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Cidades

Fugindo do aluguel, 60 famílias erguem moradias em área da linha férrea

Há dois anos, moradores ocupam terreno da União no Indubrasil e transformam solidariedade em sobrevivência

Por Inara Silva | 02/07/2026 07:57

Confira a galeria de imagens:

  • Fotos: Maya Severino
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No fim da Rua das Ostras, na Vila Entroncamento, entre o Distrito do Indubrasil e o município de Terenos, a antiga linha férrea se tornou cenário de uma comunidade que nasceu da necessidade. Ali, 60 famílias ergueram, com as próprias mãos, moradias improvisadas feitas de madeira, paletes, sobras de construção e lonas. O objetivo em comum é escapar do aluguel e conquistar o direito básico de ter onde morar.

RESUMO

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Na Vila Entroncamento, entre Indubrasil e Terenos, 60 famílias vivem em ocupação na antiga linha férrea da União, onde montaram barracos de madeira, paletes e lonas para fugir do aluguel. A comunidade União Faz a Força enfrenta falta de água, energia regular, pavimentação e drenagem, além do risco de despejo, mas sobrevive com mutirões, doações e a organização de moradores liderados por Mônica Pereira da Silva.

A comunidade "União Faz a Força" recebeu o nome que traduz o cotidiano dos moradores. E é justamente a união que aparece em praticamente todos os relatos. Quando falta comida, um vizinho divide o pouco que tem. Quando a chuva invade os barracos, surgem mutirões para esticar novas lonas. No frio, todos se mobilizam para conseguir cobertores.

A ocupação surgiu há 2 anos em uma área pertencente à União, no entorno da ferrovia da RFFSA (Rede Ferroviária Federal). Os trilhos inclusive cortam os quintais das casas. Segundo os moradores, existe a expectativa de que o terreno possa futuramente ser destinado a projetos habitacionais, mas, enquanto aguardam uma definição, vivem sob a constante insegurança de um eventual despejo.

Liderança - À frente da comunidade está Mônica Pereira da Silva, de 51 anos. Ex-pedreira, ela deixou a profissão para cuidar da neta Isabely, hoje com sete anos. Também passou pela dificuldade de perder a própria moradia.

Ela vivia em um lote obtido por meio de um programa habitacional, mas o desemprego fez com que ela e o marido acumulassem cerca de um ano e meio de atraso nas prestações do terreno. Sem condições de manter o imóvel, venderam o que tinham e trouxeram o barraco de madeira para a área ocupada.

Hoje, Mônica organiza os moradores, busca alimentos, colchões, lonas e cobertores, conversa com entidades assistenciais e acompanha as discussões sobre a possível regularização da área. Segundo ela, a organização foi fundamental para evitar conflitos.

"Eu organizei para não virar bagunça. Medi 50 metros de cada lado e não deixei ninguém construir perto da rodovia. Se a gente não organiza no começo, depois vira conflito", conta. Segundo ela, pelo menos metade das famílias da comunidade é chefiada por mulheres que criam os filhos sozinhas.

Fugindo do aluguel, 60 famílias erguem moradias em área da linha férrea
Dona Monica e a neta Isabeli na sala da casa da família (Foto: Maya Severino)

Infraestrutura - A água chega por um cavalete localizado a cerca de 250 metros. A energia elétrica chega por ligações improvisadas, já que, na área, há apenas uma rede de alta tensão. Não há pavimentação nem sistema de drenagem.

Os moradores contam que nos períodos de chuva, a situação se agrava, pois a água invade quintais e barracos, formando grandes poças. Em muitos pontos, o terreno transforma-se em lama. As lonas rasgam com facilidade diante do vento e precisam ser substituídas constantemente. O frio também castiga. O vento entra pelas frestas das paredes de madeira e dos paletes, tornando as noites ainda mais difíceis para crianças, idosos e pessoas com deficiência.

Sem aluguel - Há cerca de nove meses, Cristiana da Silva, de 43 anos, chegou à comunidade com a filha Sabrina Vitória, de 22 anos, que utiliza cadeira de rodas, além da neta de quatro anos. Antes, a família pagava R$ 850 de aluguel em uma casa no Jardim Nápoles, além das despesas com água, energia e internet.

A diarista Cristiana afirma que a renda da família nunca era suficiente para manter todas as contas. A filha recebe o benefício da LOAS (Lei Orgânica da Assistência Social), mas, segundo ela, o valor mal cobre as despesas básicas. Foi Mônica quem a convidou para conhecer a ocupação.

Com ajuda do marido da líder comunitária, de vizinhos e de materiais doados, levantou um pequeno barraco de dois cômodos e piso. O banheiro foi construído em alvenaria para facilitar a locomoção da filha cadeirante. Parte do material veio de Sinval, um comerciante de Terenos que vende paletes na região, mas que frequentemente os doa para os moradores erguerem suas casas.

Ela diz que hoje vive com mais tranquilidade financeira porque deixou de pagar aluguel, mas admite que a insegurança nunca desaparece. “O medo é acordar um dia, sair para trabalhar e, quando voltar, encontrar o barraco derrubado”.

Apesar disso, ela afirma que encontrou uma rede de apoio, algo que não tinha antes. Segundo Cristiana, quando falta alimento, alguém divide a refeição. Quando uma lona rasga, aparecem pessoas para ajudar. Quando chegam doações, Mônica distribui tudo entre os moradores.

Fugindo do aluguel, 60 famílias erguem moradias em área da linha férrea
Alessandra Assis dos Santos com a neta no colo (Foto: Maya Severino)

Construção em 15 dias - A história de Alessandra Assis dos Santos, de 47 anos, também começou por causa do aluguel. Ela morava no bairro Sarandi, onde pagava R$ 700 por mês. O proprietário pediu a desocupação do imóvel e deu apenas 15 dias de prazo.

Sem alternativa, a família reuniu materiais reaproveitados e construiu um barraco. Hoje, mora na comunidade com o marido, um filho e dois netos. O imóvel possui dois quartos, sala, cozinha e banheiro, todos erguidos com paletes, madeira reaproveitada e restos de construção e piso de madeira. Atualmente, cinco de seus oito filhos moram na comunidade.

Alessandra convive com problemas na coluna e doença cardíaca. Sem condições de trabalhar, depende do Bolsa Família, da renda do marido, ajudante de pedreiro, e do filho, servente de pedreiro em uma fazenda. Ela conta que evita investir em uma construção definitiva, pois teme o despejo.

Recomeço -  A poucos metros de Alessandra, a realidade se repete na casa de Verônica Iara da Silva, de 49 anos. Ela chegou há um ano com o marido José Oliveira, de 71 anos, beneficiário do LOAS. A filha Jéssica, de 28 anos, mudou-se há três meses para a comunidade com o marido e cinco filhos e já começou a construir a sua própria casa.

Antes, a família vivia em um loteamento popular onde, segundo Verônica, faltavam infraestrutura e condições para concluir a construção da moradia. Na ocupação, chegaram praticamente sem nada. Dormiram sobre uma cama improvisada feita com paletes enquanto o barraco ainda recebia as primeiras paredes. Na primeira noite, enfrentaram chuva e ficaram praticamente ao relento, mas não desanimaram.

Hoje, ela afirma que a principal vantagem é não precisar pagar aluguel, água e energia formalizada, despesas que antes comprometiam grande parte da renda familiar. Mesmo assim, reconhece que a situação continua provisória.

Fugindo do aluguel, 60 famílias erguem moradias em área da linha férrea
Verônica Iara da Silva, de 49 anos, durante a lavagem da louça (Foto: Maya Severino)

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