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Campo Grande, Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017

01/08/2017 17:14

Quanto tempo o tempo tem

Por Heitor Freire (*)

O tempo perguntou ao tempo, Quanto tempo o tempo tem.
O tempo respondeu ao tempo: O tempo que o tempo tem,
É o tempo que o tempo tem...

...ou seja, infinito. A questão do tempo é uma incógnita que permanece indecifrada e que está permanentemente na tela de todas as pessoas.

Como utilizar o tempo? Hoje, com as vicissitudes da vida moderna o tempo se tornou uma das grandes questões a serem resolvidas. O tempo é fugaz? Ele passa a jato? Quando se vê já passou o ano?

Mas, na realidade, no meu entendimento, só existe um tempo: o presente. É nesse espaço de tempo que vivemos. É o momento. O passado já passou e o futuro ainda não chegou.

Porém, é mais confortável viver do passado ou das expectativas do futuro do que enfrentar o presente.

Segundo santo Agostinho em suas Confissões, livro XI, “... o tempo é presente, enquanto nenhum tempo é todo ele presente: e veja que todo o passado é obrigado a recuar a partir do futuro, e que todo o futuro se segue a partir de um passado, e que todo o passado e futuro são criados e derivam daquilo que é sempre presente?”

Diz mais: “No entanto, existem, pois, tanto coisas futuras como passadas. Se existem coisas futuras e passadas, quero saber onde estão. Mas se isso ainda não me é possível, sei, todavia, que onde quer que estejam, aí não são futuras nem passadas, mas presentes. Na verdade, se também aí são futuras, ainda lá não estão, e se também aí são passadas, já lá não estão.

Por conseguinte, onde quer que estejam e quaisquer que sejam, não existem senão como presentes. Ainda que se narrem, como verdadeiras, coisas passadas, o que se vai buscar à memória não são as próprias coisas que já passaram, mas as palavras concebidas a partir das imagens de tais coisas, que, ao passarem pelos sentidos, gravaram na alma como que uma espécie de pegadas.

Até a minha infância, que já não existe, existe no tempo passado, que já não existe; mas vejo a sua imagem no tempo presente, quando a evoco e descrevo, porque ainda está na minha memória”.

Viram como é confuso?

Ainda Agostinho: “Uma coisa é agora clara e transparente: não existem coisas futuras nem passadas; nem se pode dizer com propriedade: há três tempos, o passado, o presente e o futuro; mas talvez se pudesse dizer com propriedade: há três tempos, o presente respeitante às coisas passadas, o presente respeitante às coisas presentes, o presente respeitante às coisas futuras.

Existem na minha alma estas três espécies de tempo e não as vejo em outro lugar: memória presente respeitante às coisas passadas, visão presente respeitante às coisas presentes, expectação presente respeitante às coisas futuras.
Se me permitem dizê-lo, vejo e afirmo três tempos, são três. Diga-se também: os tempos são três, passado, presente e futuro, tal como abusivamente se costuma dizer; diga-se.

Pela minha parte, eu não me importo, nem me oponho, nem critico, contanto que se entenda o que se diz: que não existe agora aquilo que está para vir nem aquilo que passou. Poucas são as coisas que exprimimos com propriedade, muitas as que referimos sem propriedade, mas entende-se o que queremos dizer”.

Cá prá nós: ainda bem que o tempo existe, sem ele seria tudo muito chato. O tempo muda tudo, tudo passa. Infinitamente. Graças a Deus.

De tudo isso, cá do meu canto, deduzo que só existe mesmo, como já disse acima: o presente. E tempo é uma questão de administração e de preferência. Ponto.

(*) Heitor Rodrigues Freire é corretor de imóveis e advogado.

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