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A tirania de ter que ser interessante

Por René Dentz (*) | 26/04/2026 13:00

Há um novo imperativo silencioso organizando a vida contemporânea: é preciso ser interessante o tempo todo. Não basta existir — é preciso render; não basta viver —, é preciso gerar narrativa; não basta sentir — é preciso transformar a experiência em algo compartilhável, admirável, desejável. A vida deixou de ser vivida para ser constantemente editada. O sujeito contemporâneo já não sofre apenas por aquilo que lhe falta, mas por aquilo que não consegue performar. Há uma ansiedade difusa que atravessa as relações, o trabalho, o lazer: a sensação de que, a qualquer momento, podemos nos tornar irrelevantes, como se a existência precisasse, a cada instante, justificar sua permanência no mundo.

E isso cansa — mas é um cansaço que não se resolve com descanso, porque não vem apenas do excesso de tarefas, mas do excesso de exposição. Mesmo o tempo livre foi capturado por essa lógica: ele já não é vivido como pausa, mas como oportunidade de produzir uma versão interessante de si. Descansar, hoje, parece exigir também uma estética. O olhar que antes vinha de fora agora foi internalizado; carregamos conosco um espectador permanente que avalia, compara, corrige, descarta. Nunca estamos simplesmente presentes — estamos sempre, de algum modo, nos assistindo.

A psicanálise nos ajuda a nomear esse mal-estar ao lembrar que o desejo nasce da falta, e não da performance. No entanto, o que vemos é uma tentativa contínua de preencher qualquer vazio com produção: mais imagens, mais ideias, mais opiniões, mais versões de si. Como se o silêncio fosse um erro a ser corrigido. Mas o silêncio não é falha — é condição. É nele que algo de verdadeiro pode emergir sem a pressão de ser imediatamente compreendido ou validado. É no intervalo, e não na exposição contínua, que o sujeito se encontra.

Talvez por isso uma das formas mais discretas — e mais radicais — de resistência hoje seja justamente recusar essa obrigação de ser interessante o tempo todo. Permitir-se não ter o que dizer, não ter o que mostrar, não ter o que provar. Recuperar o direito de ser banal sem culpa, de viver experiências que não precisam ser convertidas em conteúdo. Porque há algo profundamente humano — e profundamente esquecido — em poder existir sem audiência, em sustentar uma vida que não precisa impressionar para fazer sentido.

(*) René Dentz, Psicanalista, Pós-Doc pela Freiburg Universität, na Suíça, Professor de Filosofia da PUC-Minas, Autor finalista do Jabuti Acadêmico 2025, Comentarista da Rádio Itatiaia e Pai da Sofia e da Beatriz.



 

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