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Cidades

Da briga de bar à guerra das facções: como mudou a violência letal em MS

Relatório do Instituto Sou da Paz aponta avanço da influência do crime organizado sobre homicídios

Por Viviane Oliveira | 09/07/2026 07:59
Da briga de bar à guerra das facções: como mudou a violência letal em MS
Adolescente morto em Caarapó; crime é ligado à disputa entre PCC e Comando Vermelho (Foto: Caarapó News)o de fundo a disputa entre PCC (Primeiro Comando da Capital) e Comando Vermelho (Foto: Caarapó News)

A violência letal em Mato Grosso do Sul passou por uma transformação nos últimos anos. Especialistas apontam que uma parcela crescente dos homicídios está ligada à atuação de facções criminosas, impulsionada pela posição estratégica do Estado na fronteira com Paraguai e Bolívia, um dos principais corredores do tráfico internacional de drogas e armas. Apesar de manter índices de homicídios abaixo da média nacional, MS passou a conviver com uma dinâmica de violência cada vez mais influenciada pelo crime organizado.

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Relatório do Instituto Sou da Paz aponta que a violência em Mato Grosso do Sul está cada vez mais ligada a facções criminosas, como PCC e Comando Vermelho, impulsionada pela posição do Estado na fronteira com Paraguai e Bolívia. Municípios como Ponta Porã e Caarapó, onde um adolescente de 14 anos foi executado, estão entre os mais afetados. A Polícia Civil anunciou reforço nas ações contra as facções por meio de portaria publicada no Diário Oficial.

Se antes a maioria dos assassinatos era motivada por conflitos interpessoais, como brigas de bar, desavenças familiares, crimes passionais e outros episódios de violência cotidiana, hoje essas ocorrências estão cada vez mais inseridas em um cenário marcado pela disputa entre organizações criminosas e pelo controle de atividades ilícitas.

O diagnóstico consta no relatório "Além da Guerra: organizações criminosas e a dinâmica dos homicídios no Brasil", elaborado pelo Instituto Sou da Paz, divulgado ontem. O estudo analisou dados registrados entre 2018 e 2024 e concluiu que, em diferentes regiões do País, a violência letal passou a refletir a expansão e a reorganização das facções. Em MS, a extensa faixa de fronteira é apontada como um dos principais fatores dessa mudança de perfil.

Segundo o levantamento, municípios como Ponta Porã, Coronel Sapucaia, Amambai e Mundo Novo estão entre as áreas mais sensíveis à atuação desses grupos. Nessas cidades, os conflitos nem sempre se traduzem em confrontos armados permanentes, mas envolvem o controle de rotas do tráfico, a lavagem de dinheiro, o recrutamento de integrantes e a influência sobre mercados ilícitos.

O relatório aponta que o PCC (Primeiro Comando da Capital) permanece como a principal organização criminosa em MS, resultado de uma presença consolidada ao longo dos anos, sobretudo nas cidades de fronteira e nos corredores utilizados pelo tráfico internacional. Ao mesmo tempo, o CV (Comando Vermelho) tem buscado ampliar sua influência no Estado, intensificando a disputa por áreas estratégicas e rotas utilizadas pelo crime organizado.

Para os pesquisadores, essa dinâmica vai além da disputa territorial. Em muitos casos, os homicídios estão relacionados à manutenção do poder das facções, ao acerto de contas entre integrantes, à eliminação de rivais e ao domínio de mercados ilegais, modificando o perfil tradicional da violência letal no Estado.

Da briga de bar à guerra das facções: como mudou a violência letal em MS
Perícia no local onde idoso foi morto por engano durante guerra entre facções, em Sonora (Foto: arquivo/Campo Grande News)

Um dos exemplos dessa mudança de cenário é Sonora, na região Norte, onde disputas envolvendo facções criminosas passaram a influenciar a dinâmica dos homicídios. O município, localizado próximo à divisa com Mato Grosso, registrou episódios de violência associados a conflitos entre grupos rivais pelo controle de pontos de venda de drogas e de áreas estratégicas para o crime organizado. A atuação das facções transformou parte dos assassinatos em desdobramentos de uma disputa mais ampla pelo domínio de mercados ilegais, deixando de ser apenas resultado de conflitos individuais.

No sul do Estado, em Caarapó, um adolescente de 14 anos foi executado a tiros na noite de quarta-feira (24). O crime teve como pano de fundo a disputa entre PCC e Comando Vermelho. O jovem era suspeito de integrar o PCC, tinha familiares ligados à facção e já havia sido "decretado" por integrantes do grupo rival.

O relatório destaca a necessidade de fortalecer o trabalho de inteligência, ampliar a cooperação entre as forças de segurança e os países vizinhos, além de combater as estruturas financeiras e logísticas que sustentam o crime organizado na região de fronteira.

Nesse contexto, a Polícia Civil anunciou o reforço das ações de enfrentamento às facções criminosas que atuam no Estado. A medida foi oficializada por meio de portaria publicada no DOE (Diário Oficial do Estado) na segunda-feira (6), que estabelece uma atuação integrada entre os setores de inteligência, departamentos especializados e delegacias da Capital e do interior.

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