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Cidades

"Cowboy" nem sabe como recomeçar após perder 2 pernas e o braço durante trabalho

Em acidente de trabalho em uma colheitadeira, Adryano, aos 23 anos, levou choque que queimou 50% de seu corpo

Por Lucia Morel | 08/06/2020 15:06
Amante de cavalgadas, Adryano parou com a atividade por um tempo e está há 84 dias internado, após choque elétrico. (Foto: Arquivo Pessoal)
Amante de cavalgadas, Adryano parou com a atividade por um tempo e está há 84 dias internado, após choque elétrico. (Foto: Arquivo Pessoal)

Aos 23 anos, Adryano Gabriel Quintana Medina gostava de cavalgar e mostrar essa paixão nas redes sociais. Mas há exatos 84 dias ele não levanta de uma cama de hospital. Vítima de um choque elétrico que queimou 50% de seu corpo, ele teve que amputar as duas pernas, um dos braços e corre o risco de perder o outro.

Adryano é mais um na estatística de acidentes no campo. Foram 428 no cultivo de soja e mais 231 em atividades de apoio à agricultura em 2018, ano de dados mais atualizados no Ministério do Trabalho. Naquele ano,  32 trabalhadores morreram decorrente de acidentes de trabalho no Estado.

No total, em Mato Grosso do Sul, 11,2 mil pessoas sofreram algum tipo de dano enquanto trabalhavam em 2018.

Empregado em fazenda de Porto Murtinho, Adryano estava lá há apenas dois meses no emprego, quando sofreu o acidente que mudou sua vida. Pouco antes de ligar uma colheitadeira para sair, ele foi arrumar um ferro no graneleiro da máquina, quando ao puxá-lo, tocou no fio elétrico e levou, de imediato, o choque.

Adryano caiu sobre a colheitadeira, “graças a Deus”, como ele mesmo diz, já que se tivesse tombado no chão, poderia ter batido a cabeça. “Eu não vi o fio elétrico em cima, eu estava no pátio ainda, ajeitando para ir pra colheita”, conta.

Com bastante lucidez, o Cowboy, como se denomina nas redes sociais, diz se lembrar de tudo do dia do acidente: desde a queda e as dores nas pernas e braços com o choque, até ser resgatado por colegas de trabalho até o Hospital de Bonito, onde foi sedado e acordou somente 23 dias depois, já na Santa Casa de Campo Grande.

Ele lembra inclusive de ter pedido a um amigo que presenciou o acidente para pressionar seu peito para que ele pudesse voltar a respirar.

“Ele deu duas bombadas e respirei normal de novo”, revela.

Tudo isso aconteceu por volta das 8 horas da manhã do dia 13 e ainda à tarde, ele já estava na Capital no setor de queimados da Santa Casa, que é referência nesse tipo de atendimento. “Eu fico tranquilo e aliviado porque não morri”, enfatiza sem titubear, quando questionado como se sente.

“Graças a Deus”, segundo cowboy, também porque o patrão, apesar do pouco tempo de trabalho, está dando assistência e pagando o salário dele normalmente. “O patrão conversa comigo pelo telefone e manda salário todo mês. Com esse dinheiro, minha mãe alugou uma casa aqui pra cuidar de mim, pra poder acompanhar”, conta.

O patrão, segundo ele, também está com sua carteira de trabalho, que Adryano não sabe se já foi ou não assinada.

Sonhos – Cowboy afirma que ainda não quer fazer muitos planos e que pretende sair do hospital primeiro, para então saber como vai retomar a vida. Mas uma coisa já é certa: vai querer usar prótese, “pra voltar a andar, porque eu não consigo ficar parado”.

Apesar da situação, Adryano diz pensar pouco em sua atual condição, mas que pretende fazer tratamento para usar próteses ao sair do hospital. (Foto: Arquivo Pessoal)
Apesar da situação, Adryano diz pensar pouco em sua atual condição, mas que pretende fazer tratamento para usar próteses ao sair do hospital. (Foto: Arquivo Pessoal)

Ele diz que não fica pensando muito no fato de ter amputado pernas e braço esquerdo.

“Eu agradeço muito a Deus mesmo por estar vivo e Ele me fortalece muito”, sustenta, dizendo que sua família ficou muito triste com tudo que aconteceu, “mas eles viram que quando acordei do coma eu fiquei feliz e eles então ficam também”.

Adryano deve passar por mais uma cirurgia, no braço direito, para poder voltar os movimentos dos dedos. Ele acredita que deve ficar até mês que vem internado, mas já faz alerta a quem, como ele, trabalha em fazendas.

“Aconselho verificar bem o local onde a máquina está e as oficinas das fazendas, porque sempre tem algum fio desencapado”, destaca, mesmo afirmando que não lembra qual era a situação dos fios elétricos de onde a colheitadeira estava.

Acidentes - Em nota, a Santa Casa informou que Adryano teve lesões de 2º e 3º graus devido “choque elétrico com entrada nas mãos e saída nos pés, com queimadura de 2º grau no abdômen”.

Entre 13 de março e 21 de abril, ele ficou em leito de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) e atualmente está em leito de enfermaria, “em recuperação de procedimento cirúrgico de amputação de pernas e braço esquerdo, além de enxerto de pele parcial em braço direito”.

Além disso, segundo o hospital, Adryano está com comprometimento nos rins e “segue acompanhado também pelas especialidades de ortopedia e cirurgia vascular”.

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