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Campo Grande, Sábado, 16 de Dezembro de 2017

20/04/2017 11:04

Berlim: seus desafios educacionais e nossas semelhanças

Por Ronaldo Mota (*)

A República Federal da Alemanha é constituída por dezesseis estados, sendo um deles formado pela região de Berlim, com seus quase quatro milhões de habitantes. Cada estado é responsável pelo seu respectivo sistema de ensino, contando com razoável autonomia. Antecedendo o nível Primário, a maior parte das crianças atende ao Kindergarten, em duas etapas. O Kinderkrippe, correspondente à creche, até os três anos de idade, seguido pela pré-escola.

Aos seis anos o aluno começa o Primário, o qual dura de quatro a seis anos, a depender do estado. No nível Secundário, com duração de seis anos, há, em geral, quatro caminhos: Hauptschule, Realschule, Gesamtschule e Gymnasium. A rota do Gymnasium é a mais exigente e concorrida, a qual prepara para a Universidade.

Alternativamente ao Gymnasium, há o caminho do vocacional técnico. Considerado um sucesso na Alemanha, parece estar se mostrando, recentemente, menos atraente e recompensador. Mudanças abruptas nas demandas no mundo do trabalho exigem alterações nos planos de voo dos técnicos, incluindo, cada vez mais, a necessidade de cursos tecnológicos de nível superior, a exemplo das conceituadas Technische Hochschulen. Uma vez completo este caminho, há possibilidade de boa empregabilidade, razoável salário inicial, ainda que limitado em crescimento ao longo da carreira, se comparado com aqueles que seguem a opção Gymnasium/Universidade.

O estado de Berlim decidiu, no começo desta década, juntar os três primeiros caminhos, excluído o Gymnasium, em um só, denominado Sekundarschule. Este seria previsto para atender um amplo espectro de habilidades, seria menos acadêmico e mais voltado ao mercado de trabalho. O grande desafio está em tal opção entre os dois caminhos ser excessivamente precoce, definindo aos 10 anos de idade as perspectivas e possibilidades futuras.

Nesta faixa etária, é possível que os rendimentos (e comportamentos) escolares reflitam predominantemente os ambientes domésticos, incluindo escolaridade dos pais, circunstâncias do entorno e oportunidades de acesso a conteúdos. Provavelmente, ainda prematuro para mensurar, com a devida segurança, as vocações e os efetivos potenciais de competências e de talentos de cada um.

O sistema educacional de Berlim, mais do que dos demais estados, apresenta um conjunto de complexidades decorrentes do número maior de alunos denominados de “imigrantes”. Este termo se aplica até mesmo para nascidos na Alemanha, filhos e mesmo netos de imigrantes turcos, curdos ou árabes. O problema está longe de ser simples, transcendendo educação, mas todas as soluções aventadas passam necessariamente por educação.

O Gymnasium, caminho daqueles que pretendem ir para a Universidade, tem em torno de 70% de suas vagas reservadas aos alunos com boas notas e comportamentos adequados no Primário e as 30% vagas remanescentes são disputadas por todos os concluintes interessados em participar de uma loteria. Ocorre que, mesmo aos eventualmente sorteados, as escolas podem definir salas especiais àqueles que têm menor domínio do idioma alemão. Na prática, resulta em processo complementar de discriminação, reforçando as dificuldades de acesso ao ensino superior.

Educação é o mais importante mecanismo de promoção de igualdade de oportunidades e de efetiva mobilidade social. Da mesma forma, processos educacionais podem, eventualmente, reforçar e cristalizar processos discriminatórios. Isso ocorre quando se inviabiliza a priori que filhos de pais menos escolarizados desfrutem do leque máximo de possibilidades.

Este tema guarda relativa semelhança com a realidade educacional brasileira. Ainda que não tenhamos os chamados imigrantes em número considerável, temos sim uma maioria absoluta de alunos cujos pais têm frágil instrução. No Brasil, estratificado socialmente, as perspectivas de ascensão social estão, na prática, limitadas às oportunidades educacionais de qualidade que forem proporcionadas aos jovens.

No momento em discutimos os caminhos do novo Ensino Médio, para nos transformarmos num país mais democrático e socialmente mais justo, é fundamental que, educacionalmente, proporcionemos oportunidades mais equânimes para todos e tentemos compensar, priorizando competências e talentos dos educandos, os prejuízos decorrentes de pais menos escolarizados e com menor renda.

(*) Ronaldo Mota é reitor da Universidade Estácio de Sá

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