Boulos prevê disputa voto a voto e diz que eleição será decidida fora das bolhas
Ministro veio à Capital para agenda de governo e apoiar candidatos; desafio é o voto dos indecisos, analisa
RESUMO
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Ministro Guilherme Boulos afirmou, em entrevista ao podcast Na Íntegra, do Campo Grande News, que a polarização política tornou as disputas eleitorais apertadas um novo normal no Brasil e no mundo. Segundo ele, a campanha de Lula foca no eleitor indeciso, pois parte do eleitorado já está cristalizada. Boulos veio à Capital para agendas institucionais e eleitorais, incluindo apoio à candidatura de Fábio Trad ao governo do Estado.
A polarização política transformou disputas eleitorais apertadas em uma espécie de “novo normal” no Brasil e em outros países, na avaliação do ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos (PSOL). Em entrevista ao podcast Na Íntegra, do Campo Grande News, nesta quinta-feira (17), em Campo Grande, ele afirmou que a divisão do eleitorado reduz a margem para mudanças de voto e faz com que as campanhas concentrem esforços em quem ainda não se decidiu. Boulos veio à Capital para cumprir agendas do Governo Federal e também apoiar a campanha de candidatos do PT e aliados e falou com exclusividade ao podcast.
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“É extremamente polarizado. É difícil você ver uma eleição hoje no mundo que não seja 52% a 48%, 51% a 49%. Está muito parelho. E a gente sabia que seria uma eleição parelha.”
Ele deu a declaração ao comentar a disputa pela Presidência da República entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e seus adversários. Pesquisas divulgadas nos últimos dias mostram cenários competitivos em eventual segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro (PL), embora os resultados variem conforme o instituto. Na leitura de Boulos, uma parcela dos eleitores dos 2 campos políticos já está consolidada e dificilmente mudará de posição até a votação. “Tem uma parte da sociedade que está cristalizada. Independentemente do que o governo faça”, disse. “No campo da esquerda também existe um segmento que não vai mudar de voto”.
É justamente fora desses 2 grupos que, segundo o ministro, está o eleitor que pode definir a disputa. Boulos afirmou que a campanha de Lula pretende concentrar o diálogo sobre quem ainda está indeciso ou não se identifica plenamente com nenhum dos principais candidatos. Ele tem viajado a vários locais do País e considerou estratégica a vinda ao Estado, que tem tradição no voto para nomes da direita.
O que você tem é uma parte da sociedade que está indecisa, que também não se sente eventualmente representada por nenhum dos dois candidatos, mas que vai às urnas e é quem vai decidir no fim do dia da eleição.”
Ao defender a estratégia eleitoral do governo, Boulos disse que a campanha pretende estimular uma comparação entre Lula e Flávio Bolsonaro, inclusive entre pessoas que não se identificam com a esquerda. “Mesmo que a pessoa fale: ‘não me representa, eu não sou de esquerda, eu não gosto do Lula’, compare. E decida o seu voto a partir dessa comparação”, disse.
Questionado se consegue levar esse discurso para além do público que já tem afinidade com o governo, Boulos reconheceu que esse é justamente o desafio da campanha. “É o que nós temos buscado fazer através da campanha do presidente Lula, com esse diálogo. E é o que nós temos buscado fazer nos eventos”, afirmou.
Boulos está em Campo Grande nesta quinta-feira para uma agenda que mistura compromissos institucionais e eleitorais. Entre as atividades previstas estão encontro com trabalhadores de aplicativos, visita às obras do loteamento Novo Samambaia e caminhada com Fábio Trad (PT), candidato ao Governo de Mato Grosso do Sul, na região da Cidade dos Anjos.
Para o ministro, encontros desse tipo também funcionam como oportunidade de conversar com pessoas que não integram o eleitorado tradicional de Lula. Ao mencionar um evento previsto para reunir entre 1,5 mil e 2 mil pessoas na Capital, ele disse não esperar encontrar apenas apoiadores do presidente.
“Nem todo mundo que está lá é eleitor do Lula. Você acha que dessas 1.500, todas são? Certamente não. Tem pessoas que estão indecisas, tem pessoas que talvez não vão votar no Lula. Meu papel também vai ser ir lá e conversar”, afirmou.
