Manter a juventude a qualquer custo é maldição
No romance “O Retrato de Dorian Gray”, publicado em 1890, o escritor e dramaturgo irlandês Oscar Wilde trata sobre a vida de um homem que, indiretamente, acaba fazendo um pacto para permanecer eternamente com a aparência jovem.
O livro, de viés filosófico com pitadas de terror gótico, narra a história de um belíssimo jovem, Dorian Gray, que, influenciado pelo corruptor Lord Henry Wotton, deseja que sua beleza seja eterna. Para tanto, ele pede ao pintor Basil Hallward que faça o seu retrato e que a obra envelheça em seu lugar; o pacto faustiano se realiza e, a partir de então, o seu quadro passa a refletir todas as modificações do seu corpo, enquanto ele mantém a aparência jovem, até que a decadência da pintura o leva à autodestruição
A obra nos dá um claro exemplo sobre o insaciável desejo de se manter jovem para sempre e a qualquer custo. Trata-se, em linhas gerais, de um clássico que explora a (sempre atual) busca obsessiva pela juventude e beleza eterna, mostrando como a fixação na jovialidade e o desprezo pelas fases da vida podem levar à autodestruição.
Nossa modernidade líquida, na expressão cunhada pelo sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman, nos convida todo o tempo a sermos jovens, aprazíveis e, para sempre, consumíveis. Consequentemente, todos os aspectos ligados ao envelhecimento são tidos como menores, indesejáveis e dignos de serem camuflados ou, até mesmo, eliminados, como se a velhice fosse um mal a ser combatido.
A passagem do tempo, nesse contexto, passou a ser vista como algo que mortifica e nos conduz à dolorosa experiência do morrer contínuo. É como se, a partir de certa idade, nossa grande preocupação devesse ser a de mitigar os efeitos do tempo sobre nosso corpo e nosso espírito.
Entrementes, considerando a definição legal que assegura direitos às pessoas com idade igual ou superior a 60 anos, estabelecida pelo Estatuto da Pessoa Idosa (Lei nº 10.741/2003), observa-se, hodiernamente, uma transformação demográfica significativa, que demanda profundas adaptações sociais, sobretudo no que se refere à compreensão do processo de envelhecimento humano.
Estudos do Fundo Monetário Internacional (FMI) indicam que a desaceleração do crescimento populacional, o declínio da taxa de fertilidade e o aumento da longevidade são fatores globais que impulsionam o envelhecimento, resultando no estreitamento da base da pirâmide etária em todo o mundo. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) reforça essa perspectiva, estimando que, até 2050, haverá 1,5 bilhão de pessoas com 60 anos ou mais, o que representará um sexto da população mundial e, especificamente na América Latina, entre 20% e 25% do total.
Trilhado caminho idêntico, o Brasil vivencia um acentuado processo de envelhecimento populacional, conforme os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE). Segundo o Órgão, a proporção de pessoas com 60 anos ou mais quase dobrou no território nacional, passando de 8,7% em 2000 para 15,6% em 2023, com projeções indicando que esse percentual atingirá 37,8% em 2070. Paralelamente, a idade mediana da população brasileira elevouse de 28,3 anos em 2000 para 35,5 anos em 2023, com estimativa de 48,4 anos em 2070.
Essa tendência é ainda mais nítida ao observar que, entre 2010 e 2022, enquanto a população geral cresceu 6,43%, o número de pessoas idosas registrou um aumento expressivo de 57,4%. Atualmente, referida dinâmica demográfica se traduz na proporção de 55 pessoas com 60 anos ou mais para cada 100 crianças de 0 a 14 anos.
Nesse cenário, Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional de Longevidade no Brasil (ILC BR) e ex-diretor do programa de envelhecimento global da Organização Mundial de Saúde (OMS), ressalta que o segmento com 60 anos ou mais é o único que continuará em expansão no país.
Dessa forma, é chegada a hora de nos afastarmos da infantil ilusão de que nascimento, envelhecimento e morte não são parte natural do processo humano, como os deuses da antiguidade, que já nasciam adultos e assim permaneciam para todo o sempre. Alimentamos a falsa impressão de que podemos alcançar a vitória contra o tempo; e, nesse afã, não é incomum que a melhor parte de nós mesmos seja ignorada durante o processo.
Dizem os livros de psicologia que duas emoções básicas dos seres humanos são o medo e a esperança. A incerteza é, justamente, a vivência das possibilidades que emergem das múltiplas relações que podem existir entre o medo e a esperança.
O processo do envelhecimento pode ser observado pelo espectro das perdas, que inevitavelmente acontecem; porém, também pode nos convidar a navegar em um mar de incertezas, que nos colocam entre esperanças vivas e receios provocadores. Aprender a viver sem certezas – e não ser paralisado por elas – talvez seja um dos maiores desafios da velhice.
Em nossa vida cotidiana, como ensina a filósofa Marilena Chaui, afirmamos, negamos, desejamos, aceitamos ou recusamos coisas, pessoas, situações. Por isso, aceitar a passagem do tempo – e os efeitos dela decorrentes – como algo natural é essencial para a manutenção da qualidade de vida na velhice.
No romance retratado no início do texto, a história do protagonista, Dorian Gray, termina com ele destruindo o quadro que lhe garantia a juventude eterna. Ele compreende que muitas das dores que havia sofrido eram decorrentes daquele presente que, ao final, se mostrou uma maldição.
E não poderia ser diferente.
A busca incessante pela juventude eterna é uma maldição, pois impede o crescimento pessoal, a sabedoria e a aceitação da própria história e beleza do envelhecimento, levando à ruína espiritual e à negação do desenvolvimento do "eu" ao longo do tempo, algo que o tempo e a experiência, por si só, proporcionam.
(*) Ygreville Gasparin Garcia, advogado e Membro da Comissão dos Direitos da Pessoa Idosa da OAB/MS.
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