Fios emaranhados ampliam prejuízos e desafiam lei em vigor há seis anos
Rompimentos causados por caminhões deixam moradores e empresas sem energia e internet

Os emaranhados de fios que se multiplicam nos postes de Campo Grande continuam provocando transtornos à população, mesmo com lei municipal em vigor desde 2019 que determina a retirada de cabos inutilizados, a organização da fiação e a regularização da ocupação dos postes.
RESUMO
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Emaranhados de fios nos postes de Campo Grande continuam causando transtornos à população, com rompimentos frequentes que deixam moradores e empresas sem energia e internet. Apesar de uma lei municipal de 2019 que exige organização da fiação e retirada de cabos inutilizados, o problema persiste em bairros como Miguel Couto e Chácara Cachoeira. Prefeitura, Agems e Energisa foram questionadas sobre fiscalização, mas não responderam até o fechamento da reportagem.
Nos últimos dias, novos rompimentos voltaram a deixar moradores e empresas sem energia elétrica e internet em diferentes bairros da Capital. Em comum, os relatos apontam que caminhões acabam enroscando em cabos baixos ou emaranhados, derrubando parte da fiação e interrompendo serviços essenciais.

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Na Rua Ceará, no cruzamento com a Rua Elvira Coelho Machado, no Bairro Miguel Couto, comerciantes afirmam que os problemas são recorrentes. Neste fim de semana, um novo rompimento deixou diversos cabos, aparentemente de telecomunicações, espalhados pela esquina e sobre a calçada, oferecendo riscos a pedestres e motoristas.

Ela afirma que interrupções de energia e internet já fazem parte da rotina do comércio. "Infelizmente é muito comum acontecer um incidente com fios. Falta energia ou internet. Na semana passada ficamos sem energia por pelo menos três horas, quando um fio de energia se rompeu. Acho que esses fios todos enrolados contribuem para isso. Sem energia não tem como trabalhar, porque todos os equipamentos dependem dela."
Na mesma região, a gerente da Auto Rodas, Ysabelle Lemes, diz que praticamente toda semana ocorre algum rompimento. "Pelo menos uma vez por semana acontece alguma ocorrência. Na quarta-feira passada, um rompimento perto da Escola Estadual Hércules Maymone queimou o modem e também o aparelho do telefone fixo. Desde então estamos atendendo os clientes apenas pelo WhatsApp."

Segundo ela, os prejuízos vão além da substituição dos equipamentos. "Quando um caminhão passa e arrebenta esses fios embolados, o prejuízo é grande. Além dos equipamentos queimados, a empresa praticamente para de funcionar, porque todos os nossos equipamentos dependem de energia. É um prejuízo duplo."
Problema se repete em diferentes bairros
Outro episódio ocorreu na noite deste domingo (2), no cruzamento das ruas Pestalozzi e Luís Freire Benchetrit, próximo à Clínica da Família da Cassems, no Bairro Chácara Cachoeira. A moradora Katiuscias Nasu relata que ouviu um forte estrondo entre 21h e 22h, quando um caminhão-cegonha teria enroscado na fiação.
"Quando saímos para ver, tinha um monte de fios arrebentados na rua e em cima de um carro estacionado. O segurança da Cassems retirou os fios da pista e colocou na calçada." Ela conta que a residência permaneceu funcionando apenas com uma fase da rede elétrica até a metade da manhã desta segunda-feira (3).

"Tinha aparelho funcionando e outro não. O ar-condicionado do quarto do meu filho ligava, o do meu quarto não. A geladeira também não funcionava. Além disso, ficamos sem internet até a manhã desta segunda."
A direção da Clínica da Família da Cassems informou que, apesar da presença de fios espalhados pela calçada, a unidade não sofreu interrupção no fornecimento de energia ou internet e manteve os atendimentos normalmente.
Emaranhados permanecem visíveis
A reportagem encontrou diversos pontos com grande quantidade de cabos enrolados nos postes. A situação foi observada na própria Rua Ceará, na Rua Euclides da Cunha, próximo ao cruzamento com a Rua Antônio Maria Coelho, e em vários trechos da Rua Raul Pires Barbosa.

Em muitos casos, é possível identificar feixes de cabos antigos misturados a novas instalações, dificultando até mesmo a identificação das empresas responsáveis pela infraestrutura.
Lei prevê retirada de fios e multas
O problema motivou, no início de julho, a aprovação de um projeto pela Câmara Municipal que estabelecia novas regras para identificação e retirada de fios inutilizados. A proposta, entretanto, foi vetada integralmente pela prefeita Adriane Lopes (PP).
Na justificativa, o Executivo alegou que o assunto já é disciplinado pela Lei Complementar nº 348/2019, que obriga a organização dos cabos, a retirada da fiação sem uso, prevê notificações às empresas responsáveis e estabelece multas para quem descumprir as determinações. A legislação também determina que situações com risco de acidentes tenham prioridade, com regularização em até 24 horas.
O Campo Grande News questionou a Prefeitura de Campo Grande, a Agems (Agência Estadual de Regulação de Serviços Públicos de Mato Grosso do Sul) e a Energisa MS, concessionária responsável pela distribuição de energia elétrica em grande parte do Estado, sobre quais ações de fiscalização vêm sendo realizadas para garantir o cumprimento da legislação.
Em nota, a Energisa informou que sua responsabilidade se limita à disponibilização dos postes para uso compartilhado, mediante contrato. Segundo a concessionária, cabe às empresas de telefonia, internet e TV por assinatura que utilizam essas estruturas realizar a instalação do cabeamento dentro dos padrões técnicos e fazer a manutenção de suas próprias redes.
A empresa afirmou ainda que, quando identifica irregularidades nas instalações de empresas regularmente cadastradas, realiza notificações para que sejam feitas as adequações. Nos casos em que houver risco à segurança, os cabos considerados inadequados podem ser removidos. A concessionária acrescentou que mantém diálogo permanente com as operadoras e que está em andamento um cronograma de ações para regularização das instalações, com execução prevista até o fim deste ano.
A Energisa ressaltou, por fim, que atua dentro dos limites estabelecidos no contrato de concessão e que não possui atribuições de natureza regulatória, competência que cabe a órgãos como a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) e a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações).
A Prefeitura de Campo Grande e a Agems, até a mais recente atualização da matéria, ainda não se manifestaram.

Em novembro do ano passado, essas instituições promoveram o Projeto Limpa Fios, iniciativa voltada à remoção de cabos soltos, irregulares e abandonados no quadrilátero central de Campo Grande.
Na ocasião, o engenheiro Paulo Patrício, coordenador da Câmara Técnica de Energia da Agems, destacou que o problema da ocupação irregular dos postes é nacional e já possui regulamentação específica. "As regras da Aneel permitem a retirada de cabos irregulares. A medida é essencial para garantir segurança, conformidade e organização no compartilhamento da infraestrutura."

