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Cidades

Jovens de Campo Grande são mortos após julgamento no "tribunal do crime" em MT

Polícia aponta ligação com facções rivais e diz que vítimas foram julgadas por suspeita de integrarem o PCC

Por Bruna Marques | 08/04/2026 10:47

Os três jovens de Campo Grande desaparecidos em Mato Grosso foram mortos após serem submetidos a um chamado “tribunal do crime”, segundo a Polícia Civil. Wagner Felipe Rocha Viana, de 20 anos, Wilquison Eduardo Rocha Viana, de 23, e Breno Gabriel Soares Cabral, de 21, tiveram os corpos encontrados na tarde desta terça-feira (7), enterrados em uma vala na zona rural do distrito Marechal Rondon, em Campo Novo do Parecis (MT).

RESUMO

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Três jovens de Campo Grande desaparecidos em Mato Grosso foram mortos após serem submetidos a um tribunal do crime por integrantes do Comando Vermelho, que suspeitavam de ligação das vítimas com o PCC. Os corpos foram encontrados enterrados em uma vala rural em Campo Novo do Parecis. Quatro suspeitos foram identificados, dois já estão presos, incluindo um adolescente de 16 anos, que confessaram o crime.

Eles estavam desaparecidos desde a madrugada de sábado (4), quando sumiram de um alojamento de trabalhadores no galpão “Metafer”, onde atuavam na montagem de um estande para um evento agropecuário.

De acordo com o delegado Guilherme Kaiper, titular da Delegacia de Campo Novo do Parecis (MT), em entrevista ao Campo Grande News, o crime está diretamente ligado à atuação de facções criminosas.

“Os celulares das vítimas foram analisados e, supostamente, elas seriam integrantes do PCC. Aqui a região é dominada pelo Comando Vermelho. Houve uma chamada de vídeo, no contexto do chamado ‘tribunal do crime’. As vítimas foram ‘decretadas’, ou seja, foi emitida uma ordem de execução”, afirmou.

Jovens de Campo Grande são mortos após julgamento no "tribunal do crime" em MT
Peritos escavam área onde os corpos dos três jovens foram encontrados enterrados em vala na zona rural de Campo Novo do Parecis (Foto: Divulgação / PCMT)

Segundo o delegado, os três jovens foram abordados após saírem à noite para jogar sinuca. Por serem de fora, despertaram desconfiança de integrantes da facção local.

“Eles tiveram os celulares verificados e, nesses aparelhos, teriam sido encontradas fotos e conteúdos relacionados à facção rival. Os detalhes ainda serão esclarecidos no decorrer da investigação”, disse.

Ainda conforme Kaiper, não houve discussão ou outro motivo além da suposta ligação com facção rival.

“Em locais dominados por uma facção, a presença de integrantes de outra é vista como tentativa de infiltração. Isso gera conflitos”, explicou.

As vítimas foram levadas para uma estrada vicinal, onde foram amarradas e amordaçadas.

“Elas foram asfixiadas com uma corda e também sofreram golpes de faca no pescoço. Depois, foram levadas para uma área de mata. Foi escavada uma cova profunda, com mais de um metro, e os três corpos foram enterrados juntos”, detalhou.

Prisões e investigação - Quatro pessoas foram identificadas como participantes diretas do crime. Duas já estão presas, sendo uma delas adolescente de 16 anos.

“Eles confessaram a participação no crime. Já identificamos outras pessoas envolvidas e seguimos com diligências. Vamos solicitar a prisão preventiva do maior e a internação do menor”, afirmou o delegado.

Segundo ele, outras pessoas também ajudaram na execução, inclusive no transporte das vítimas.

Jovens de Campo Grande são mortos após julgamento no "tribunal do crime" em MT
Breno Gabriel Soares Cabral, Wagner Felipe Rocha Viana e Wilquison Eduardo Rocha Viana (Foto: Reprodução/Redes sociais)

A localização dos corpos ocorreu após dias de buscas discretas. “O local é de difícil acesso. Foi necessário percorrer cerca de 12 km de estrada de chão entre fazendas. Os corpos foram encontrados por volta das 17h, e os suspeitos foram presos cerca de uma hora antes, em suas residências”, disse.

O distrito onde ocorreu o crime fica a cerca de 80 km da cidade. “A dificuldade logística foi grande, tanto para localizar os autores quanto os corpos. O crime está praticamente elucidado”, completou.

A identificação oficial e liberação dos corpos estão sob responsabilidade da Politec (Perícia Oficial e Identificação Técnica) de Mato Grosso.

