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Beba das Crônicas

A inexatidão de certas coisas exatas

Por André Alvez | 21/06/2022 08:33

Desconheço o nome do poeta que primeiro discorreu sobre a inexatidão das coisas da vida.
Sei, entretanto, ser arte de latino.

Somente um poeta latino é capaz de exaltar a inexatidão de certas coisas exatas.
Mas afinal, por qual motivo estou divagando sobre isso, aqui sentado na mesa de um bar, esperando a espuma do chope baixar?

Meu inexato coração latino pulsa e consigo ouvi-lo. Acontece quando surge o velho costume de falar comigo mesmo, geralmente coisas sem sentido, frases inexatas, sempre na primeira pessoa, algo assim: está vendo só, coisa mais estranha aquela planta tímida que só o vento consegue fecundar...

Um rapaz do braço preto e outro branco passa perto de mim.

Reparo melhor, o braço preto na verdade é tatuagem.

Por longo tempo me questionei: como pode alguém tatuar um braço inteiro?

Morreriam todos os piratas diante daquilo.

Mas aconteceu da minha filha tatuar quase o braço inteiro. E olhando de perto, o resultado é até bonito, calando o meu assombro de antes.

Enfim o chope acaba.

Preciso caminhar, juntar ideias.

Inexato coração, inexatas ideias.

A moça do piercing no nariz, passeando à minha frente, me chama a atenção tanto quanto o manequim em frente da loja, semidesnudo, vestindo bermuda azul, sem camisa e de boné dourado. Ela olha para mim, depois para o manequim.

Inexata comparação.

Não gosto de piercing no nariz, mas aceito, sem muito reclamar, aquele da bolinha brilhosa no canto dos olhos. Devo mesmo estar ficando velho, admirar piercing, definitivamente não é coisa da minha turma dos cinqüenta anos.

O silêncio me abraça novamente e tento esmagá-lo ao caminhar.

Às vezes o silêncio grita: inexato silêncio!

Tento calar os meus passos e fico um bom tempo contemplando as vitrines de uma loja de turismo.

Um quadro exposto na parede ao fundo, é um risco de terra rodeado por um mar profundamente azul, empresta aos meus olhos a luz suficiente para me desarmar de vez.

Contemplo, emudeço, sonho.

A atendente percebe meu deslumbre e sai até a calçada, vem armada de um catálogo nas mãos e trazendo aberto um riso de dentes segurados por arames.

Outra coisa para causar interrogações no pensamento de um homem passado dos cinquenta anos: como o namorado consegue beijá-la? Ou a namorada, enfim...

Ela sorri um riso metálico e puxa conversa; “ilha de Capri” diz, apontando para o quadro e a imagem do mar azul reflete no aparelho em sua boca. Finjo engolir o espanto.

Ela completa: “O pacote está baratinho.”

Devolvo o sorriso, tento explicar que conheço Capri desde muito tempo, o Mar Tirreno e as diversas ilhas ao redor, mas reluto revelar a verdade inexata dos lugares habitando apenas na minha mente, porque diversas vezes transformo a vida real em sonhos (sou quase sonhos por completo), só para poder visitar lugares distantes e inalcançáveis, mantidas as vistas embriagadas pelas belezas do planeta azul, calado, sem revelar o aprendizado nos livros de geografia.

No final da conversa, ela se convence que sou um eterno viajante, sem desconfiar a verdade concreta, tão exata: nunca coloquei meus pés em outro país.

Volto a caminhar, mas o silêncio está disperso, sou golpeado pelo som gostoso dos anos oitenta escapando de uma das lojas, tão doce, me faz revirar a cabeça numa dança de olhos fechados. Um grupo de jovens passa por mim. Deve ser estranho para eles um senhor balançando a cabeça enquanto caminha.

Eu tinha quinze ou dezesseis anos quando essa música foi lançada...

Fico confuso, nunca soube distinguir Kim Carnes de Bonnie Tayler.
Faço confusão também entre Carly Simon e Carole King.

De repente a música some por instantes; do outro lado da calçada, uma moça dos cabelos alourados sorri em minha direção e logo depois faz um aceno de miss.

Fico sem jeito, será para mim tão doce aceno?

Ah, seu eu fosse aquele jovem de quando a música foi lançada...Ou o rapaz cabeludo olhando distraído para o celular vindo na minha direção...Talvez colocaria no canto da boca um piercing, preencheria meu braço de tatuagens e devolveria à moça bonita, sem medo algum, num riso de dentes amarrados por arames, o doce e ligeiro aceno.

Volto a cerrar os olhos e música retorna à minha mente, num estalo descubro o nome da música: Bette Davis Yes! É a voz da Kim Carnes, concluo e armo no rosto um sorriso.

Sinto uma vontade irresistível de tomar outro chope, sentimento tão exato quanto as asas da emoção em desatino, coisa tão inexatamente minha, rimando com coração latino; pulsando no ritmo do vento, uma brisa gostosa, outra caneca de chope e a certeza a escapar da voz conformada, fundida à luz opaca dos meus olhos; o sorriso da bela moça não era para mim: gente jovem quase nunca sorri para os mais velhos...

E vou-me embora para o mundo real lá de fora, a inexatidão fica, murchando pouco a pouco, como a o resto de espuma do chope que deixei na caneca.

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