O Juca que nunca decolou
Caro(a) conviva,
Todo ser humano quer ser livre. Mas existe uma cláusula não escrita nesse desejo: que a liberdade não exija nada demais da gente. Queremos voar, desde que o chão permaneça ao alcance dos pés.
Essa é a contradição mais honesta da existência humana, e provavelmente a mais silenciada. Falamos de liberdade como quem fala de uma terra prometida: com saudade de um lugar onde nunca estivemos. Mas quando a estrada se abre, quando o mapa some e não há mais ninguém para nos dizer o caminho certo, damos um passo atrás. Com cuidado. Com desculpas muito bem elaboradas.
"Ainda não é o momento.", "Tenho responsabilidades.", "É muito arriscado."
Nelson Rodrigues, que entendia de almas melhor do que a maioria, diria que o homem tem medo da verdade, não porque ela dói, mas porque ela liberta. E a liberdade, descobrimos tarde demais, é o fardo mais pesado que existe.
Erich Fromm escreveu, em 1941, que os seres humanos fogem da liberdade. Não é metáfora. É diagnóstico. Num mundo que exigiu demais deles, que os tirou de certezas medievais, de ordens religiosas rígidas, de papéis sociais fixos, os homens encontraram na submissão voluntária um tipo tortuoso de alívio. É mais fácil obedecer a um líder, a um sistema, a uma expectativa alheia, a uma ideia bem elaborada, do que suportar o peso vertiginoso de decidir por si mesmo.
Isso foi escrito há oitenta anos. E continua sendo escrito todos os dias, nas escolhas que não fazemos.
Confesso que já fui esse tipo de pessoa. Construí grades muito bem decoradas e as chamei de lar. Acumulei títulos, agendas, responsabilidades, como quem empilha tijolos na janela para não ter que olhar o horizonte. A ocupação virou anestesia. E anestesia, sabemos, não cura. Apenas adia.
O problema não é a falta de liberdade. O problema é o que faríamos com ela.
Há uma cena que volta à minha memória às vezes. Uma calopsita que tive, o Juca. Nunca fechamos a sua gaiola. A porta sempre esteve aberta. Mas o Juca nunca saiu. Não porque não pudesse. Porque a gaiola havia se tornado, para ele, a definição de mundo. Somos muitos Jucas.
Não porque nos prendem. Mas porque internalizamos a grade tão profundamente que ela virou identidade. E quando alguém chega e diz "a porta está aberta", sentimos não alívio, mas ameaça. Quem sou eu fora da gaiola?
Essa é a pergunta que o autoconhecimento verdadeiro força a gente a responder. Não o autoconhecimento de vitrine, aquele de testes de perfil, workshops de final de semana, frases motivacionais em fundo degradê, ou frases de impacto de um suposto estilo estoico de viver. Falo do autoconhecimento que dói um pouco. Que revela não apenas os seus dons, mas os seus medos mais bem escondidos. Aqueles que você não conta nem para si mesmo no espelho.
Porque a maioria das pessoas não tem medo de fracassar. Tem medo de descobrir quem realmente é, e ter que viver de acordo com isso.
Kierkegaard chamou isso de "desespero de não ser si mesmo". Uma das formas mais refinadas de sofrimento humano: a distância entre quem somos e quem escolhemos mostrar ao mundo. Vivemos essa distância como normalidade. Acordamos com ela. Almoçamos com ela. Dormimos com ela ao lado.
E vamos adiando o encontro, por meio de frases como: "Um dia eu mudo.", "Um dia eu falo o que penso.", "Um dia eu escolho."
Mas o dia que não tem data no calendário é o dia que nunca chega.
A coragem de ser você mesmo não é um ato grandioso. Não é largar tudo e ir morar numa ilha. Não exige gesticulação dramática nem ruptura cinematográfica. É algo bem mais silencioso, e muito mais difícil. É dizer não quando o não precisa ser dito. É escolher o trabalho que faz sentido antes do trabalho que impressiona. É admitir, para si mesmo, que a máscara pesada demais não protege: ela sufoca.
Existe uma liberdade que não exige coragem nenhuma. É aquela que pedimos em voz alta nas rodas de conversa, que curtimos nas redes sociais, que elogiamos nos outros de longe.
Existe outra liberdade, mais íntima, mais real, que começa quando você para de se perguntar o que os outros vão pensar.
Essa segunda liberdade tem um preço. Ela demanda que você se conheça. Exige que você suporte a vertigem de ser responsável pela sua própria vida. Pede, acima de tudo, que você esteja disposto a decepcionar alguém, inclusive aquela versão de si mesmo que você criou para agradá-los.
Não é fácil. Ninguém prometeu que seria. Mas existe uma diferença fundamental entre voar com medo e não voar nunca. O pássaro que voa com medo ainda chega ao outro lado. O meu Juca estava convicto de que voar era perigoso demais.
Pense nisso.
(*) Gillianno Mazzetto é filósofo e psicólogo.
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