Haras, mansões e frota de luxo: PF mira patrimônio milionário do tráfico
Justiça também determinou bloqueio de até R$ 300 milhões em contas de 170 investigados

Haras de luxo, seis fazendas com mais de 5 mil hectares e cerca de 160 imóveis, entre mansões e apartamentos de alto padrão, estão entre os bens atingidos pela Operação Ifrit, deflagrada nesta quarta-feira (4) pela Polícia Federal e pela Receita Federal.
RESUMO
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A Operação Ifrit, da Polícia Federal e da Receita Federal, mirou nesta quarta-feira (4) uma organização familiar suspeita de tráfico internacional de drogas e armas na fronteira com Paraguai e Bolívia. Foram alcançados cerca de 160 imóveis, seis fazendas, mais de 150 veículos e animais, em bens que superam R$ 500 milhões. A Justiça bloqueou até R$ 300 milhões de 170 investigados. Foram expedidos 76 mandados de busca e 26 ordens de prisão, e três policiais civis foram afastados.
A ação também alcançou mais de 150 veículos, incluindo modelos de luxo, além de cavalos de raça, outros animais e lanchas. Somados, os bens identificados pela investigação ultrapassam R$ 500 milhões em patrimônio que, segundo a polícia, foi adquirido com dinheiro de atividades criminosas e utilizado para esconder a origem dos recursos.
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As propriedades rurais estão localizadas em Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Amazonas. Além das medidas sobre os imóveis e veículos, a Justiça Federal determinou o bloqueio de até R$ 300 milhões em contas bancárias de 170 pessoas e empresas apontadas como integrantes ou utilizadas pela organização criminosa.

A medida impede que os investigados movimentem ou transfiram os valores enquanto a Justiça analisa a origem do patrimônio. O objetivo é impedir que os recursos continuem financiando as atividades ilegais e permitir que, ao fim do processo, os bens comprovadamente ligados aos crimes possam ser destinados ao Estado.
A investigação aponta que o grupo movimentou mais de R$ 500 milhões em aproximadamente dois anos, por meio do tráfico internacional de drogas e armas e de operações utilizadas para esconder o dinheiro. A organização teria usado empresas de fachada, negócios simulados e contas de terceiros para dificultar o rastreamento dos valores.

Em entrevista, o superintendente da Polícia Federal em Mato Grosso do Sul, Carlos Henrique Dangelo, afirmou que a investigação identificou uma estrutura familiar dedicada ao tráfico de drogas há mais de uma década, com atuação principalmente na fronteira entre Brasil, Paraguai e Bolívia.
"Estamos falando de uma organização criminosa bastante forte, que movimentou milhões e milhões de reais, lavou milhões e milhões de reais durante muito tempo e agora responderão pelos crimes na Justiça Federal", declarou.
Patrimônio e estrutura do grupo - Conforme as apurações, a organização conseguia drogas tanto de países vizinhos quanto de materiais que já haviam sido apreendidos pelas forças de segurança. Também há suspeitas de que integrantes utilizavam violência para manter o funcionamento do esquema, com episódios de tortura, sequestros, cárcere privado e homicídios.
"Ela obtinha tanto de países vizinhos, como se valendo por vezes de apreensões realizadas pelas próprias forças de segurança do Estado, tinha acesso a esse material e colocavam isso para comércio", explicou Dangelo.
A Justiça Federal determinou que imóveis, veículos e valores bancários ligados aos investigados fiquem indisponíveis. A medida alcança cerca de 160 imóveis, mais de 150 veículos e contas bancárias, além de outros bens avaliados em mais de R$ 500 milhões.
"Agora faz parte do trabalho da investigação rastrear todo esse patrimônio, retirar todo esse patrimônio da atividade criminosa e voltar o patrimônio para o Estado", disse o superintendente.

Dangelo também ponderou que a organização investigada não representa necessariamente o único grupo com poder na fronteira. Segundo ele, há diferentes estruturas criminosas atuando entre Brasil, Paraguai e Bolívia.
"Não necessariamente é aquela que domina na linha de fronteira, mesmo porque hoje nós não podemos falar de uma única família que tem essa função. Nós temos grupos que atuam fortemente na fronteira tanto no Brasil, como no Paraguai, quanto com a Bolívia", afirmou.
Ele destacou ainda a dimensão da produção de drogas nos países vizinhos e o uso de Mato Grosso do Sul como corredor para a entrada de entorpecentes no Brasil e o envio para mercados internacionais, inclusive na Europa e nos Estados Unidos.
Durante as diligências desta quarta-feira, os policiais localizaram armas de fogo, mas ainda não haviam encontrado drogas até o momento da entrevista.
Sobre a participação de agentes públicos, o superintendente explicou que as suspeitas envolvem o favorecimento de criminosos no acesso a entorpecentes e o fornecimento de informações que facilitariam as atividades da organização.
Três policiais civis foram afastados das funções por determinação judicial. A investigação aponta que servidores teriam ajudado a retirar drogas de unidades policiais, inclusive materiais que já estavam apreendidos, além de repassar informações estratégicas aos investigados.
"Era nesse sentido de retirada de drogas das unidades policiais e de favorecimento aos criminosos com informações", afirmou.
Investigados podem responder por vários crimes - Com as provas reunidas durante a investigação e a análise dos materiais apreendidos nesta quarta-feira, os envolvidos poderão responder, segundo a participação de cada um, por uma série de crimes.
Entre as suspeitas estão participação em organização criminosa com atuação violenta, ligação com facções como o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o PGC (Primeiro Grupo Catarinense), tráfico internacional de drogas e financiamento da atividade, além do comércio ilegal de armas entre países.
A lista também inclui falsificação e uso de documentos falsos, corrupção de servidores públicos, desvio de dinheiro ou bens públicos, tortura, homicídio e lavagem de dinheiro. Neste último caso, a investigação aponta centenas de operações usadas para esconder a origem dos recursos obtidos ilegalmente.
As acusações ainda serão analisadas pela Justiça. A responsabilização de cada investigado dependerá das provas e da participação individual nos crimes.

