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Cidades

Vítima de ataque virtual, adolescente muda de escola e não passeia mais sozinha

Família foi à Justiça para identificar os autores do crime e tirar a conta do ar, o que ocorreu em março

Por Lucia Morel | 09/05/2026 09:37
Vítima de ataque virtual, adolescente muda de escola e não passeia mais sozinha
Página original que "começou 2026" difamando e xingando adolescentes. (Foto: Reprodução)

O choque de ver a filha adolescente ser difamada, xingada e ameaçada em redes sociais fez Ana* entender a gravidade do cyberbullying. “Passei a ter medo dela andar sozinha na cidade ou ir para a escola”, contou a mãe cerca de um mês após levar o caso à Justiça para identificar o autor do crime. A menina, de 13 anos, precisou mudar de escola em razão dos ataques virtuais.

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Uma adolescente de 13 anos de Nova Andradina (MS) precisou mudar de escola e parou de sair sozinha após sofrer cyberbullying em uma página do TikTok com 2.148 seguidores. A família recorreu à Justiça, que determinou a remoção da conta em março. Duas novas páginas anônimas seguem atacando jovens da cidade. No Brasil, o crime é punível com reclusão de 2 a 4 anos e multa.

“Mudou muita coisa na nossa vida. Ela teve que trocar de escola, não sai mais sozinha de casa, não vai mais nem na casa da avó e tem dias que eu a pego chorando, lembrando das coisas que falaram dela”, relata. Nas postagens anônimas, a adolescente foi difamada por meio de comparações de características físicas e do uso de fotos retiradas de suas redes sociais com legendas contendo insultos.

Ela e uma amiga foram alvos de intimidação sistemática, o bullying, praticada de forma virtual por meio do TikTok. Os autores desse tipo de conduta podem responder judicialmente e estão sujeitos a prisão. Além delas, outros moradores da cidade, em sua maioria adolescentes, também foram alvos dos ataques.

O advogado da família, Alexandre Ferreira dos Santos, explica que o objetivo inicial é identificar os autores da página de fofocas que disseminava a perseguição virtual em Nova Andradina e retirar a conta do ar, o que ocorreu em março após decisão judicial.

Vítima de ataque virtual, adolescente muda de escola e não passeia mais sozinha
Primeira conta criada para difamações foi retirada do ar pelo TikTok. (Foto: Reprodução)

“Há uma dificuldade porque a empresa não quer mostrar os dados. Até enviou alguns, mas são insuficientes. Posteriormente, encerrando essa parte, pretendemos então entrar com uma ação de reparação de danos, em que será pedida indenização”, analisa.

Por telefone, a mãe, a filha e o defensor conversaram com o Campo Grande News na esperança de que o caso sirva de alerta. “Os ataques duraram mais de dois meses e só depois do processo que o TikTok tirou a página do ar”, disse Ana*. Ela lembra que, além das postagens, os comentários dos seguidores eram ameaçadores e indicavam que as agressões virtuais seriam levadas para as ruas.

Ao tomar conhecimento da situação e ver as fotos e ofensas publicadas contra a filha, a mãe entrou em choque por não imaginar que tal situação pudesse ocorrer. A página iniciou as ridicularizações no final de dezembro do ano passado e tinha “repercussão local e potencial de dano ampliado pela natureza viral da plataforma”, afirmou a defesa.

O perfil contava com 2.148 seguidores e 15,5 mil curtidas “com grande potencial ofensivo”. Conforme destacou o advogado na petição, diversos usuários comentavam ratificando o conteúdo, o que acabava “reforçando a humilhação pública e aumentando a propagação do ataque (efeito “multidão”)”.

Vítima de ataque virtual, adolescente muda de escola e não passeia mais sozinha
Em nova conta, uma das pessoas ofendidas pede para sua imagem ser retirada da página e responsáveis nem temem denúncia. (Foto: Reprodução)

Para a mãe, um dos receios era de que a menina tomasse atitudes graves, como atentar contra a própria vida ou “fazer alguma outra bobagem”, relatou. Para a adolescente, que teve a rotina alterada e perdeu amizades da antiga escola onde estudou por quatro anos, a situação é de tristeza. “Eu saí da outra escola mais por vergonha do que falavam mesmo”, lamentou.

Além da mudança de escola e de vínculos sociais, a adolescente passou a circular apenas acompanhada por familiares na cidade de 48,5 mil habitantes. Ela também procurou acompanhamento psicológico pelo SUS (Sistema Único de Saúde), mas ainda não foi atendida e evita sair de casa. Ela mantém contato com colegas da nova escola apenas para trabalhos escolares. “Buscar a justiça foi sim o melhor caminho, porque não tem outro jeito de fazer eles pararem”, afirmou a mãe.

Novas páginas - Duas novas contas foram criadas de forma anônima e continuam com ofensas contra moradores da cidade, novamente tendo adolescentes como alvos. Em uma delas, a foto de uma jovem é acompanhada pela frase “muito ego para pouca beleza”. Há também publicações sobre comportamentos escolares e questionamentos sobre a sexualidade das vítimas.

Vítima de ataque virtual, adolescente muda de escola e não passeia mais sozinha
Uma das páginas novas criadas para cyberbullying. (Foto: Reprodução)

Em outro perfil, com a imagem de capa escrita “anonymous”, as publicações também contêm ofensas. Em uma postagem, os proprietários da conta ironizam uma vítima que afirmou conhecer os responsáveis. Em outra publicação, os autores desafiam as vítimas a denunciar a página, demonstrando convicção de que não sofrerão sanções pelas agressões virtuais.

A reportagem entrou em contato com o TikTok, administrado pela Bytedance Brasil Tecnologia Ltda., e aguarda o posicionamento da empresa.

Cyberbullying - O cyberbullying é a prática de assédio, intimidação, difamação ou humilhação através de meios digitais, como redes sociais, jogos online e aplicativos de mensagens. É uma forma de violência repetida, que visa ferir psicologicamente a vítima e os casos são crescentes no Brasil.

O bullying virtual é feito com compartilhamento de fotos ou vídeos íntimos ou constrangedores, criação de perfis falsos, envio de ameaças, difamação e exclusão deliberada e pode causar danos psicológicos graves, como ansiedade, depressão, estresse pós-traumático, isolamento social e, em casos extremos, suicídio.

As vítimas frequentes são adolescentes e jovens adultos, frequentemente atacados por motivos de racismo, misoginia ou homofobia. No Brasil, o código penal passou a tipificar o cyberbullying como delito, permitindo punições mais rigorosas, inclusive reclusão, com pena de 2 a 4 anos e multa.

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