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Campo Grande, Quinta-feira, 22 de Junho de 2017

28/08/2012 07:30

Ourivesaria do caráter

Bruno Peron (*)

Entramos pela porta de trás de uma oficina que se chama ourivesaria do caráter.

O desânimo, a fragilidade e a vulnerabilidade nos afligem quando menos esperamos.

O processo de condicionamento do caráter nem sempre esclarece qual será o terreno onde se dará a etapa próxima. O objetivo é quiçá o de que um dia o ourives nos deixe sair pela porta da frente de sua oficina, portanto bem lapidados e preparados para o mundo com que muitos de nós sonhamos (onde há conhecimento, harmonia, paz, respeito, sobriedade).

Soluções a problemas de ontem podem não servir mais para resolver os de hoje, linguagens que têm aceitação num grupo étnico poderão ter recusa noutro, cosmovisões e religiões discrepam até mesmo dentro da mesma nação, as pessoas (des)organizam-se de formas contrastantes e até conflitantes. Cada povo realiza suas necessidades de formas diferentes em alimentação, comunicação, vestimenta, higiene, diversão, repouso, etc.

A puerilidade nos persegue. Quanto mais nos distanciamos de uma época, maior o grau como se sente o absurdo (questionamo-nos como pudemos agir daquela maneira ou deixar de tomar certas atitudes numa situação que hoje tiramos de letra). O trabalho de ourivesaria é perene aos interessados e intermitente aos morosos. Nunca retrógrado. A pedra não volta a ser bruta.

As realizações técnico-industriais do Ocidente culminam no fomento incessante ao comércio do que quer que seja (até de bens nocivos à saúde e ao bem-estar), de guerras (e materiais bélicos) e intromissões políticas em território alheio em nome da democracia e da liberdade. Neste caso, a podridão do caráter transparece no processo de lapidação, que é certamente mais demorado. A pedra destes agentes é tão bruta quanto a ganância pelo ouro negro, fonte não-renovável de energia para suas locomotivas. Assim alguns países do Oriente Médio (como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos) se iludem na opulência.

A Síria encena a luta recente entre velhas potências da Guerra que continua Fria a despeito da mensagem da filosofia “alternativa” de Karl Marx. A solução aos males da Europa é dada pelos próprios europeus. Mal imaginava o barbudo que o andídoto contra o capitalismo começaria a ser injetado pela China e seu insólito modelo de “socialismo de mercado”.

Algo nos ensinou a Conferência de Bandung nos anos 1950. O despertar de alguns povos refere-se a uma nova relação de poder mundial que realça a posição de nações do “Sul”, da “Periferia” ou do “Terceiro Mundo” no sistema internacional. Este estímulo brota com força desde o gigante asiático que acabo de mencionar, já que se espera da pobre Índia e da oprimida África do Sul um papel que não têm condições de assumir.

O Brasil, cujo modelo de desenvolvimento está na “corda bamba”, aparece nesta relação de forças. Enquanto se explodem caixas eletrônicos para que ladrões levem o dinheiro que os bancos europeus nos tiraram do povo através da usura, investe-se uma fortuna em iminentes megaespetáculos esportivos. Papel do cidadão? Interferir mais nos debates e nas decisões políticas e considerar os novos espaços públicos (redes sociais, blogs e outros mecanismos dos meios digitais de comunicação) que transcendem – mas não suprimem – os meios convencionais de mudança (partidos políticos, sindicatos, comunidades de bairro, etc.).

Entrementes, a polícia migratória “hermana” surpreende brasileiras tentando viajar à Europa pela Argentina com cocaína escondida nas genitais e nas perucas. Como fica a cara de quem levamos a sério este país e queremos construir um modelo efetivamente alternativo de desenvolvimento? Por um lado, elas deveriam ter conseguido sair por não fazer falta ao Brasil; por outro, países ainda se conhecem por seus estereótipos e indústrias da cultura, da droga e do sexo. Portanto, não fazem menos que queimar nosso filme ao mundo.

A ourivesaria do caráter passa necessariamente por estes contrastes entre altos e baixos, a esperança e o descrédito, a paciência e o desânimo. Entramos muitas vezes debilitados pela porta de trás da oficina e saímos fortalecidos pela porta da frente. Com efeito, poucos acontecimentos são tão previsíveis ou fáceis de lidar do jeito que planejávamos.

(*) Bruno Peron é mestre em Estudos Latino-americanos por Filos/ UNAM (Universidad Nacional Autónoma de México)

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