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A Arte de explicar o que já foi

Por Gillianno Mazzetto (*) | 08/05/2026 13:50

Caro(a) conviva,

Rudyard Kipling, aquele inglês de bigode imperial e verso certeiro, deixou uma frase que passou décadas disfarçada de sabedoria. Diz ele: "Nunca cometi um erro na minha vida, pelo menos um que eu próprio, mais tarde, não pudesse explicar." Na primeira leitura, parece confissão. Na segunda, é confissão de outra coisa.

Kipling não estava sendo humilde. Estava dizendo, com a delicadeza britânica de quem não levanta a voz, que o problema não é errar, é a velocidade assombrosa com que o ser humano cria a narrativa que o absolve.

Conheço pessoas assim. Provavelmente você também conhece. Talvez, em algumas manhãs de autocrítica honesta, você se reconheça um pouco nelas. Pessoas que nunca estão erradas, apenas incompreendidas. Pessoas que nunca falham, apenas foram sabotadas pelas circunstâncias, pela crise, pelo mercado, pelo clima, pelo chefe, pelo ex. A explicação chega sempre. Pontual. Impecável. Ensaiada com o cuidado de quem sabe que a memória é maleável e a audiência, condescendente.

Há uma diferença brutal, e pouco celebrada, entre explicar um erro e compreendê-lo. Explicar é retórica. Compreender é cirurgia. A explicação nos posiciona; a compreensão nos transforma. E a maioria de nós, francamente, prefere a primeira. É menos invasiva. Não exige anestesia.

Kipling escreveu também o poema If, esse texto que o mundo inteiro conhece em versão de bordado de avó ou placa motivacional de escritório. If you can keep your head when all about you / Are losing theirs and blaming it on you…" Se você conseguir manter a cabeça erguida quando todos ao redor perdem a deles e te culpam por isso.

Bonito. Nobre. Mas há uma armadilha no verso que ninguém costuma apontar: manter a cabeça erguida não é o mesmo que ter a cabeça no lugar certo. Um homem pode ser impávido e completamente equivocado. A serenidade não é garantia de acerto, é apenas garantia de compostura.

A constatação fria é que não há erros reconhecíveis para quem já preparou a defesa. O autoengano não é covarde, ele é eficiente. Funciona. Nos protege do peso de sermos os autores dos nossos próprios naufrágios. Mas a que custo?

Ao custo da aprendizagem real. Ao custo do crescimento que só vem quando paramos de ser os advogados de defesa de nós mesmos e nos tornamos, por alguns instantes corajosos, a testemunha honesta. Aquela que viu tudo. Que não vai mentir para o juiz.

Explicar o próprio erro é o ato mais sofisticado de evitá-lo.

O verdadeiro If de Kipling não está nas estrofes mais famosas. Está no silêncio que o poema exige do leitor depois de fechado o livro. Está naquela pergunta que o poeta nunca fez explicitamente, mas que pulsa em cada verso: você consegue ser autor dos seus atos, mesmo dos piores?

Ser autor dos próprios atos significa não os rejeitar quando são feios. Não terceirizar a responsabilidade para o acaso, para a época, para o sistema. Significa dizer, com a voz que não treme porque não precisa se defender: fui eu. Eu escolhi. Errei. Aprendo.

Isso é raro. Tão raro que quando aparece, impressiona mais do que a competência. Impressiona mais do que o currículo. Impressiona mais do que a segurança da pose.

Kipling tinha razão, sempre podemos explicar. Sempre. O ser humano é a única criatura capaz de construir uma cosmologia inteira para justificar uma decisão ruim. Somos magníficos nisso. Criamos sentido onde há apenas consequência. Narramos onde há apenas fato.

A questão não é se você vai errar. Vai. A questão é o que você faz com o erro antes de formatá-lo em história.

Porque a história que você conta sobre seus erros é, no fundo, a história que você conta sobre si mesmo.

Pense nisso!

(*) Gillianno Mazzetto Filósofo e Psicologo.

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.