Agenda de governo
O ministro veio a Campo Grande para se reunir com motoristas profissionais, de aplicativos e entregas, para discutir a instalação de um ponto de apoio em um local estratégico, o projeto chamado Parada Certa, um modelo que outras cidades do País já adotaram, com refeitório, ilhas para carregar aparelhos celulares, que são instrumentos de trabalho, e também descanso. Serão 100 pontos como este no País, 10 já inaugurados.
Uma reclamação deles é que não tem lugar para usar o banheiro, não tem lugar para dar uma descansada. Eles trabalham na rua. Seja atrás de um volante, seja em cima de uma moto, mas na rua.”
Para esse público, ele também falará sobre o programa de financiamento Move Brasil, para aquisição de veículos, já que muitos alugam carros e motocicletas, o que compromete boa parte da renda.
Ainda em relação aos motoristas, Boulos comentou sobre a iniciativa que não prosperou de tentar regularizá-los, para terem seguridade social, projeto que não avançou no Congresso Nacional.
Boulos também incluiu em sua passagem pela cidade a visita a duas comunidades, uma é o Jardim Samambaia, onde a União aplica R$ 30 milhões para revitalização e ele pretende acompanhar o projeto, que deve atender cerca de 500 famílias. O outro local é uma área de ocupação na saída para São Paulo, perto do Parque Lageado, a Cidade dos Anjos, onde famílias vivem em barracos de madeira e tapume.
Boulos conheceu o lugar este ano e falou da insalubridade, ali já foi um lixão. As famílias serão realocadas para um conjunto habitacional que será construído na região da saída para Rochedo, perto da Vila Nasser.
Eu fui fazer uma visita e eu fiquei muito impactado com o que eu vi lá, acho que qualquer pessoa que fosse lá ficaria impactada, porque é uma comunidade, para além de ser no barro, sem asfalto, com barracos de madeira, situação precária, tinha um outro problema: ela foi construída em cima de um lixão, então o solo é contaminado, eu vi a criançada brincando no barro, cheia de pereba na pele.”
Agenda eleitoral
Cumprida a agenda de governo, no fim do dia ele participará de compromissos eleitorais com candidatos do PT, incluindo reunião com famílias para falar sobre moradia, quando deve ser lançado um braço local do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto). O ministro tornou-se uma liderança nacional após se destacar na defesa da moradia em São Paulo.
Questionado se, por sua origem popular e pelo ativismo, não seria natural apontá-lo como eventual sucessor do espólio político do presidente Luiz Inácio Lula da Silva após ele se aposentar, Boulos rejeita a discussão, considerando-a inoportuna.
Eu acho que a pior coisa que tem, na política e na vida, é colocar o carro na frente dos bois. Eu acho que nós estamos num momento que é a eleição mais decisiva do nosso País. Mais decisiva.”
Candidatura do PT em MS
Para Boulos, que é um dos coordenadores da campanha de Lula e analisa o cenário político nacional, a candidatura de Fábio Trad (PT) ao Governo de Mato Grosso do Sul, depois de um longo tempo sem a esquerda alcançar um lugar de destaque no debate majoritário, mostra que há espaço para o crescimento mesmo em estados identificados com o conservadorismo nos últimos anos. Segundo ele, a maior visibilidade alcançada pela candidatura petista nesta eleição contesta a ideia de que o eleitorado sul-mato-grossense estaria inteiramente alinhado ao bolsonarismo. “Não é verdade que todo mundo que mora no Mato Grosso do Sul é conservador e bolsonarista. Há espaço para você construir uma alternativa. Há espaço para você não ficar em um pensamento único”, afirmou.
Boulos relacionou o cenário sul-mato-grossense a movimentos que, segundo sua avaliação, também podem ser observados em outros estados, como Goiás, Paraná e Santa Catarina. Para o ministro, períodos eleitorais abrem espaço para que candidaturas tentem alcançar eleitores que não se identificam integralmente com determinado campo político.
Eleição também é momento para você furar a bolha.”
Na avaliação dele, parte do crescimento de Trad estaria justamente na capacidade de buscar eleitores que não se consideram de esquerda, mas que também rejeitam o projeto político associado ao bolsonarismo. “Acho que o crescimento da candidatura do Fábio Trad aqui também tem a ver com isso”, disse.
O ministro disse que não há informação sobre a possibilidade de o presidente vir ao Estado durante a campanha, uma vez que ele precisa conciliar agendas de governo com viagens para participar de eventos da disputa eleitoral.

