A erosão da convivência
Há algum tempo, confundimos educação com frescura, respeito com excesso de formalidade e silêncio com repressão. Qualquer pedido de bom senso passou a ser tratado como “falta de espontaneidade”. E talvez seja exatamente por isso que frequentar cinemas, teatros, shows e apresentações públicas tenha se tornado uma experiência tão desgastante. O problema já não é apenas a ausência de etiqueta. É a ausência da mais elementar noção de convivência coletiva.
Recentemente, em Campo Grande, durante uma apresentação teatral, um casal interrompeu a peça, incomodando não apenas a artista no palco, mas toda a plateia. E o episódio, infelizmente, não surpreendeu ninguém. Porque ele deixou de ser exceção. Tornou-se retrato de uma época em que muitas pessoas parecem incapazes de perceber que existem outras ao redor.
O teatro talvez seja um dos ambientes mais simbólicos do respeito coletivo. Há alguém no palco oferecendo tempo, estudo, emoção, vulnerabilidade. Há dezenas — às vezes centenas — de pessoas que saíram de casa para viver aquela experiência. E ainda assim, basta uma conversa alta, um celular tocando, uma gargalhada fora de contexto, uma gravação indevida, para tudo ser quebrado. A concentração se dissolve. O encanto desaparece. A arte perde espaço para o ruído da falta de consideração.
E o mais assustador é perceber como isso vem se tornando banal.
Hoje, ir ao cinema virou um exercício de tolerância. Pessoas assistem vídeos no celular durante o filme, respondem áudios em voz alta, comentam cada cena como se estivessem sozinhas na sala de casa. Em restaurantes, o volume das conversas parece competir com caixas de som. Em aviões, ônibus, salas de espera e até hospitais, reina a incapacidade de compreender o silêncio como um direito coletivo.
Criou-se uma cultura perigosa onde o “eu faço o que quiser” se tornou justificativa para desrespeitar qualquer ambiente compartilhado.
Mas viver em sociedade exige renúncias mínimas. Exige perceber que liberdade não significa ausência de limites. Educação não é luxo. Não é elitismo. Não é “etiqueta refinada”. É simplesmente entender que o mundo não gira em torno das nossas vontades imediatas.
Existe uma diferença enorme entre espontaneidade e inconveniência.
Ninguém espera que uma plateia seja composta por estátuas silenciosas e rígidas. O teatro vive da reação do público: do riso, do aplauso, da emoção. Mas interromper uma apresentação, falar alto, distrair artistas e espectadores, agir como se aquele espaço fosse uma extensão privada da própria casa, revela algo maior do que falta de etiqueta. Revela um empobrecimento da empatia.
Porque educação começa justamente na capacidade de imaginar o desconforto do outro.
Talvez seja esse o grande drama contemporâneo: estamos cada vez mais conectados e cada vez menos conscientes da presença humana ao nosso redor. O celular virou uma prótese emocional. O silêncio virou insuportável. A atenção virou escassa. E, pouco a pouco, fomos normalizando comportamentos que antes seriam vistos como profundamente desrespeitosos.
Há também uma estranha inversão moral acontecendo: quem pede silêncio parece inconveniente; quem reclama da algazarra é chamado de intolerante; quem exige respeito é tratado como exagerado. Enquanto isso, a grosseria ganha verniz de autenticidade.
Mas não, não é normal interromper uma peça teatral.
Não é normal atender telefone no cinema.
Não é normal ouvir vídeos em volume máximo em espaços públicos.
Não é normal transformar qualquer ambiente coletivo em território individual.
O nome disso não é modernidade. É erosão da convivência.
E talvez o mais triste seja perceber que pequenos gestos de consideração estão desaparecendo. Esperar a vez de falar. Pedir licença. Falar baixo. Colocar o celular no silencioso. Respeitar o momento do outro. Tudo isso parece antigo demais para uma sociedade viciada em estímulos, imediatismo e autoimportância.
No fundo, a educação sempre foi um pacto silencioso entre desconhecidos. Uma espécie de acordo invisível que dizia: “eu reconheço sua existência e tentarei não tornar seu dia pior”. Quando esse pacto se rompe, sobra apenas o caos cotidiano — barulhento, egoísta e cansativo.
E talvez seja por isso que tanta gente anda exausta até em momentos que deveriam ser de lazer. Porque não basta mais pagar ingresso. Agora também é preciso torcer para encontrar pessoas capazes do mínimo: compreender que viver em coletivo exige respeito coletivo.
(*) Cristiane Lang, psicológa especialista em oncologia
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