A conta invisível do envelhecimento: as mulheres e a economia do cuidado
O Brasil está envelhecendo em ritmo acelerado. A cada ano, ganhamos mais expectativa de vida, o que é uma excelente notícia e um reflexo dos avanços na saúde e na qualidade de vida. No entanto, esse bônus demográfico traz para o centro do debate uma pergunta incômoda: quem vai cuidar de toda essa população quando a longevidade vier acompanhada de maior dependência?
A resposta, na prática, tem um endereço certo e um gênero definido. Na ausência de uma rede pública estruturada de apoio de longa duração, a conta do envelhecimento é transferida para dentro dos lares. E, dentro de casa, o trabalho de cuidar recai de forma esmagadora e quase exclusiva sobre as mulheres.
O trabalho que a economia não vê
Quando pensamos em economia, costumamos contabilizar o que é transacionado com nota fiscal, salários e impostos. Porém, existe uma engrenagem invisível que sustenta todo esse sistema: a chamada economia do cuidado. Trata-se do conjunto de tarefas essenciais para a sobrevivência e o bem-estar diário: lavar, cozinhar, limpar, administrar medicamentos, acompanhar consultas e dar assistência contínua a crianças, pessoas com deficiência e, cada vez mais, aos idosos.
O grande problema é que a sociedade historicamente naturalizou essas funções como uma "vocação feminina". Como não têm remuneração direta, essas horas de dedicação desaparecem das estatísticas econômicas oficiais. É um trabalho exaustivo, contínuo e silencioso, mas que cobra um preço altíssimo de quem o executa.
O ciclo da vulnerabilidade financeira e a cadeia do cuidado
Esse encargo invisível gera um efeito dominó devastador na vida profissional e financeira das mulheres. Dados de órgãos como o IBGE e o IPEA mostram que cerca de 90% dos cuidadores informais de idosos no Brasil são mulheres: filhas, esposas, noras e netas.
Muitas vezes, mulheres que estão na faixa dos 45 aos 55 anos, justamente no pico de sua produtividade e maturidade profissional, se veem forçadas a reduzir a jornada de trabalho ou a pedir demissão para se dedicar integralmente a cuidar de pais, cônjuges ou sogros idosos.
Conforme apontam as análises e reflexões organizadas pelo Ipea, essa engrenagem opera em uma via dupla de vulnerabilidade. Quando as famílias tentam terceirizar parte dessa assistência, essa função é transferida para o mercado de trabalho remunerado, recaindo sobre trabalhadoras domésticas, babás e cuidadoras. Esse setor é composto majoritariamente por mulheres, muitas vezes negras e periféricas, que enfrentam altas taxas de informalidade, baixos salários e precariedade de direitos.
Sem carteira assinada ou sem renda própria (seja no cuidado familiar não remunerado, seja na informalidade do setor), essas mulheres param de recolher para a Previdência Social. O resultado amargo dessa equação aparece na velhice: quando chega a idade de se aposentar, muitas não têm o tempo de contribuição exigido por lei. Não à toa, a maioria absoluta das aposentadorias exclusivamente por idade (benefícios de menor valor) é composta por mulheres, enquanto os homens concentram as aposentadorias por tempo de contribuição.
O que precisa mudar?
Ignorar essa sobrecarga é caminhar para uma crise social e previdenciária sem precedentes. A solução para o envelhecimento populacional não pode recair sobre uma única parcela da sociedade. O debate contemporâneo aponta para a urgência de construir uma verdadeira cultura de corresponsabilidade. Isso significa que o cuidado precisa deixar de ser um problema estritamente familiar e privado para se tornar uma política pública de Estado. A criação de centros de atendimento diurno para idosos, a expansão de redes de apoio e a valorização da profissão de cuidador são passos fundamentais.
Reconhecer e valorizar a economia do cuidado não é apenas uma pauta de justiça de gênero, mas uma exigência básica para que o Brasil consiga envelhecer com dignidade, sustentabilidade e respeito àqueles que dedicaram a vida a construir o nosso futuro.
(*) Diana Vaz de Lima é professora e pesquisadora da UnB (Universidade de Brasília).
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