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Campo Grande, Quarta-feira, 23 de Outubro de 2019

10/04/2012 07:57

O ídolo caído - convencionalismo britânico

Por Guido Bilharinho (*)

No filme O Ídolo Caído (The Fallen Idol, Grã-Betanha,1948), de Carol Reed (1906-1976), com roteiro do escritor Graham Greene, reúnem-se dois dos mais conhecidos e destacados ficcionistas britânicos (em cinema e romance) das décadas de 1940 a 1960.

Nessa época, o país, conquanto não mais ocupando o lugar proeminente exercido nos séculos anteriores como a primeira nação imperialista da era burguesa, ainda se bafeja dos ecos da anterior relevância, irradiando influência e conquistando adeptos e admiradores, ainda que tardios ou anacrônicos, seduzidos por suas precedentes prevalência e glória.

Como sempre acontece com países e regiões que detêm a predominância econômica e, em decorrência, militar, social e cultural, neste último caso tudo que produzia salientava-se e despertava interesse.

Por esse tempo, destacaram–se seus romancistas populares, a exemplo de Somerset Maugham, o citado Greene, e, no romance policial, Agatha Christie e, no geral, até mesmo ficcionista da periferia do Império, o australiano Morris West.

No caso daqueles, o prestígio derivado dessa importância era tão acentuado que esses escritores eram até considerados de valor e recepcionados como tal, embora não passassem, como não passam, de hábeis contadores de estórias destituídas de profundidade e carentes de inventividade formal, destinadas a mero entretenimento, mesmo que acima do nível geral dos espetáculos que se ofereciam ao desfrute popular.

A elegância e universalidade britânica revestem suas obras, outorgando-lhes certa aura intelectual que satisfazia – e possivelmente ainda satisfaz – os menos exigentes, e por isso mesmo, mais pretensiosos.

É o caso, também, da quase totalidade da filmografia do país, como a de Carol Reed, apenas competente artesão, que corresponde em cinema ao que os citados escritores representam no romance, burilado por consistente tradição cultural que remonta, a nível universal de primeiro plano, à dramaturgia de um Shakespeare.

Reed porém, como quase todos – ou todos? – os ficcionistas britânicos de sua geração, quando o antigo império desde o início do século XX vinha em decadência, é conservador no ideário e acadêmico e convencional na execução.

O Ídolo Caído chega a ser considerado pelo historiador e crítico cinematográfico francês Georges Sadoul, também refratário a experimentalismos e ousadias formais, o melhor filme de Reed “pela atmosfera e as descrições em cor pastel bem conduzidas”, não obstante, como afirma (até ele!), “sempre acadêmicas”. Opinião com a qual não concordam os que defendem – com justiça – a condição de melhor para O Terceiro Homem (The Third Man, Grã-Bretanha, 1949), desse mesmo diretor.

Como hábil e até talentoso profissional que foi Carol Reed, O Ídolo Caído possui suas virtualidades no âmbito, sempre estreito e meramente de espetáculo, do naturalismo mimético de retratação da realidade tal qual se apresenta à vista.

Na espécie, porém, Reed ultrapassa em dois aspectos essas coordenadas limitativas: na articulação do caso amoroso dos protagonistas, o semi-mordomo (Ralph Richardson) e a datilógrafa da embaixada (Michele Morgan), e na direção do garoto, que centraliza a atenção do filme, conquanto o drama desenrole-se entre o citado casal e a esposa do mordomo.

O convívio desse trio conturbado é disposto e desenvolvido com elegância e tão grande discrição que só tardiamente se sabe das ligações da áspera e enérgica governanta da embaixada e do teor do relacionamento entre os demais protagonistas, porque tanto umas quanto outro são ditos ou informados, já que inexistente qualquer manifestação cênica indicativa.

A posição, direção e desempenho interpretativo do menino (provavelmente Bobby Henney) são tão excelentes, que dificilmente ocorrem no cinema em tão alto grau e tão elevada pertinência.

A naturalidade e propriedade de sua condição e performance atingem a perfeição, não obstante sempre dentro dos limites da cópia da realidade, onde até mesmo nela dificilmente ocorra tão autêntica e convincentemente.

A sequência, no final, em que tenta e insiste ser ouvido pelos adultos que o rodeiam, excede, nesses predicados, a própria realidade. E impressiona.

(do livro O Filme Dramático Europeu, editado pelo Instituto Triangulino de Cultura em 2010)

(*)Guido Bilharinho é advogado atuante em Uberaba, editou a revista internacional de poesia Dimensão, sendo autor de livros de literatura, cinema e história regional.

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