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Você tem medo da morte?

Por Cristiane Lang (*) | 03/08/2026 07:12

Talvez essa seja uma das poucas perguntas diante das quais a inteligência, a fé, o dinheiro e a coragem ficam igualmente desarmados. A morte nos iguala antes mesmo de chegar. Ela é o único compromisso do qual ninguém consegue desistir, adiar para sempre ou transferir para outro. E, ainda assim, passamos boa parte da vida fingindo que ela mora longe, como uma vizinha silenciosa que um dia baterá à porta errada.

Há pessoas que têm medo da morte porque, no fundo, têm medo de interromper o amor. Não temem apenas deixar de respirar; temem deixar de ouvir a voz de quem amam, de tocar os cabelos dos filhos, de sentir o cheiro da casa ao amanhecer, de rir de coisas pequenas que só fazem sentido para quem compartilhou uma vida inteira. O medo da morte, muitas vezes, é o medo de perder o mundo que construímos com afeto. É doloroso imaginar que os abraços continuarão acontecendo sem os nossos braços.

Outras pessoas têm medo porque sentem que ainda não viveram de verdade. Carregam uma coleção de adiamentos: a viagem que ficou para depois, o pedido de perdão engasgado, a paixão abandonada por prudência, o talento escondido para não desagradar ninguém. A morte assusta quando encontra uma vida excessivamente negociada. Ela se torna um espelho cruel que pergunta, sem levantar a voz: era isso? Era só isso que você pretendia fazer com o tempo que recebeu?

Existe também o medo do desconhecido. O ser humano suporta muitas dores quando consegue nomeá-las, mas a morte permanece cercada por uma névoa que nenhuma ciência dissipou completamente. Uns imaginam continuidade, outros silêncio, outros reencontro, outros nada. E talvez o nada seja o que mais assuste: a ideia de que todas as memórias, os sonhos e as versões de nós mesmos possam desaparecer como uma vela que se apaga no vento. O desconhecido tem a crueldade de não permitir ensaio.

Mas há um outro tipo de gente. Gente que não necessariamente deseja morrer, porque desejar a morte é diferente de aceitá-la. São pessoas que, depois de olhar para a finitude sem desviar os olhos, descobriram que a única resposta possível é viver melhor. Não vivem melhor porque se tornaram otimistas profissionais, mas porque compreenderam que cada dia é uma peça rara de uma coleção limitada.

Essas pessoas não acordam pensando na morte o tempo todo. Ao contrário: pensam na vida com uma intensidade que só a consciência da morte é capaz de produzir. Elas sabem que o café da manhã não é um ritual automático, mas uma oportunidade que um dia faltará. Sabem que uma conversa pode ser a última sem anunciar que é a última. Sabem que o corpo envelhece, que os pais partem, que os filhos crescem, que os amigos mudam de cidade, de fase ou de mundo. E é justamente essa fragilidade que torna tudo precioso.

Quem aceita a morte costuma fazer as pazes com algumas verdades incômodas. Aprende que não vale a pena vencer discussões e perder pessoas. Aprende que o orgulho é um móvel pesado demais para carregar até o fim da vida. Aprende que certas mágoas ocupam um espaço que deveria pertencer à alegria. Não é santidade. É economia emocional. Quando se sabe que o tempo é curto, desperdiçá-lo com ressentimentos começa a parecer um luxo absurdo.

Há uma liberdade estranha em reconhecer a própria finitude. A necessidade de aprovação diminui. A plateia perde importância. Muitos dos papéis que representamos — o profissional impecável, a mulher inabalável, o homem que nunca falha — começam a rachar. A morte tem esse poder de nos lembrar que, por baixo das máscaras sociais, existe apenas alguém tentando amar e ser amado antes que as luzes se apaguem.

Talvez por isso algumas pessoas, depois de atravessar doenças graves, perdas profundas ou acidentes que quase as levaram, voltem diferentes. Não voltam mais fortes o tempo inteiro; isso é romantização da dor. Voltam mais conscientes. Passam a escolher com mais cuidado onde colocam sua energia. Dizem mais “não” ao que as esvazia e mais “sim” ao que as faz sentir-se vivas. Param de adiar encontros. Compram flores sem motivo. Telefonam para quem amam sem esperar uma data especial. Entendem que a vida não é um ensaio para uma apresentação futura. É a própria apresentação, acontecendo agora, enquanto lemos estas palavras.

A morte, vista assim, deixa de ser apenas uma inimiga e se transforma numa espécie de professora severa. Ela não ensina através de discursos bonitos, mas através do limite. Tudo o que é ilimitado perde valor. Se tivéssemos eternidade garantida, talvez nunca disséssemos “eu te amo” hoje, nunca começássemos o livro desejado, nunca atravessássemos a rua para pedir desculpas. É o fim que dá urgência ao amor.

Isso não significa que quem vive intensamente não sinta medo. Sente. O corajoso não é aquele que não teme a morte; é aquele que, apesar dela, continua plantando jardins, fazendo planos para o próximo verão, comprando presentes de aniversário para daqui a seis meses. A coragem verdadeira não elimina a consciência do fim — ela se senta à mesa com essa consciência e, mesmo assim, brinda à vida.

No fundo, talvez existam duas maneiras de caminhar em direção ao inevitável. Uma é passar os dias tentando esquecer que morreremos, acumulando coisas, compromissos e distrações para abafar o silêncio da pergunta final. A outra é lembrar, com delicadeza, que morreremos — não para viver assustados, mas para viver acordados.

Porque a morte é a única certeza, mas não é a única verdade. A outra verdade é que estamos vivos agora. Há um coração trabalhando sem que precisemos pedir. Há gente que ainda espera uma mensagem nossa. Há um céu mudando de cor sobre a cidade. Há músicas que ainda não ouvimos, livros que ainda não lemos, abraços que ainda não demos. A consciência da morte não precisa escurecer a existência; ela pode iluminá-la por contraste, como a noite faz com as estrelas.

Então, você tem medo da morte? Talvez a pergunta mais importante seja outra: o que esse medo está dizendo sobre a sua vida? Se ele revela amor, cuide melhor de quem você ama. Se revela sonhos adiados, comece algum deles hoje. Se revela excesso de orgulho, solte um pouco o peso. E se, ao pensar na morte, nascer uma vontade imensa de viver com mais verdade, então talvez você tenha compreendido o segredo silencioso daqueles que não esperam a eternidade para começar a viver plenamente.

Eles sabem que a morte virá. Mas decidiram não morrer antes dela.

(*) Cristiane Lang é psicóloga.

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.