mora próximo à Rotunda desde 2009, avalia que a situação melhorou. "Sempre passa policiamento. Tem Guarda Municipal, tem Choque. Hoje está muito mais tranquilo do que já foi."
Ele reconhece a presença de moradores em situação de rua e usuários de drogas, mas afirma que os casos de violência diminuíram. "Tem gente que dorme por ali, mas não é aquela insegurança que muitos imaginam", diz. "Tem alguns usuários de drogas que dormem por ali. De manhã cedo, quando saio, às vezes vejo alguém enrolado em cobertor. Mas, assim, bandidagem mesmo, já teve. Hoje está bem melhor."
Mesmo assim, Wendell considera triste ver um patrimônio tão importante para a história da cidade sem uso definido. Ex-funcionário da área de comunicação, ele conta que sempre se interessou pela memória ferroviária e costuma observar fotografias antigas da região. "É muito bonito ver como era. Até hoje, quando vejo fotos antigas ou imagens que o pessoal posta no Instagram, acho bonito demais. É triste ver uma coisa histórica abandonada", diz.

Segundo ele, parte da conservação do entorno acaba sendo feita pelos próprios moradores. Ao lado dos vizinhos, participa de pequenos mutirões para limpeza, plantio de árvores e melhoria da iluminação. "Aqui a gente mesmo cuida. Eu limpo com a minha máquina, minha esposa planta, o vizinho também planta. A gente colocou refletores, plantou eucaliptos e fez melhorias porque gosta daqui", relata.
O morador afirma que, apesar da falta de investimentos públicos, o local continua atraindo visitantes. Ensaios fotográficos de casamentos, gravações de videoclipes e encontros de grupos de veículos são frequentes na área.
Na avaliação de Wendell, a revitalização da Rotunda poderia consolidar esse potencial e devolver à população um espaço hoje subutilizado. Ele defende que a estrutura seja transformada em um centro de atividades culturais e educativas voltado para a comunidade. "Poderia virar um espaço para cultura, para oficinas de pintura, atividades para crianças. A estrutura existe. O que precisa é recuperar o telhado e fazer manutenção", afirma.
Projetos travados - Desde pelo menos 2024, diferentes propostas vêm sendo discutidas para recuperar estruturas históricas como a Rotunda, os galpões ferroviários e parte da Vila dos Ferroviários. Na prática, porém, pouco mudou na paisagem observada por quem mora na região diariamente.
Um dos principais anúncios ocorreu por meio do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), quando o Governo Federal destinou R$ 800 mil para a elaboração de estudos, projetos arquitetônicos e projetos executivos necessários para a restauração do complexo ferroviário. A proposta previa a contratação de equipes técnicas para desenvolver intervenções compatíveis com as exigências do Iphan.
Na época, a expectativa era que o recurso servisse como ponto de partida para obras de maior porte, especialmente na Rotunda e nos galpões ferroviários, considerados os espaços mais degradados do conjunto histórico.
Entretanto, o avanço esbarrou justamente na complexidade de intervir em um patrimônio tombado. Conforme noticiado recentemente, ao menos três propostas arquitetônicas apresentadas acabaram rejeitadas pelo Iphan por não atenderem integralmente critérios técnicos relacionados à preservação histórica do complexo.
Entre os apontamentos estavam falhas na documentação, incompatibilidades com as diretrizes de preservação e intervenções consideradas inadequadas para uma área protegida. O impasse levou a Prefeitura de Campo Grande a interromper novas tentativas por meio da Sisep (Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos).
Diante da dificuldade em atender às exigências do órgão federal, a missão de elaborar uma nova proposta foi assumida pela Agesul (Agência Estadual de Gestão de Empreendimentos de Mato Grosso do Sul). A mudança ocorre em meio à preocupação com a possibilidade de perda de recursos federais.
Segundo informações confirmadas pela própria Agesul (Agência Estadual de Gestão de Empreendimentos de Mato Grosso do Sul), há aproximadamente R$ 40 milhões vinculados ao projeto de revitalização da Esplanada Ferroviária.
O montante poderá financiar obras de recuperação e requalificação urbana, mas depende da aprovação de um projeto executivo que atenda às exigências técnicas do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Caso isso não aconteça dentro dos prazos estabelecidos, o recurso corre o risco de ser perdido.
A reportagem entrou em contato com a Superintendência Regional do Iphan em Mato Grosso do Sul para solicitar informações atualizadas sobre o projeto de revitalização da Esplanada Ferroviária e saber a situação atual dos recursos federais destinados à revitalização do complexo, incluindo os valores vinculados ao Novo PAC. Até a publicação desta reportagem, não houve retorno. O espaço segue aberto para manifestação.
Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais.





