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Não regue flores de plástico

Por Cristiane Lang (*) | 24/04/2026 06:43

Não adianta regar flores de plástico. A gente pode insistir, pode trocar a água do vaso, pode colocar o arranjo na janela para pegar sol, pode até conversar baixinho como quem acredita que palavras são adubo — mas nada floresce onde não há vida. Há pessoas assim. Bonitas por fora, impecavelmente montadas, cheias de aparência e discurso ensaiado, mas incapazes de sentir, de retribuir, de crescer. E o mais doloroso não é que elas sejam de plástico. O mais doloroso é quando insistimos em tratá-las como jardim.

Existe uma tendência quase heroica em nós de acreditar que, com paciência suficiente, amor suficiente, tolerância suficiente, qualquer terreno árido pode virar primavera. Romantizamos o esforço. Transformamos exaustão em prova de caráter. Permanecemos onde somos ignorados, diminuídos ou usados porque aprendemos que desistir é feio, que ir embora é fraqueza, que suportar é virtude. Mas suportar o quê? A indiferença? O desprezo sutil? A falta de reciprocidade? Não há honra em se esvaziar para manter intacto o ego de alguém que não se move um centímetro por você.

Algumas pessoas não querem crescer. Não querem diálogo, não querem responsabilidade, não querem olhar para si. Querem plateia. Querem aplauso. Querem alguém que aguente seus silêncios manipuladores, suas promessas ocas, seus afetos intermitentes. E nós, com nossa mania de salvar o que não nos pediu socorro, ficamos ali, regando plástico, tentando convencer o artificial a virar orgânico.

Enquanto isso, as nossas próprias raízes começam a secar. Energia é recurso finito. Tempo é recurso finito. Paciência é recurso finito. Tolerância não é obrigação moral; é escolha consciente — e toda escolha tem custo. Cada minuto investido em quem não devolve nada é um minuto que poderia estar sendo entregue a quem floresce de verdade. Cada justificativa que criamos para explicar o comportamento tóxico de alguém é um argumento contra a nossa própria lucidez. A verdade é simples, ainda que doa: há relações que não são jardim, são vitrine. São feitas para parecer, não para ser.

Não se trata de arrogância, nem de superioridade. Trata-se de discernimento. Há quem confunda compaixão com autoabandono — não é a mesma coisa. Você pode entender a história difícil de alguém e, ainda assim, decidir não permanecer nela. Pode reconhecer traumas alheios e, mesmo assim, impor limites. Porque empatia não exige que você se torne chão para que o outro pise enquanto aprende a andar.

Certas pessoas não valem nossa energia porque não sabem o que fazer com ela. Você oferece escuta, elas oferecem silêncio. Você oferece diálogo, elas oferecem ironia. Você oferece presença, elas oferecem ausência. Não é questão de esforço mal distribuído; é incompatibilidade de essência. E insistir nisso não é persistência admirável, é desperdício emocional.

Há uma diferença profunda entre cultivar e carregar. Cultivar exige troca: você cuida, o outro responde; você rega, a planta absorve; você poda, ela cresce mais forte. Carregar é peso morto. É arrastar uma relação nas costas enquanto a outra parte sequer percebe o esforço. É sentir-se sempre responsável por manter tudo funcionando, como se o amor fosse uma máquina que depende exclusivamente da sua mão.

Aprender a não regar flores de plástico é um ato de maturidade. É admitir que nem todo mundo está disposto a ser jardim. É aceitar que existem pessoas que preferem permanecer artificiais porque isso exige menos risco, menos entrega, menos verdade. E tudo bem. Cada um escolhe o tipo de existência que suporta. Mas você também escolhe onde deposita sua água.

Guardar energia não é frieza. É sabedoria. É compreender que a vida já exige tanto — trabalho, responsabilidades, perdas, mudanças — que não faz sentido desperdiçar o que temos com quem não valoriza. Não é sobre virar pedra. É sobre direcionar o afeto para terrenos férteis. É sobre investir em quem também rega, também cuida, também se importa.

No fim das contas, a pergunta não é por que a flor não cresce. A pergunta é por que insistimos em fingir que ela está viva. Talvez porque admitir o contrário exija coragem. Coragem para se afastar, para desapegar, para aceitar que algumas histórias não eram jardim, eram cenário. E cenários não florescem. Eles apenas compõem a paisagem enquanto a vida verdadeira acontece em outro lugar.

Que a gente aprenda, então, a reconhecer o que é raiz e o que é plástico. Que a gente economize água para quem sabe absorver. Que a gente tenha a dignidade de retirar o regador quando perceber que está sozinho na tarefa de fazer florescer. Porque certas pessoas não valem nossa energia — não por maldade necessariamente, mas por incapacidade. E a nossa energia é preciosa demais para ser despejada onde nada cresce.

(*) Cristiane Lang, psicóloga especialista em oncologia. 

 

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