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O que você permite, você se torna

Por Gillianno Mazzetto (*) | 24/04/2026 08:03

Caro(a) conviva,

Existe uma violência silenciosa que não deixa marca visível. Ela não bate. Não grita. Ela apenas, permite.

Você permite que o filho de doze anos minta uma vez. Depois duas. Depois a mentira vira linguagem nativa da casa e ninguém mais sabe ao certo onde começa o real e onde começa o conveniente. Você permite que o colega de trabalho assine um relatório que não fez. Uma vez, porque era urgente. Depois porque ele sempre precisava de um favor. Depois porque você havia se tornado cúmplice demais para recuar sem custo.

A permissão, quando repetida, não é mais um gesto de generosidade. É uma declaração de identidade.

"Diz-me com quem andas e te direi quem és", o ditado é velho, mas incompleto. A versão mais precisa seria: diz-me o que toleras, e te direi no que te transformaste ou ainda, diz-me o que toleras e te direi do que és capaz.

Sêneca, que entendia do assunto com a urgência de quem vivia sob imperadores caprichosos, escreveu que não nos tornamos maus de uma vez só. Somos corroídos. A corrosão começa sempre no mesmo lugar: naquele primeiro momento em que aceitamos algo que sabíamos, lá dentro, que não deveríamos aceitar. Não estou falando de fraqueza. Estou falando de consentimento.

No ambiente de trabalho, isso tem um nome mais palatável: atalho ético. Soa quase técnico. Quase administrativo. Como se fosse uma opção de rota no GPS, você escolhe o caminho mais rápido, chega no mesmo lugar, por que o drama?

O problema é que o GPS ético não volta ao ponto de partida. Cada atalho recalibra o mapa. O que antes era desvio passa a ser estrada. O que era exceção vira norma. E quando alguém na equipe aponta que aquilo é errado, a resposta, dita ou não dita, já é: "Mas a gente sempre fez assim."

Já vi gestores brilhantes se tornarem pessoas que não reconheceriam a si mesmos alguns anos após irem se transformando por meio de atalhos e escolhas. Não porque foram corrompidos por um evento dramático. Foram corrompidos pela acumulação de pequenas permissões.

A reunião em que não disseram o que pensavam porque o clima não ajudava. O número ajustado porque a meta precisava ser batida. O funcionário protegido porque era amigo, não porque era bom. Cada um desses momentos parecia isolado. Juntos, foram um autorretrato.

Na vida familiar, a dinâmica é ainda mais sutil, e mais feroz. Porque na família a gente se permite coisas que jamais aceitaria de um estranho. Permite o tom agressivo porque "ele é assim". Permite a ausência emocional porque "ela trabalha muito". Permite o silêncio que dói porque "a gente não é de falar sobre essas coisas". E o que você chama de amor, às vezes, é só acomodação com sotaque afetivo.

A criança que cresce vendo o pai engolir desrespeito aprende que amor e humilhação são vizinhos de quarto. Não porque alguém ensinou isso. Porque foi permitido. E o que é permitido, aos olhos de quem observa, é o que é normal.

Kierkegaard dizia que a maior de todas as mentiras é a que a pessoa conta para si mesma. E a versão mais sofisticada dessa mentira é a que não precisa nem de palavras, basta não agir. Basta permitir. A omissão tem uma vantagem que a mentira não tem: ela não deixa rastro verbal. Você sempre pode dizer que "não fez nada". E é exatamente isso. Não fez nada.

Mas o caráter não se forma só pelo que você faz. Ele se forma, talvez principalmente, pelo que você deixa passar.

Há uma cena que me persegue. Um executivo sênior, em reunião de diretoria, ouve uma análise claramente enviesada para favorecer uma decisão já tomada pelo dono. Todos na sala sabem. Ninguém fala. Ele também não fala. No corredor, depois, ele me diz: "Não valia a pena a briga." Eu pensei: mas valeu a rendição? Ele não respondeu. Talvez porque já soubesse que a resposta era mais cara do que a pergunta.

O que você permite na sua vida, você se torna. Não de golpe. Por sedimentação. Camada sobre camada de concessões razoáveis, de silêncios justificáveis, de exceções que viram regras. Até que um dia você olha para trás e não reconhece o percurso. Reconhece, porém, se for honesto, que escolheu cada passo.

A pergunta que fica não é filosófica. É cirúrgica:

O que você tem permitido, no trabalho, em casa, em você mesmo, que está, silenciosamente, te tornando alguém que você não escolheria ser?

Pense nisso.

(*) Gillianno Mazzetto Filósofo e Psicologo.

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.