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Os Terena e a continuidade na escrita de existência e resistência

Por Kleber Gomes (*) | 17/09/2026 12:30

Escrevo estas linhas, a partir do chão de uma cidade com grande importância no cenário nacional, Campo Grande, a capital do promissor estado de Mato Grosso do Sul. Simultaneamente, olho para o mesmo céu que meus antepassados miraram e enxergaram as estrelas lá no alto, quando estavam em nossos territórios há quatro, cinco, seis gerações anteriores à minha. Sinto, a inspiração que eles tiveram é a mesma aqui em mim, apesar da distância no tempo, a qual hoje nos separa.

Três séculos após a chegada a este lado do Rio Paraguai, ao que é hoje parte da região oeste do Mato Grosso do Sul, prosseguimos, pois mesmo que outros ambicionem ditar os rumos de nosso futuro, somos nós quem continuamos a assumir a escrita de nossa história quanto ao presente e ao amanhã.

As memórias dos Terena se ligam, em grande parte, ao pós Guerra contra o Paraguai. Esse evento bélico e, principalmente, o seu desfecho feriram a alma terena, afinal foi a grande causa relacionada à maior parte das terras ancestrais que foram retiradas de nosso povo. Uma perda significativa que não somente inaugurou um novo momento a nós, como também deu início a toda uma resistência em nossa história recente, responsável por nos manter vivos mesmo em ambientes hostis e contrários à continuidade de nossa existência.

Mesmo pertencente à quinta geração terena nascida após o fim da Guerra Contra o Paraguai, carrego no peito a dor de termos como povo perdido a maior parte de nossos territórios. E isso pesa muito mais, pois adentramos no referido conflito como combatentes na defesa não só de nossos territórios, como também na defesa de toda a nação da época. Ao final da participação dos Terena na Guerra, restou apenas ao nosso povo a injusta expulsão do nosso chão.

Apesar de todo esse contexto vivenciado lá nos idos do século 19, nosso povo prosseguiu na escrita da história de sua existência e resistência. Aprendemos que ferimentos, dores e perdas ao longo da caminhada e, principalmente, após o contato inicial destrutivo e violento com o colonizador europeu, não foram o ponto final de nossa gente. Chegamos até aqui, pois não nos faltou garra e perseverança em todas as batalhas nas quais estivemos envolvidos forçosamente inseridos.

Um dos grandes exemplos atuais é a forma como este povo não se dobra diante do desrespeito agudo com relação a não demarcação total de nossos territórios. Quase 40 anos após a promulgação da atual Constituição Brasileira, seguimos na luta pela concretização de nosso direito aos territórios ancestrais. Não nos calaremos, muitos menos deixaremos de agir na reinvindicação daquilo que é nosso por direito.

A luta de nosso povo é também a luta de cada um dos demais 400 povos originários por todo o país, com relação à devolução daquilo que são os nossos territórios e ao enfrentamento a todas as situações de discriminação, racismo e depreciação das quais ainda temos sido alvo. Seguimos lutando, somando forças no coletivo junto aos outros povos indígenas espalhados por todos os cantos deste Brasil.

Carregamos a fé em Ituko'Óviti, um ser, segundo nossa fé ancestral, muito acima de qualquer terena, a quem já direcionávamos nosso olhar de espiritualidade bem antes da chegada dos colonizadores com suas crenças, divindade e regras de fé. Essa espiritualidade ancestral trouxe até aqui nosso olhar não somente ao alto, mas ao coletivo, a quem está próximo e uma conexão com a natureza, da qual, acreditamos, fazemos parte inseparável. Uma espiritualidade que nos faz compreender e experimentar no dia a dia o Bem Viver, nossa filosofia milenar de vida e de existência, tal qual vivenciam os demais povos originários da América e do Brasil.

As danças, o idioma, o trato com a natureza, a identidade de séculos, todo esse conjunto riquíssimo tem nos acompanhado por todos os locais de nossa trajetória mais recente. Seja nos territórios tradicionais, nas atuais áreas de retomada ou na vivência e presença junto aos mais variados contextos urbanos espalhados pelo Brasil, continuamos a escrita daquilo que nos manteve vivos até aqui.

Cada ancião que ancestraliza leva consigo os saberes, as memórias e as experiências de quem viveu plenamente a cultura e a identidade de um povo. Essa triste despedida é minimizada, quando passadas às novas gerações todo um legado desses guardiões das verdadeiras riquezas que possuímos. Por isso nossa educação indígena, nossa valorização dos anciões em vida e a escuta ativa aos mais experientes em nosso meio, os quais, tão somente, desejam passar ao mais novos o que carregamos como povo ao longo desses séculos.

Que a história terena seja muito mais conhecida, não somente no âmbito local e regional, mas também por muitos outros lugares do Brasil. Se depender de nosso povo, esse conhecimento alcançará muitos outros ambientes, pessoas e lugares.

(*) Kleber Gomes é indígena terena e professor.

 

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