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E esse dia ruim, não vai ter fim?

Por Cristiane Lang (*) | 31/01/2026 08:30

Há dias que não passam, apenas se arrastam.

O relógio cumpre o seu dever, os ponteiros se movem, o sol troca de lugar no céu, mas por dentro nada muda. O minuto tem o peso de uma hora e a hora parece um mês inteiro comprimido dentro de um peito cansado. São dias em que a vida não flui; ela emperra. Tudo exige esforço: levantar, falar, responder, existir.

Nesses dias, a esperança não falta apenas como ausência, mas como esquecimento. Não é que acreditemos que dias melhores não virão; é que simplesmente não conseguimos imaginá-los. A mente perde a capacidade de projetar luz. O futuro vira um quarto escuro cujo interruptor não encontramos.

E então pensamos: vai ser sempre assim.

Mas o curioso dos dias ruins é que eles sabem mentir muito bem. Eles distorcem o tempo e a perspectiva. Fazem a dor parecer permanente e o cansaço parecer definitivo. São especialistas em nos convencer de que o agora é eterno.

Só que não é. O sofrimento tem uma intensidade própria, quase física. Ele dilata as horas como se estivesse esticando um elástico invisível. Cada pequena tarefa vira travessia. Cada silêncio pesa. Cada lembrança fere. O mundo segue funcionando para todos, menos para nós. E essa sensação de estar parado enquanto o resto gira é talvez uma das solidões mais profundas que existem.

Em dias assim, não buscamos grandes alegrias. Queremos apenas que passe. Não pedimos milagres, só movimento. Um empurrão invisível que faça o tempo voltar a escorrer em vez de coagular.

Mas atravessar dias ruins não é correr deles; é resistir dentro deles. É sentar na tempestade sem ter para onde ir. É respirar curto, mas continuar respirando. É aceitar que hoje não há respostas bonitas, apenas passos pequenos. Existe uma coragem silenciosa em permanecer.

Porque, por mais que pareça interminável, todo dia ruim é também um ciclo. Ele tem começo, meio e, inevitavelmente, fim. A intensidade que hoje sufoca amanhã será lembrança. A eternidade que agora pesa se revelará apenas um trecho do caminho.

Há uma espécie de trabalho invisível acontecendo nesses dias: algo dentro de nós está sendo reorganizado, mesmo que doa. Como ossos que se alinham com dor para sustentar melhor o corpo depois. Como o inverno que parece matar as folhas, mas apenas prepara a próxima floração

O problema é que, enquanto estamos no meio da travessia, nada disso é visível. A gente só vê o cinza. Só sente o peso. Só quer que acabe. E talvez tudo bem.

Nem todo dia foi feito para ser produtivo, inspirador ou bonito. Alguns dias existem apenas para serem suportados. E suportar já é muito. É ato de resistência. É prova de vida.

Há uma delicadeza escondida em sobreviver a um dia ruim. Uma vitória miúda que ninguém aplaude, mas que sustenta a continuidade. Porque quem atravessa o pior pedaço da estrada, mesmo arrastando os pés, ainda assim avança.

Talvez a esperança, nesses dias, não seja acreditar em um amanhã radiante. Talvez seja apenas aceitar que o hoje não é definitivo. Que a tristeza, por mais intensa, não é morada permanente. Ela é visita longa, inconveniente, mas ainda visita

O tempo que hoje parece inimigo, amanhã será remédio.

E quando finalmente o dia terminar — porque ele sempre termina — não será como um milagre repentino. Será quase imperceptível. Um suspiro mais leve. Uma brecha de silêncio que não dói. Uma pequena distração que devolve cor ao mundo.

Dias ruins duram uma eternidade só enquanto estamos dentro deles. Depois, percebemos que eram apenas uma curva fechada, não o fim da estrada.

Atravessar é isso: seguir mesmo sem ver a saída, confiando apenas que todo ciclo gira, que toda noite cede, que nenhuma dor sustenta para sempre o próprio peso.

E, ainda que hoje você não consiga acreditar em dias melhores, eles continuam existindo, caminhando na sua direção em silêncio. Basta aguentar mais um pouco. Não para vencer o dia. Mas para deixá-lo passar.

(*) Cristiane Lang, psicóloga clínica, especialista em oncologia.  

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.