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11/03/2014 08:42

Tesouro para o futuro

Por Maurício Antônio Lopes (*)

O botânico, geneticista e geógrafo russo Nikolai Vavilov (1887-1943), infelizmente, é pouco conhecido. Em 1919, ele iniciou expedições a dezenas de países dos cinco continentes, inclusive o Brasil, para recolher de maneira sistemática variedades de todas as espécies que pudesse. Vavilov era obcecado pela biodiversidade e sonhava resolver o problema da fome. Após anos de conflito com o regime stalinista, ele morreu, preso em um campo de trabalhos forçados na Sibéria. Redimido pela História, Vavilov é aclamado como o pioneiro da criação de bancos genéticos para a preservação e melhoramento das espécies cultivadas – um Noé dos vegetais.

Hoje há milhares de Vavilovs pelo mundo, coletando sementes e tratando de estudá-las, catalogá-las e protegê-las para garantir acesso à diversidade e segurança alimentar. São cientistas de instituições de diferentes países que guardam o patrimônio genético como o principal fundamento da agricultura. O símbolo máximo da preocupação com estes recursos vitais para a humanidade fica a 1.200 quilômetros do Ártico, em um arquipélago remoto pertencente à Noruega. Ali, dentro de uma montanha permanentemente gelada, foi construído em uma rocha o Silo Global de Sementes de Svalbard, um cofre gigantesco que armazena um tesouro da humanidade.

Três câmaras subterrâneas de concreto, mantidas a 20 graus abaixo de zero, foram construídas no final de um túnel de 150m de comprimento e 180m abaixo do topo da montanha. Este cofre cavado em rocha sólida guarda caixas hermeticamente fechadas com cerca de 800 mil amostras de sementes pertencentes a dezenas de países. Todo o conjunto foi construído para durar centenas e até milhares de anos e resistir ao que for possível imaginar: terremotos, acidentes nucleares ou aquecimento global. A capacidade é de 4,5 milhões de amostras de sementes, que podem garantir a recuperação de espécies alimentares daqui a centenas de anos. O Brasil depositou, em fevereiro, 514 acessos de feijão, que se juntaram aos 264 acessos de milho e 541 acessos de arroz, enviados pela Embrapa em 2012. Materiais como o feijão- caupi, o trigo tropical, sementes de pastagens, entre muitos outros, poderão ser enviados no futuro.

O material genético enviado para o Silo de Svalbard é composto de duplicatas do material que ficou no Brasil. É uma segurança adicional para as futuras gerações de brasileiros. As sementes depositadas reúnem características especiais, aperfeiçoadas na natureza, forjadas pelos agricultores ou moldadas em programas de melhoramento genético. O feijão, nosso alimento nacional, não surgiu no Brasil, mas hoje é completamente adaptado às nossas condições. Por ser cultivado aqui há séculos, possui muitas variedades, cada uma diferente daquelas encontradas em outros países. Enviar uma cópia de segurança a Svalbard simboliza o nosso cuidado e atenção com a segurança alimentar no futuro.

O Banco Global de Svalbard é, na verdade, um legado da nossa geração.

É como uma apólice de seguro contra a ameaça constante da perda de variabilidade genética, um dos maiores perigos a rondar a humanidade. As sementes conservadas em bancos de germoplasmas contêm reservas de genes que poderão nos ajudar a enfrentar múltiplas ameças à segurança alimentar e nutricional no futuro. Podem, por exemplo, viabilizar respostas aos impactos do aquecimento global e da intensificação de estresses esperados para as próximas décadas: novas pragas e contaminantes, demanda por alimentos mais nutritivos, além de exigências ainda desconhecidas de uma sociedade cada vez mais preocupada com a sustentabilidade.

Não são poucos os desafios para garantir a segurança alimentar num planeta que deverá alcançar nove bilhões de pessoas em 2050. A demanda por alimentos deverá aumentar 50% até lá. O Silo de Svalbard ajuda a chamar a atenção e sensibilizar para a necessidade de preservar recursos essenciais para o futuro da humanidade. Sem esses recursos não há sobrevivência. Esse projeto inovador é também um símbolo da capacidade humana de unir visões e esforços, acima das diferenças políticas, religiosas ou culturais, em torno de um projeto de sobrevivência e sustentabilidade.

É um alívio saber que nossa geração fez uma apólice de seguro para colheitas futuras. Vamos torcer para que nunca tenhamos que recorrer a sementes enviadas a Svalbard. Assim como torcemos para nunca recorrer a um seguro de vida.

(*) Maurício Antônio Lopes, presidente da Embrapa

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