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Cidades

Cobertura vacinal melhora, porém ainda está longe da meta ideal

Especialistas alertam que desinformação e baixa adesão ainda ameaçam conquistas históricas da saúde pública.

Por José Cândido | 09/06/2026 06:03
Cobertura vacinal melhora, porém ainda está longe da meta ideal
Vacinação infantil voltou a crescer no Brasil, mas especialistas alertam que a maioria dos imunizantes ainda não atingiu a cobertura necessária para garantir proteção coletiva. (Foto José Felipe Batista)

Depois de anos de queda nas coberturas vacinais e do avanço da desinformação sobre imunizantes, o Brasil chega ao Dia Nacional da Imunização, celebrado em 9 de junho, com sinais de recuperação. Os números mais recentes do Ministério da Saúde mostram que a vacinação voltou a crescer em diversas faixas etárias e contra diferentes doenças. A melhora, porém, ainda está longe de garantir a proteção coletiva necessária para impedir o retorno de enfermidades que já estavam controladas ou eliminadas do país.

RESUMO

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No Dia Nacional da Imunização, celebrado em 9 de junho, o Brasil apresenta sinais de recuperação vacinal, mas ainda enfrenta desafios. Em 2024, apenas três das 16 vacinas do primeiro ano de vida atingiram a meta do PNI. Poliomielite, sarampo, HPV e gripe seguem abaixo do índice ideal de 95%. Especialistas alertam que a desinformação e o acesso limitado dificultam o avanço das coberturas e colocam em risco a proteção coletiva.

Os dados revelam um cenário de reconstrução. Em 2024, apenas três das 16 vacinas previstas para o primeiro ano de vida atingiram a meta recomendada pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI): BCG, que protege contra formas graves da tuberculose; hepatite B; e a primeira dose da tríplice viral, responsável pela proteção contra sarampo, caxumba e rubéola.

No ano seguinte, BCG e hepatite B mantiveram índices superiores a 99%, enquanto a vacina contra o rotavírus ultrapassou a marca considerada ideal para esse imunizante. Apesar dos avanços, a maior parte das vacinas continua abaixo da cobertura mínima de 95%, percentual considerado fundamental para interromper a circulação de vírus e bactérias.

Até abril de 2026, nenhuma vacina do calendário infantil havia alcançado a chamada cobertura ótima. Algumas apresentaram índices considerados preocupantes, como a segunda dose da tríplice viral (72,5%), a vacina contra varicela (73,9%) e o primeiro reforço da DTP, que protege contra difteria, tétano e coqueluche (74,7%).

Para a gerente de farmacovigilância do Instituto Butantan e diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Mayra Moura, a recuperação dos índices representa uma conquista importante, mas ainda insuficiente.

"Temos muito a comemorar, porque cada conquista é importante. Mas precisamos entender que mesmo quando atingirmos essas metas não podemos baixar a guarda. Sempre seguiremos vacinando, trata-se de uma ação contínua", afirma.

A preocupação dos especialistas não é exagerada. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as vacinas foram responsáveis por cerca de 40% da redução da mortalidade infantil global nos últimos 50 anos. Desde 1974, estima-se que a imunização tenha evitado mais de 154 milhões de mortes em todo o mundo, sendo a maioria entre crianças menores de cinco anos.

Poliomielite continua no radar

Entre os principais alertas está a poliomielite. O Brasil não alcança a meta de cobertura vacinal contra a doença desde 2016. Embora o poliovírus selvagem esteja erradicado no país há décadas, a redução da vacinação aumenta o risco de reintrodução da doença por meio de casos importados.

A situação ganhou atenção especial após a mudança no esquema vacinal, que substituiu as tradicionais gotinhas pela vacina injetável contra a poliomielite (VIP). Em 2025, nenhum estado brasileiro atingiu a meta de 95% de cobertura. Até abril deste ano, a vacinação alcançava pouco mais de 85% das crianças menores de um ano.

Segundo Mayra Moura, a baixa cobertura cria bolsões de vulnerabilidade capazes de favorecer a disseminação rápida de doenças altamente contagiosas.

"As metas de cobertura são estipuladas para reduzir consideravelmente a incidência de uma doença ou até mesmo eliminá-la. Quando não conseguimos atingir esse índice, uma parte da população ainda fica bastante suscetível", explica.

Caso de sarampo reforça alerta

O risco não é apenas teórico. Em março deste ano, um bebê de seis meses contraiu sarampo após viajar com a família para a Bolívia, país que enfrenta surtos da doença. A criança ainda não tinha idade para receber a vacina prevista pelo calendário nacional.

O episódio serviu como exemplo da importância da chamada imunidade coletiva. Quando a maioria da população está vacinada, o vírus encontra mais dificuldade para circular, protegendo pessoas que ainda não podem ser imunizadas, como bebês e indivíduos com restrições médicas.

Embora o Brasil tenha recuperado em 2024 o certificado de país livre da circulação endêmica do sarampo, especialistas alertam que a manutenção desse status depende diretamente de altas coberturas vacinais.

HPV e gripe seguem como desafios

Outro desafio está na vacinação contra o HPV, principal ferramenta de prevenção contra diversos tipos de câncer, incluindo o câncer do colo do útero.

Os índices permanecem abaixo da meta de 90% estabelecida pelo Ministério da Saúde. Em 2026, a cobertura entre meninas de 9 a 14 anos alcança 74,1%, enquanto entre os meninos está em 66,1%.

O cenário é ainda mais preocupante entre crianças de nove anos, idade recomendada para iniciar a imunização. Nessa faixa, apenas 19,8% das meninas e 16,2% dos meninos receberam a vacina.

A imunização contra a gripe também continua abaixo do esperado. Em 2025, pouco mais da metade do público prioritário foi vacinado nas regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste. Menos de 2% dos municípios conseguiram alcançar cobertura superior a 80%.

Fake news ainda desafiam campanhas

Além das dificuldades de acesso em algumas regiões, especialistas apontam a desinformação como um dos principais obstáculos para ampliar a vacinação.

A disseminação de conteúdos falsos sobre efeitos adversos e segurança dos imunizantes ganhou força durante a pandemia de Covid-19 e continua impactando a confiança de parte da população.

Mayra Moura reforça que as vacinas estão entre os produtos mais monitorados e seguros disponíveis na área da saúde.

"As vacinas passam por avaliações rigorosas da Anvisa antes de serem liberadas para uso e continuam sendo monitoradas permanentemente após chegarem à população. Na maioria das vezes, as reações são leves e temporárias", destaca.

No Dia Nacional da Imunização, a mensagem dos especialistas é clara: os avanços recentes mostram que o país está no caminho certo, mas a proteção coletiva ainda depende da adesão de milhões de brasileiros às campanhas de vacinação. Em um cenário de circulação global de vírus e de aumento das viagens internacionais, manter a caderneta em dia continua sendo uma das medidas mais eficazes para proteger vidas.