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O luto como aprendizado coletivo

Por Marcos Buckeridge (*) | 01/09/2026 14:30

Tenho procurado discutir a morte em diferentes escalas. Vimos que ela não é simplesmente o oposto da vida, pois está incorporada ao próprio funcionamento dos sistemas vivos. Átomos e moléculas fluem através dos seres, enquanto vivos, e indivíduos desaparecem, levando consigo parte da informação que carregavam, mas deixando interconexões (também informação) que permanecem. Aos poucos, a morte pode ser vista não como um ponto final, mas como parte de um processo mais amplo de transformação.

Porém, há um aspecto importante desse processo, principalmente para os seres humanos, sobre o qual ainda não falei: o que acontece com aqueles que permanecem depois que algo ou alguém desaparece?

É aí que entra o luto. Costumamos associá-lo à morte de uma pessoa, mas o conceito pode ser um pouco mais amplo. Há luto quando termina um relacionamento, quando uma pessoa se aposenta depois de décadas exercendo uma profissão, quando se perde uma condição física ou quando um projeto em torno do qual organizávamos o futuro deixa de ser viável. Em todos esses casos, há, evidentemente, uma perda, mas talvez não seja apenas o objeto perdido que importe. Quando algo desaparece, some também uma parte da organização que construímos em torno dele. Uma organização da qual fazemos parte. O desaparecimento de um nó da nossa rede de relações muda. As expectativas, os hábitos e as maneiras de imaginar o futuro também mudam. Ao processo de luto (negação, revolta, negociação, tristeza e aceitação) talvez seja possível acrescentar, ao raciocínio que proponho aqui, um acréscimo: a reinvenção.

Passar por processos semelhantes é, na realidade, algo corriqueiro. Enfrentamos pequenos lutos todos os dias: perdemos a caneta preferida, um objeto ao qual nos apegamos ou um projeto que não se concretizou. Outras perdas exigem reorganizações maiores: um emprego, uma função que exercíamos ou mesmo uma instituição. E há, evidentemente, aquelas que atingem regiões muito mais profundas da nossa rede de relações, como a perda de um ente querido. O fato é que passamos a vida enfrentando lutos e tendo de nos reinventar em intensidades diferentes.

Ainda que estejamos refletindo sobre os humanos, podemos pensar que as perdas constantes estão presentes em toda a biologia. Ao olhar para um organismo vivo, ele parece estar estável. Olhar para uma árvore hoje e amanhã nos dá a impressão de estar diante da mesma árvore.

Ao nos olharmos no espelho, mesmo com as mudanças que o tempo insiste em registrar, reconhecemos a mesma pessoa. No entanto, essa permanência esconde uma quantidade extraordinária de transformações. A estabilidade desses seres, portanto, não resulta da conservação de seus componentes, mas da capacidade de preservar o conjunto de correlações que formam as redes que os fazem funcionar, tanto internamente, ou seja, nas células, quanto nas relações ecológicas envolvidas em sua existência.

Voltando aos humanos, o luto ocorre na mente quando um elemento (nó) da rede que sustenta sua existência é perdido. Quando uma pessoa próxima morre, não perdemos apenas ela. Deixa de existir, pelo menos fisicamente, a rede de relações que se havia organizado em torno dela.

Certas conversas deixam de acontecer, alguns lugares passam a ter outro significado, projetos imaginados para o futuro desaparecem e até mesmo parte da maneira como nos percebemos pode precisar ser reconstruída. Quanto mais central aquela pessoa for nessa rede, maior provavelmente será a reorganização necessária. O problema talvez não seja a magnitude da perda isoladamente, mas a posição que aquilo que desapareceu ocupava na arquitetura de relações que constituía nossa vida.

Isso poderia explicar por que acontecimentos aparentemente semelhantes produzem respostas tão diferentes. Em biologia, um mesmo estímulo não produz necessariamente a mesma resposta em dois organismos da mesma espécie. O resultado depende da história do sistema, de sua organização, de sua plasticidade e das relações existentes no momento em que a perturbação ocorre. Uma perda não atua sobre uma página em branco. Ela incide sobre uma rede construída ao longo de anos ou décadas e a obriga a adotar uma nova configuração.

Tendo aplicado esse raciocínio, podemos agora mudar de escala. Sociedades também constroem redes de relações, memórias, instituições, valores e expectativas. Guerras, pandemias, crises econômicas, transformações tecnológicas e mudanças ambientais podem comprometer partes importantes dessas redes. Nesses momentos, não desaparecem apenas pessoas, instituições ou bens materiais. Podem desaparecer formas de trabalho, maneiras de convivência e até certezas que pareciam suficientemente sólidas para organizar a vida coletiva. Depois de uma grande ruptura, uma sociedade não volta simplesmente ao estado anterior. Ela precisa reorganizar o que ainda resta: reinventar-se.

