Alçapão, tortura e execução: os segredos da milícia do Clã Haidar
Investigação da PF revela sequestros, ataques a devedores e possível ligação com assassinato de chefe do PCC
Três paraguaios sequestrados e mantidos no alçapão da cozinha de uma casa sob tortura, veículos incendiados para cobrar dívidas de drogas, saraivada de tiros contra a residência de um devedor e possível ligação com a execução cinematográfica de chefe do PCC (Primeiro Comando da Capital) na fronteira estão entre os episódios atribuídos à milícia mantida pelo "Clã Haidar", alvo da Operação Ifrit, realizada esta semana pela Polícia Federal.
RESUMO
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A Polícia Federal atribui ao Clã Haidar, alvo da Operação Ifrit, uma milícia ultraviolenta ligada ao narcotráfico na fronteira de Ponta Porã. Segundo decisão da Justiça Federal, o grupo teria sequestrado e torturado três paraguaios, incendiado veículos de devedores e baleado uma casa. Conversas de Maroan Haidar o relacionam à execução de "Dogão", apontado como chefe do PCC, morto em 2022 no Paraná. A operação mobilizou 500 policiais e bloqueios de até R$ 300 milhões.
Desenvolvido ao longo de quatro anos, o trabalho para criar o mosaico de provas do envolvimento da organização familiar com o narcotráfico encontrou indícios capazes de explicar por que a PF definiu o grupo como “ultraviolento”.
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Os casos são descritos na decisão da 3ª Vara Federal de Campo Grande autorizando o sequestro de bens dos investigados. O documento tem informações das interceptações telemáticas, de conversas e vídeos trocados por aplicativos de mensagens, monitoramento tático e dados de movimentações financeiras.
Segundo a PF, a organização era comandada por integrantes da família Haidar, estabelecida em Ponta Porã, cidade vizinha a Pedro Juan Caballero, na fronteira com o Paraguai, região utilizada há décadas como rota do tráfico de drogas, armas e contrabando.
“Dogão” - Entre as descobertas está uma conversa recuperada do celular de Maroan Fernandes Haidar Ahmed, de 26 anos, filho de Bassam Hassan Haidar Ahmed, apontado como um dos chefes da organização. No diálogo citado, Maroan afirma ter matado uma pessoa. Consta do documento que, num relatório, chamado oficialmente de IPJ (Informação de Polícia Judiciária), a equipe policial liga a declaração à execução de “Dogão”, alcunha de Cleber Ribeiro Segóvia, fuzilado aos 31 anos, em 28 de outubro de 2022, durante a invasão de mansão em Sertaneja (PR).
"A IPJ também registra conversa em que MAROAN afirma ter matado determinado indivíduo, passagem que os analistas relacionam ao contexto do homicídio de “DOGÃO”, além de outros diálogos que demonstrariam disponibilidade de uma equipe de “soldados” para ações violentas", diz o texto.
Perpetrada por um grupo paramilitar, claramente treinado e fortemente armado, a morte teve grande repercussão na fronteira. Dogão, tido como integrante de alto escalão no PCC (Primeiro Comando da Capital), disputava espaço no comando do tráfico de drogas e armas na região de Ponta Porã e Pedro Juan Caballero. Até então praticamente desconhecido, ele havia passado a chamar a atenção por sua tentativa de ampliar o controle sobre atividades ilegais. Ele também usava documentos paraguaios com o nome de Cléber Segovia Pavón.
Em julho daquele ano, três meses antes da execução, o Campo Grande News revelou um dossiê policial sobre a tentativa de Cleber de assumir o controle de atividades criminosas na fronteira, com uso de violência. Uma força-tarefa chegou a ser montada na região para evitar a guerra entre grupos rivais.
Na época, informações da inteligência policial indicavam que “Dogão” teria reunido cerca de 40 homens armados para atacar um rival, mas a ação não chegou a ocorrer.
A disputa envolvia grupos como o comandado por Márcio Sánchez, conhecido como “Aguacate”. Ele era ex-segurança do narcotraficante Jorge Rafaat Toumani, o "Rei da Fronteira", que foi executado em 2016, num crime cinematográfico tratado como ponto de virada na arquitetura da criminalidade não apenas na região, mas também no País.
