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Campo Grande, Quarta-feira, 21 de Novembro de 2018

19/11/2017 08:00

Baile do desespero e do improviso

Por Felipe Mello (*)

Quando começo uma visita hospitalar como palhaço, experimento um puro e sincero estado de desespero. Há 16 anos faço isso com certa frequência e, felizmente, com uma crescente capacidade de compreensão do que pode acontecer nos corredores, quartos, recepções, UTIs e outras áreas do hospital, por meio das interações do palhaço com as pessoas – profissionais, pacientes e acompanhantes.

No início, havia a vontade de levar um repertório vasto, uma caixa cheia de ferramentas, um arsenal de possibilidades. Tudo para distrair a plateia. Afinal, imagina o senso comum, ao artista cabe a função de provocar a catarse, o desligamento do mundo real e o mergulho no imaginário. Não discordo por completo disso, pois existem momentos em que a realidade é triste, feia e merece nosso protesto. Mas, isso não me interessa agora. O papo é outro.

Pouco a pouco, busquei mais leveza nas idas ao hospital. Tirei a maquiagem e simplifiquei o figurino. Cada vez mais, basta-me o nariz vermelho como acessório e o desespero como causa. Sim, o desespero. A decisão de não mais esperar, mas, sim, entregar-me ao momento. Pode-se diminuir o valor da provocação de palavras, mas para mim foi e ainda é uma chave. Eu não espero nada quando entro em um quarto de hospital. Não espero ser a causa do riso. Não espero curar o paciente. Não espero. Em respeito a quem está lá, não entro antes de entrar. Não me preocupo. Apenas me ocupo de chegar disposto e sincero ao encontro.

Aqui reside, a meu ver, o tesouro do improviso. A honestidade de estar presente onde quer que decido estar. Nem antes e nem depois: presente. E, para isso, preciso esvaziar para fundar um novo encontro. Prontidão: estar disponível, interessado, ou ainda, estar inteiro no que decido fazer, como já sugeriu um Fernando famoso e lusitano.

Calma, a proposta não é jogar fora tudo o que já juntamos nas mochilas dos conhecimentos, estratégias, habilidades e que tais. Não. Seria um desperdício. Vou a Píndaro, que há milhares de anos apontou uma distinção que até hoje parece confusa. A sabedoria, segundo ele, seria o conhecimento temperado pela Ética.

Não sei como traduzir a sensação de todo o trabalho em palavras. Não se trata de falsa modéstia. Está mais para incapacidade, mesmo. Mas, se tivesse que palpitar sobre o que mais me toca hoje em dia no que faço, eu arriscaria: organizar para simplificar e caprichar, tudo perfumado com Ética. Por organizar, entendo a decisão de criar as condições para que o encontro aconteça: preparação e concentração. Para simplificar, o abraço ao essencial e ao momento presente (parem o mundo que agora eu estou aqui!). E o capricho ético de entregar o melhor de si na dança, observando e cuidando gentilmente do lugar do outro, para que pernas, braços, sorrisos e almas se entrelacem por instantes e rodopiem como nunca ninguém rodopiou antes e não rodopiará nunca mais.

Valorizar o tesouro inédito de cada encontro, crendo que dentro da semente mora uma árvore: a isso quero dedicar minha vida.

(*) Felipe Mello é comunicador, ator e palhaço. Diretor-fundador do Canto Cidadão, organização que já levou arte a mais de três milhões de pessoas em hospitais e escolas públicos e filantrópicos.

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