É nesse ponto que o luto começa a se aproximar de uma ideia que venho discutindo há algum tempo nessas séries: o aprendizado coletivo. Tendemos a pensar no aprendizado como uma aquisição. Aprender seria acrescentar uma informação nova ao conjunto de informações que já possuímos. Entretanto, os processos de aprendizado mais profundos talvez não funcionem assim. Às vezes, para incorporar uma informação nova, precisamos modificar as relações entre informações antigas. Em outros casos, precisamos abandonar interpretações que funcionaram por muito tempo, mas que já não bastam para organizar o que estamos observando. Aprender, nesse sentido, não significa apenas acrescentar. Significa reorganizar. É aqui que se dá a primeira série desse conjunto de séries que venho escrevendo: a série dos vetores.

Ou seja, as transformações sociais seguem, no pensamento coletivo, os passos do luto, que levam à reinvenção.

A ciência oferece um exemplo interessante, pois sua história está repleta dessas reorganizações. Uma teoria científica não precisa tornar-se completamente falsa para perder a posição que ocupava. A mecânica de Newton não desapareceu com o surgimento da relatividade e da mecânica quântica. Continua extraordinariamente útil dentro de determinados limites, mas já não pode organizar sozinha nossa compreensão do Universo. O que mudou foi a posição que ela ocupa em uma arquitetura conceitual mais ampla. Em certo sentido, portanto, uma teoria pode permanecer e, ao mesmo tempo, morrer. Ela permanece como conhecimento, mas morre como princípio capaz de organizar, por si só, uma determinada visão de mundo. No caso da ciência, portanto, o processo é como o que descrevi no artigo anterior desta série: parte do sistema morre, mas o desenvolvimento continua. É um processo de desenvolvimento análogo ao dos organismos.

Agora podemos retornar ao luto com uma compreensão um pouco diferente daquela com que começamos. Morrer, nesse sentido ampliado, não significa necessariamente desaparecer. Pode significar deixar de exercer uma função de organização. Uma profissão continua existindo depois que alguém se aposenta, mas deixa de organizar seus horários, suas relações e parte de sua identidade. Uma casa continua no mesmo lugar depois que a deixamos, mas já não organiza nosso cotidiano. Uma pessoa que morreu permanece nas histórias que contamos, nas coisas que aprendemos com ela e até em certos hábitos que adquirimos durante a convivência, mas já não ocupa a mesma posição na rede de relações que constituía nossa vida. Em outras palavras, o passado não desaparece. Ele muda de lugar.

Isso nos leva novamente ao aprendizado coletivo. Uma sociedade que atravessa uma grande perda também precisa decidir, ainda que esse processo raramente seja consciente ou organizado, o que conservar e o que transformar. Se simplesmente esquecer o que aconteceu, poderá perder informações fundamentais para responder a eventos semelhantes no futuro. Se tentar conservar intacta a organização anterior, poderá tornar-se incapaz de responder às novas condições. O aprendizado parece depender justamente da capacidade de manter parte da memória e, ao mesmo tempo, reorganizar as relações entre o que foi preservado. Pode ser que seja por isso que a memória e o esquecimento não sejam simplesmente opostos. Ambos participam da reorganização.

Curiosamente, depois de percorrer esse caminho, retornamos mais uma vez à biologia. A evolução não constrói organismos novos apagando continuamente tudo o que existia antes. Genes muito antigos permanecem em organismos atuais; estruturas surgidas em determinados momentos da história evolutiva são reutilizadas para novas funções, e vias metabólicas ancestrais passam a integrar redes cada vez mais complexas. A novidade emerge da reorganização do que permaneceu. Há conservação, mas também mudança; há memória, mas essa memória não impede a transformação.

Talvez seja exatamente isso que aconteça no luto. Não voltamos ao que éramos antes da perda, porque parte da organização que tornava aquele estado possível já não existe. Mas também não começamos do zero. Carregamos conosco relações, lembranças, conhecimentos e transformações produzidas por aquilo que perdemos. O trabalho do luto talvez consista justamente em reorganizar esse material para que uma nova configuração possa emergir sem que seja necessário apagar completamente a anterior.

Se for assim, o luto deixa de ser apenas uma consequência dolorosa da morte e passa a revelar uma característica mais geral dos sistemas vivos. Viver exige conservar e abandonar, manter relações e construir outras, preservar informação e modificar a maneira como ela participa da organização do sistema. Isso vale para uma célula que responde a uma mudança ambiental, para um organismo que se adapta, para uma pessoa que precisa reconstruir a vida depois de uma perda e talvez também para sociedades que tentam aprender com sua própria história.

Voltamos, assim, ao ponto de partida. A vida pode ser compreendida como um processo contínuo de aprendizado, mas aprender talvez nunca signifique apenas adquirir algo novo. Em muitos momentos, aprender significa reorganizar o que restou depois que algo se perdeu. Talvez o luto seja justamente um dos mecanismos pelos quais fazemos isso. Não eliminamos o passado nem conseguimos mantê-lo intacto.

Conservamos parte dele, modificamos outra e seguimos reorganizando as relações que nos permitem continuar existindo. Nesse sentido, talvez o luto não seja apenas o que fazemos diante da morte. Também pode ser uma das maneiras pelas quais a vida aprende a continuar.

(*) Marcos Buckeridge é professor do Instituto de Biociências da USP (Universidade de São Paulo).

 

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