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Beba das Crônicas

Um pouco de vinho, um pouco de amor

Por Lucilene Machado | 05/12/2020 13:00

Já dizia Epicuro que para se ser feliz bastam amigos, pão e vinho. Eu acrescentaria um amor, desses que borbulham no cérebro. Amor líquido, pode ser. Que Bauman não me detenha antes do tempo com “o amor líquido não pode se solidificar”. É possível que ele tenha razão, deve ter. Mas este texto tem um teor alcoólico, comporta devaneios e fantasias, e pode ser que todos nós ambicionemos essa ilusão dionísica chovendo por dentro; que almejemos todos deleitar na umidade que faz brotar algas e sargaços para jogarmos com essa coisa perigosa germinando em qualquer tempo, crescendo em qualquer estação e a qualquer momento  rebentar como uvas maduras na boca.

O amor é denso como o vinho. Mas sempre falta. Falta mais do que sobra. Deixa uma mescla de sabores nos lábios e sempre uma sede insaciada. Duas palavras pousadas no contorno da taça bastam para se edificar um poema. Poema lírico. Construímos sem cuidados a nossa ebriedade, da mesma forma que delineamos os nossos sonhos amorosos. Metáforas, metonímias, improvisações e logo estamos escandalosamente desprotegidos. Epicuro não mencionou o amor como referência de felicidade, de certo sabia que o amor se dá na linguagem, envolve palavras, e palavras cortam como lâminas. Sabia que elas compõem um jogo de decifração e segredos que nos expõem à mais crua realidade. Nem conhecendo os dez mandamentos da linguagem se pode escapar desse imbróglio. A palavra amor guarda uma perversidade nos interstícios que penetra nossa mais sólida defesa. Quem nunca foi atingido?

Eu, sucessivamente. Meu corpo é uma nação em guerra. Um campo de batalha entre a república de sentimentos e a democracia de prazeres. Difícil aparelhar as duas vertentes. Poucos conseguem. A maioria satura a vida com combates inúteis para atingir essa perfeição de amor e sexo. É complexo atingir esse orgasmo na vida.  O mundo está cheio de falsos paraísos onde a beleza é oca e vazia. E o amor exige a consistência do belo. A beleza é a representação humana do amor, e as duas palavras juntas talvez sejam a representação de Deus. É possível que esteja aí o entendimento de Epicuro. Os amigos e o vinho nos enchem a alma de beleza e a beleza é o principal produto do amor.  O amor dos amigos, envolto numa atmosfera de serenidade, produz uma beleza além dos estereótipos, é um ato nobre que não se parametriza pelos padrões midiáticos. Ou seja, o corpo participa em maior ou menor medida dessa beleza, porém o belo não está na matéria, está além dela.

O Renascimento defende a ideia de que a beleza não está nos corpos, mas sim em algo que se pousa sobre eles, sendo objetos belos aqueles que de alguma forma conseguirem agarrar a beleza. É o mesmo que dizer que a beleza é possível para todos, tanto quanto o amor. No entanto, senhores, o Renascimento está morrendo. Já não se ouve canto gregoriano. O mundo está morrendo. Já não há com quem dançar um último tango. Tomemos um vinho para salvar nossos sonhos famintos de chuva. Brindemos a um deus dionísico que é capaz de entender nossa esperança utópica de fazer chover do lado de dentro, mesmo sem o amor borbulhante.

A humanidade não sabe o que fazer com olhares perdidos e sonhos vazios. Eu também não. A velocidade do mundo alcança minhas pernas enquanto seguro a taça de vinho com as pontas dos dedos. Uma velocidade que me arrasta entre as pedras de um rio e me lava as ilusões. Já não recordo onde deixei minhas fantasias. Mas estou segura de que o amor, nas atuais circunstâncias, é líquido, como o vinho.


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