Ataque de barco - A execução ocorreu quando Dogão já havia deixado Ponta Porã e se mudado com a família para um condomínio fechado às margens da Represa Capivara, em Sertaneja, na região de Londrina (PR). Ele estava no endereço havia cerca de 15 dias quando o imóvel foi invadido na madrugada de 28 de outubro de 2022.
Segundo a polícia paranaense divulgou à época, pelo menos 15 homens participaram do ataque. Os pistoleiros chegaram ao condomínio de barco, entraram na residência enquanto Dogão, a mulher e os filhos dormiam e levaram os familiares para outro cômodo. O traficante foi morto no corredor da casa.
A perícia recolheu em torno de 150 cartuchos de armas de diferentes calibres, incluindo fuzil 5,56, além de munições de calibres .40 e 9 milímetros. A quantidade de disparos dificultou inicialmente a identificação do corpo, e foi preciso um exame de DNA para confirmar a identidade.
Quatro anos depois, a análise do celular de Maroan, citada na decisão judicial da Operação Ifrit, trouxe o possível elo entre o integrante do Clã Haidar e o episódio. O relatório com o detalhamento dessa informação é sigiloso. O inquérito sobre a morte de Dogão também corre em sigilo e estava sendo tocado pela Polícia Civil do Paraná, com a colaboração das autoridades de Mato Grosso do Sul e do Paraguai.
Sequestro e tortura - Outro episódio violento ordenado pelo Clã Haidar, conforme as informações da PF ao Judiciário, ocorreu entre os dias 18 e 19 de julho de 2025. Três cidadãos paraguaios foram sequestrados do outro lado da fronteira e levados para um imóvel em Ponta Porã, possivelmente ligado a Bassam Hassan Haidar Ahmed, um dos alvos da operação desta semana. Na residência, teriam sido mantidos no alçapão da cozinha e submetidos a agressões.
Foi a análise de arquivos armazenados na nuvem de Ramão Acosta Gaona, integrante da organização já falecido, que revelou os fatos. São citadas gravações das agressões ocorridas em 18 de julho de 2025.
A avaliação do material permitiu identificar João Fernando Andrade de Carvalho e Nelson Eduardo Carballo Olmedo como suspeitos de participar e comandar a sessão de tortura.
Irmãos - A PF também relaciona Bassam, os irmãos Adel Hassan Haidar e Nasser Haidar, além de Adule Vasques Haidar, filho de Adel, ao caso. Os 4 constam como possíveis mandantes da tortura.
O documento não esclarece o motivo do sequestro nem informa o que aconteceu com as três vítimas depois das agressões. Os paraguaios não são identificados na decisão.
A cobrança de valores relacionados ao tráfico aparece em conversas recuperadas do iPhone 13 de Maroan, que cumpre pena por um homicídio em Mato Grosso, durante uma discussão banal de trânsito. Ele cumpre pena no presídio federal de Porto Velho (RO).
O aparelho foi apreendido em 9 de janeiro de 2023, quando ele foi preso em flagrante em São José (SC), em outra ofensiva sobre o crime organizado. A análise do conteúdo, segundo a PF, permitiu identificar atividades do grupo.
Entre os registros estão conversas sobre três devedores identificados pelos apelidos de “Xuxu”, “Cachorrão” e “Pollo”. Segundo a PF, Maroan manifestou a intenção de sequestrar Xuxu e Pollo por causa de dívidas relacionadas a drogas.
Mais uma linha de atuação revelada foi a investida contra o patrimônio dos devedores. Em conversa citada no despacho judicial, um interlocutor chamado “Bunda Novo” relata a Maroan a vigilância de alvos e a execução de incêndios em veículos. A PF encontrou vídeos dos automóveis incendiados e mensagens sobre o andamento dos ataques.
Em uma das vezes, Maroan demonstra insatisfação porque o primeiro ataque contra os veículos não havia produzido o resultado esperado. Posteriormente, recebeu novos vídeos e imagens de um incêndio em outro imóvel utilizado pelos devedores.
Ataque armado - Outra cobrança envolveu uma pessoa de apelido Xuxão. Nesse caso, Maroan conversava com alguém identificado pelo apelido de “Mi”. Segundo os investigadores, os diálogos tratavam de dívidas de drogas, compra de armas e documentos falsos.
