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Cidades

“Como perdoar?”, disse menino de 9 anos que viu a mãe ser morta pelo padrasto

Garotinho e o irmão, bebê de 2 anos, foram acolhidos por vizinha, na manhã seguinte à tragédia

Por Anahi Zurutuza e Mirian Machado | 23/05/2022 19:52
Erica sorri para foto com um dos filhos. (Foto: Arquivo pessoal)
Erica sorri para foto com um dos filhos. (Foto: Arquivo pessoal)

Erica Miranda de Souza se foi aos 27 anos e deixou para o mundo dois meninos, de 2 e 9 anos. Um deles, "nem é anjo, é herói", definiu a vizinha da família em Terenos, Marciene Lima, de 44 anos.

Ela se refere ao mais velho, que assistiu a partida trágica da mãe, tendo a vida arrancada por tiros disparados pelo companheiro Diogo Cardoso de Souza, 28 – “tio”, como o garotinho chamava o padrasto com quem convivia há cerca de 3 anos.

O pequeno fez o que o assassino mandou. Sabia que nunca mais teria o abraço da mãe. Por isso, permitiu que o irmãozinho dormisse no aconchego do colo dela e esperou o raiar desta segunda-feira (23) para pedir ajuda aos vizinhos. Mas nos braços de Marciene, ele desabou. “Tremia e chorava demais”, conta a vizinha.

Fim de tarde na chácara onde Erica morava com o assassino e os dois filhos, de 2 e 9 anos. (Foto: Kísie Ainoã)
Fim de tarde na chácara onde Erica morava com o assassino e os dois filhos, de 2 e 9 anos. (Foto: Kísie Ainoã)

Até agora sem acreditar nas horas de terror que o menino passou, entre a noite de ontem e madrugada de hoje, depois da mãe ser executada a sangue frio, Marciene não deixa de registrar o quanto ficou impressionada com a força do pequeno. Ela, com suas três décadas de vida a mais que o menino, teve de engolir seco e “desviar” da resposta para uma das perguntas que ele fazia. “O padrasto pediu perdão e ele me dizia: ‘Como eu vou perdoar, tia?’ Eu só sabia responder que a mãe estava em um lugar melhor.”

Marciene Lima acolheu irmãos após o assasinato da mãe. (Foto: Kísie Ainoã)
Marciene Lima acolheu irmãos após o assasinato da mãe. (Foto: Kísie Ainoã)

Marciene narra ainda que o garotinho, talvez pela inocência, suportou ver cena que nem policiais que estiveram no local conseguiram encarar. O irmão de 2 anos, que dormia nos braços da mãe morta quando a PM (Polícia Militar) entrou na casa da chácara na região da Colônia Jamic, foi tirado dali com a ajuda de outro vizinho, porque nem quem está “acostumado” a lidar com a morte foi capaz de desfazer aquele laço.

A vizinha relata que enquanto cuidava dos irmãos, o mais velho revelou que a mãe já havia dito, certa vez, que se ela morresse, não queria choro. Segundo a criança, Erica dizia que se os filhos ouvissem uma música – o pequeno não memorizou qual –, ela estaria com eles.

O pai do mais velho foi acionado para buscar o garoto e acabou levando o bebê, que é filho de Erica com Diogo. Os irmãos são inseparáveis, "ainda mais agora", descreve Marciene. Eles devem ficar com o homem até que a avó das crianças consiga chegar até elas.

Na entrega, Marciene não pode deixar de dizer ao pai: “Seu filho nem é anjo, seu filho é um herói”.

Para a polícia, Erica foi assassinada enquanto estava sentada com o marido para o lado de fora da casa. (Foto: Kísie Ainoã)
Para a polícia, Erica foi assassinada enquanto estava sentada com o marido para o lado de fora da casa. (Foto: Kísie Ainoã)

O crime – Erica foi morta por volta das 23h30 deste domingo (22), na chácara onde o casal vivia há cerca de 3 meses, em Terenos – a 34 km de Campo Grande. Após atirar contra a esposa, o homem entrou na casa do patrão, bebeu cerca de 40 latas de cerveja e fugiu. Ele pediu ajuda em outra chácara vizinha, que não a de Marciene, para chegar a Campo Grande. Dizia que o pai havia sido morto e precisava chegar a Belo Horizonte (MG).

Ele então foi deixar no Aeroporto Internacional e já na Capital, se propôs a pagar R$ 3 mil motorista de aplicativo para leva-lo até a capital mineira. Policiais militares rodoviários e do GOI (Grupo de Operações e Investigações) conseguiram prendê-lo, contudo, na tarde desta segunda-feira (23), na MS-240, entre as cidades de Água Clara e Paranaíba.

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