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Beba das Crônicas

A flor das cobras e o passeio da carruagem de fogo após a lua

Por André Alvez | 10/10/2020 08:50

Eu queria escrever uma crônica (quem sabe um conto) sobre pessoas solitárias sobrevivendo às multidões.

Ou sobre uma moça com nome de flor, ingênua, bela, do sorriso meigo, mas que desconhece a própria dor, ignora o poder dos seus espinhos.

A flor das cobras, vive nelas.

Escreveria com prazer algo bom sobre a teimosia, ou um texto terrível lamentando as minhas desistências (foram muitas).

Num repente atrevido, pousaria os olhos sobre a cascata de lágrimas derramadas enquanto ouvia os Beatles na adolescência (tempo ruim) e daquela extinta e profunda tristeza, arrancaria a rima da canção que nunca fiz.

Eu queria escrever algo impactante, o som retumbante da carruagem de fogo ganhando asas, subindo ao céu, envolta no barulho das rodas girando sem apoio, até alcançar as nuvens e nelas formando raios mortais.  Queria escrever sobre a surpresa nos meus olhos cá abaixo imaginando, após a lua, até onde prosseguirá a carruagem? Se perderá na escuridão do universo? No céu só existe escuridão.

A carruagem atiçam os meus dedos no teclado,  me convida a um passeio, e eu respondo: quem sabe num outro momento, agora tenho na mente a frase apanhada na internet – a flor das cobras –  que me despertou, me fez escutar novamente o badalar dos sinos no início da canção do John Lennon. Por quem os sinos dobram? Por mim, Ernest, por mim. Aquela música do Lennon era o abraço do amigo invisível, causava uma instantânea tristeza, mas logo se transformava em euforia, porque Lennon gritava e eu, mesmo quieto, por dentro, gritava também: mama don't go, daddy come home!

A flor das cobras era a única a ouvir o meu lamento. Depois cruzava o quintal em zigue-zague, as pétalas se arrastando, até se perder nos cantos da mata.

A máscara sufoca o meu respirar, embaça os óculos, o pátio do condomínio é um desfile de mascarados. Vistos de longe, são todos crianças. Somos todos crianças: quando finalmente crescemos? Já passei dos cinquenta e não sei ainda, se sei, desconheço as letras e os caminhos. Um balançar de cabeça, a busca da realidade que sempre me escapa. Acontece muitas vezes, me confundo entre o mundo real e o imaginário, consigo correr, os cabelos de antes retornam, desarrumados pelo vento forte, cenas repetidas na retina embaçada, como da vez que subi até o topo de uma árvore, me arrastando entre os troncos, ignorando os perigos do balançar dos galhos, até encontrar um ninho de passarinhos vazio, mas ao descer, o rosto triunfante, disse a todos que os ovos eram azuis.

- Ovos não dão em árvore, você subiu para apanhar uma manga!

A voz do menino mais velho, um infante autoritário do qual eu sentia medo. Como explicar a sujeito tão chulo a beleza da existência dos ninhos dos passarinhos?

- Volte lá e pegue a manga! – Apontou os dedos na minha testa e saí correndo, sem lhe dar chances para me alcançar. Ah, eu corria como um lobo cinzento naqueles tempos, e era amigo das pedras, sabia me esconder entre elas e de lá ficar espreitando tudo em volta. O menino mais velho cuspiu palavrões, ao lado dele os outros meninos o encaravam, surpresos, exigindo atitudes do líder. Então ele mesmo subiu na árvore, apanhou diversas mangas, mas ao descer escorregou em algo e quebrou a perna. Nunca mais o vi, mas ainda escuto o barulho do tombo e o seu grito desesperado.

A flor das cobras reside entre os galhos das árvores.

Eu não queria mais escrever sobre o passado, mas guardo na memória o ladrar dos cachorros, aqueles que comiam junto da gente os restos, as sobras, o miolo do pão molhado no leite, os ossos, a carne envenenada da flor das cobras.

O baile dos mascarados prossegue pelas ruas da cidade. Até quando? O vírus é a flor das cobras e se eu tivesse poder, aqueceria o sol até derreter as rodas da carruagem de fogo, e ela cairia em milhões de pedaços incandescentes, até aniquilar o veneno para sempre.

E se penso, já acontece na minha mente, dentro de mim, vão nascendo imagens concretas, ouço o barulho do fim do tormento se confundindo com as rodas da carruagem de fogo crepitando os vazios do universo, aqui embaixo as máscaras caindo dos rostos, a explosão de gente sorrindo, finalmente sem medo.

E no meio da gritaria, o meu eu no silêncio, morto o menino, nascido o homem maduro, observando pela réstia da porta o que sobrou, envolto pela dúvida soberba de sempre: ficar quando todos se vão, ou ir quando todos ficam.

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