Em determinado momento, descreve a decisão, Mi preparou um vídeo de ameaça no qual aparecia exibindo diversas armas. Posteriormente, relatou a Maroan que havia efetuado disparos contra a residência do devedor. Para a PF, as conversas relacionam o ataque à cobrança de valores do tráfico. O documento não apresenta as datas exatas dos incêndios e dos disparos contra a residência.
A equipe do Gise (Grupo de Investigações Sensíveis), unidade da PF responsável pelo trabalho, encontrou ainda mensagens sobre a existência de uma equipe de “soldados” para executar ações violentas, ou seja, uma milícia privada.
Caça virtual – Descoberta feita a partir do celular apreendido em janeiro de 2023 foi uma negociação de Maroan com um contato salvo como “Ales Bit C”, para a polícia um provável hacker. O assunto era a contratação de serviços para localizar pessoas e impedir que integrantes da organização fossem rastreados.
O serviço discutido permitiria descobrir a localização de uma pessoa por meio de um link enviado ao celular. Quando o destinatário acessasse o endereço eletrônico, sua localização poderia ser identificada.
Conforme consta no documento, Maroan explicou ao interlocutor que os links deveriam ser enviados em horários nos quais os alvos provavelmente estivessem em suas residências. A intenção era descobrir onde moravam.
Ao mesmo tempo, o integrante do Clã Haidar buscava formas de proteger a própria localização e a de seus homens. Segundo a decisão, queria estar “blindado” contra rastreamento.
A negociação também envolvia o uso de VPN, ferramenta com a qual se pode mascarar a localização de quem acessa a internet. No pacote, deveria estar incluída a retirada de conteúdos publicados em sites de notícias.
O possível hacker pediu inicialmente R$ 100 mil pela empreitada. Depois de discutir os valores, Maroan manifestou a intenção de contratar o trabalho e providenciar o dinheiro. Não há indicação se o acordo foi concluído.
Bunkers - Imóveis eram utilizados para abrigar integrantes da organização. Em conversas encontradas no celular apreendido em janeiro de 2023, Maroan aparece como responsável por acompanhar os ocupantes dessas casas por câmeras, determinar punições com a suspensão de pagamentos e ordenar a distribuição de dinheiro.
Segundo a investigação, os endereços funcionavam como pontos de apoio para pessoas que ficavam à disposição do grupo. O acompanhamento por câmeras e o controle sobre pagamentos são citados pela PF como indícios da autoridade exercida por Maroan.
Para os investigadores, os episódios mostram que o grupo mantinha estrutura voltada não apenas ao transporte e à comercialização de drogas, mas também à cobrança de dívidas e à execução de ataques contra pessoas consideradas adversárias.
Operação Ifrit – Deflagrada na quarta-feira (4), a ofensiva mobilizou cerca de 500 policiais federais e 44 servidores da Receita Federal em Mato Grosso do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Mato Grosso, Goiás e Rondônia.
Justiça Federal expediu 76 mandados de busca e apreensão, 25 de prisão preventiva e um de prisão temporária, além de três medidas de monitoramento eletrônico e ordens de afastamento de três policiais civis. Também foram autorizados bloqueios bancários de até R$ 300 milhões e o sequestro de imóveis, fazendas, veículos e outros bens.
Nas ações de campo, os policiais apreenderam um arsenal, dinheiro, joias e veículos. Em Campo Grande, por exemplo, foi encontrado veículo de colecionador, de 1920.
Meio bilhão - As investigações apontam que o Clã Haidar movimentou mais de R$ 500 milhões em aproximadamente dois anos com o tráfico internacional de drogas e armas, utilizando empresas e negócios simulados para ocultar a origem do dinheiro. A organização teria ligações com o PCC e o PGC (Primeiro Grupo Catarinense), além de contar com a colaboração de agentes de segurança pública.
Entre os investigados, está o delegado Hoffman D'Ávila Cândido e Sousa, ex-chefe da Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico), suspeito de fornecer informações sigilosas e proteção à organização. As apurações também investigam o possível desvio de aproximadamente 2 toneladas de cocaína apreendidas pela unidade policial.
Hoffman está preso desde setembro pelos mesmos crimes, na Operação Infiltrados, do Gaeco (Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado), do MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul). Em entrevista coletiva nesta manhã, a defesa do delegado afastado contestou as acusações.