Entenda - Deflagrada na manhã desta quarta-feira, a Operação Ifrit mobilizou 450 policiais federais, além de 22 auditores-fiscais e sete analistas tributários da Receita Federal. Foram expedidos 76 mandados de busca e apreensão e 26 ordens de prisão, sendo 25 preventivas e uma temporária. Também foram determinadas medidas de monitoramento eletrônico de três investigados e o afastamento de três policiais civis de suas funções.
As equipes atuaram em Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, São Paulo, Paraná, Rondônia, Goiás e Santa Catarina. As ordens foram autorizadas pela 3ª Vara Federal de Campo Grande.
A investigação aponta que a organização era comandada por um núcleo familiar formado por três irmãos, filhos e outros parentes. A estrutura também contava com operadores financeiros, responsáveis pelo transporte das mercadorias ilegais e integrantes encarregados da segurança armada.
A principal área de atuação ficava na fronteira entre Ponta Porã e Pedro Juan Caballero, no Paraguai. Drogas e armas eram adquiridas principalmente na Bolívia, no Paraguai e no Peru. As cargas entravam no Brasil pela fronteira sul-mato-grossense e seguiam para diferentes regiões do país, especialmente São Paulo, Paraná e Santa Catarina. Parte dos entorpecentes tinha como destino o mercado europeu, principalmente Espanha e Portugal.
Segundo a investigação, a estrutura criminosa atuava de forma permanente desde pelo menos 2018 e mantinha ligações com facções criminosas, além de contar com a colaboração de agentes públicos. Entre os suspeitos estão policiais civis, militares e um policial rodoviário federal.
A organização também é investigada por manter armamentos pesados, drones, equipamentos de comunicação, veículos blindados e locais utilizados como bases para abrigar integrantes armados. Os investigadores identificaram ainda indícios de envolvimento em crimes violentos, como atentados, sequestros, torturas e homicídios.
Em Campo Grande, a PF cumpriu mandados em diferentes endereços. Na loja de veículos ProcuroCar, na Avenida Salgado Filho, no Bairro Amambaí, a advogada Giselli Bompard Nunes afirmou que a defesa ainda não havia tido acesso ao mandado judicial. Segundo ela, a documentação dos veículos foi apresentada ao delegado e, inicialmente, nada irregular teria sido encontrado. O sócio-proprietário Robert Michael Alves Sanches Sonohata deverá prestar esclarecimentos.
Outro endereço alvo foi um galpão na Rua São Borja, na Vila Célia, onde 13 veículos seriam retirados, entre eles modelos Jeep, uma Mitsubishi Pajero e uma caminhonete S10. Dois guinchos foram deslocados para o local. Os policiais chegaram antes das 6h, em veículos descaracterizados, e utilizaram ferramentas para abrir estruturas durante as buscas.
Entre os investigados também está o empresário Adel Hassan Haidar, de Ponta Porã, que aparece em registros como sócio-administrador de uma empresa do setor de hospedagem. A reportagem levantou que ele já respondeu a processos criminais por porte ilegal de arma e contrabando ou descaminho. Em um dos casos, houve condenação em 2003; em outro, foi absolvido pela Justiça Federal. Os registros consultados não apontam condenações definitivas atualmente em execução. Até o momento, a PF não detalhou qual participação específica é atribuída a ele na organização.
A operação também atingiu policiais investigados. O delegado afastado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa teve uma nova ordem de prisão cumprida e foi encaminhado ao Presídio Federal. Ele já estava detido em razão de outra investigação. A defesa informou que ainda não teve acesso integral ao processo e aos elementos que fundamentaram a nova prisão e considera prematuro se manifestar sobre as acusações.
O investigador Douglas Tobias, preso anteriormente na Operação Infiltrados, também voltou a ser alvo de mandados. Na residência dele, no Condomínio Alphaville, os policiais levaram um Ford Mustang Shelby GT500 avaliado em R$ 370 mil, registrado em nome da empresa da esposa do servidor. O veículo já era monitorado pelas autoridades devido a movimentações financeiras consideradas atípicas e suspeitas de evolução patrimonial incompatível com os rendimentos do investigador. A defesa afirmou que ainda não teve acesso aos autos da nova investigação e que ele está à disposição para prestar esclarecimentos.
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