Desaparecimento - Antes do crime, os jovens estavam no alojamento com outros trabalhadores. Um colega relatou que viu o trio por volta de 0h40, ainda acordado, conversando e fumando.

Na manhã seguinte, quando o expediente começaria às 7h, eles já não estavam no local e não deram qualquer aviso.

Os pertences pessoais ficaram no alojamento. O celular de Wagner permaneceu no carregador, enquanto os de Breno e Wilquison desapareceram e não recebiam ligações.

Jovens de Campo Grande são mortos após julgamento no "tribunal do crime" em MT
Policial percorre estrada de terra que dá acesso à região onde as vítimas foram localizadas (Foto: Divulgação /PCMT)

Durante o registro do desaparecimento, um comunicante afirmou ter ouvido os jovens comentarem sobre levar maconha para consumo próprio. Também mencionou que Wilquison poderia ter simpatia por facção criminosa, informação não confirmada oficialmente.

Para a reportagem, as famílias disseram que receberam a notícia de forma informal e ainda cobram explicações. A mãe de Breno, Elaine Cristina Soares relatou que foi informada de maneira breve. “Infelizmente são os três”.

Ela afirma que não recebeu informações completas sobre o caso. “Não falaram nada, nada. Só disseram isso”, disse.

A mãe também enfrenta dificuldades para lidar com o traslado do corpo. “Nem sei que funerária procurar”, afirmou.

Elaine ainda cobra responsabilidade da empresa que levou os jovens ao Mato Grosso.

“O patrão está querendo fugir das responsabilidades. Foi a empresa que levou eles, então acredito que deveria trazer eles de volta”, declarou.

Breno havia concluído o ensino médio recentemente e planejava iniciar um curso técnico, além de tirar a carteira de habilitação. Ele também queria comprar uma motocicleta e tinha diagnóstico de ceratocone, mas mantinha rotina normal.

Já Rubineia Rocha dos Santos, mãe de Wagner e Wilquison, afirma que sequer foi oficialmente comunicada. “Não recebi notícia nenhuma, nem da delegacia, nem de ninguém. Quem viu foi minha filha, que encontrou uma reportagem”, disse afirmando que não pode dar um parecer concreto ainda sobre nada, porque até agora não teve nenhuma informação realmente confirmada.

As famílias seguem tentando contato com a Polícia Civil para entender os próximos passos e aguardam a liberação dos corpos.

A reportagem procurou a empresa responsável pela contratação das vítimas, Stands MS. De forma breve, um dos responsáveis afirmou que está em contato simultâneo com várias pessoas e tenta estabelecer diálogo com a família. “Também estou falando com os órgãos responsáveis na cidade”, disse.

Em nota, a STANDS MS informou que acompanha o caso com respeito e cautela. A empresa declarou que, desde o início, repassou às autoridades as informações objetivas de que dispunha e segue à disposição para colaborar com a apuração. Acrescentou ainda que, em respeito às famílias e ao trabalho das autoridades competentes, não fará novos comentários neste momento, mantendo a colaboração dentro do que for necessário.

Jovens de Campo Grande são mortos após julgamento no "tribunal do crime" em MT
Laysa Moraes era de Mato Grosso do Sul, mas desapareceu em Cuiabá (Foto: Reprodução/Rede Social)

Outro caso semelhante - No dia 9 de janeiro do ano passado, a rapper sul-mato-grossense Laysa Moraes Ferreira, conhecida como La Brysa, também foi encontrada morta em circunstâncias semelhantes. Ela estava desaparecida desde o dia 3 do mesmo mês. Segundo a Polícia Civil, o assassinato foi ordenado por integrantes do Comando Vermelho, sob suspeita de que ela teria ligação com o PCC.

Assim como os três jovens, Laysa foi vítima de uma execução típica de facção. Ela foi sequestrada, julgada e morta. Ela foi jogada ainda com vida no Rio Cuiabá, enrolada em uma coberta e presa a uma estrutura de concreto, evidenciando a mesma prática de punição extrema aplicada nos chamados “tribunais do crime”.

Na carreira da música e poesia há 12 anos, La Brysa ganhou diversos títulos em batalhas de rap em Campo Grande. A artista também foi campeã da batalha Vai Ser Rimando, realizada pelo cantor Emicida em canal na internet.

Com vários singles lançados, La Brysa era conhecida como um dos maiores nomes da atualidade do freestyle no Centro-Oeste.

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