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Cidades

Líder do PCC que levou à derrocada de desembargador, Palermo é preso na Bolívia

No currículo, o narcotraficante tem histórico de fugas e “façanhas criminais”

Por Aline dos Santos | 26/05/2026 10:31
Líder do PCC que levou à derrocada de desembargador, Palermo é preso na Bolívia
Polícia da Bolívia divulgou foto de Gerson Palermo após ser preso hoje (Foto/Divulgação)

Foragido desde 2020 e condenado a 126 anos, o narcotraficante Gerson Palermo, liderança da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital), foi preso nesta terça-feira (26) na Bolívia, país vizinho a Corumbá. A informação é da CNN. Ele deve ser entregue à PF (Polícia Federal), em Mato Grosso do Sul.

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Foragido desde 2020 e condenado a 126 anos de prisão, o narcotraficante Gerson Palermo, liderança do PCC, foi preso na Bolívia nesta terça-feira. Com passagens pela polícia desde 1991, ele fugiu ao romper tornozeleira eletrônica após obter prisão domiciliar durante a pandemia. Em 2000, sequestrou um Boeing da Vasp e roubou R$ 5,5 milhões de malotes do Banco do Brasil.

No currículo, Palermo tem histórico de “façanhas criminais” e a derrocada de um desembargador do TJMS (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul). O crime mais ousado foi em 16 de agosto de 2000, quando sequestrou um Boeing da Vasp. Já o episódio que levou à punição do desembargador Divoncir Schreiner Maran foi em abril de 2020.

Em 21 de abril daquele ano, feriado de Tiradentes, Palermo foi enquadrado no grupo de risco para a covid e obteve prisão domiciliar, com monitoramento eletrônico. A decisão aconteceu durante o plantão do desembargador Divoncir.

No habeas corpus, a defesa alegou que Palermo tinha mais de 60 anos, sofria de diabetes, hipertensão e por isso corria risco de contrair a covid-19 no cárcere. No dia seguinte, 22 de abril, o desembargador Jonas Hass Silva Júnior, relator do processo, revogou a liminar e restabeleceu a prisão. Oito horas após o benefício do regime domiciliar, o chefão do tráfico rompeu a tornozeleira eletrônica e desapareceu.

Avião - O sequestro em 2000 foi de uma aeronave que decolou do Aeroporto Internacional de Foz do Iguaçu com destino a Curitiba, capital do Paraná. Palermo obrigou o comandante do voo a pousar na pista de Porecatu, também no Paraná. Ali, a quadrilha fez a tripulação abrir o compartimento de carga, de onde roubou nove malotes do Banco do Brasil, contendo R$ 5,5 milhões.

Contudo, o piloto de avião e chefe do tráfico de cocaína acumula passagens pela polícia desde 1991, além de já ter liderado o PCC em MS. Fugir também não é novidade. Há 30 anos, Gerson Palermo estava em 50 mil cartazes de “procura-se” espalhados pela PF por todo o Brasil.

Principal alvo da operação All In, deflagrada pela PF em 2017, ele ficou preso até 2020, ano da chegada da pandemia da covid. No ano passado, voltou ao noticiário acusado do sequestro da própria filha.

Líder do PCC que levou à derrocada de desembargador, Palermo é preso na Bolívia
Divoncir Schreiner Maran  quando ainda atuava no Tribunal de Justiça (Foto: Arquivo)

Gambiarra e venda de sentença

A investigação contra o desembargador aposentado Divoncir Schreiner Maran indica que a decisão que colocou Gerson Palermo em prisão domiciliar começou a ser preparada antes mesmo de o habeas corpus ser distribuído oficialmente. A informação foi revelada pelo Campo Grande News há dois anos, em maio de 2024, com base em trechos da decisão da ministra Maria Isabel Gallotti, do STJ (Superior Tribunal de Justiça), que remeteu o caso para a Justiça de Mato Grosso do Sul.

Segundo o despacho, o então chefe de gabinete de Divoncir teria pedido à servidora Gabriela Soares Moraes que começasse a elaborar a minuta da decisão antes da chegada formal do processo. A PF (Polícia Federal) também apontou que outro assessor do desembargador, superior de Gabriela e com acesso direto ao magistrado, mantinha consigo a senha usada para assinar decisões produzidas no gabinete.

A própria servidora teria alertado o assessor sobre a fragilidade jurídica da decisão. Nas mensagens citadas pela investigação, Gabriela apontou que seria necessário fazer uma “gambiarra” para justificar a concessão da prisão domiciliar a Palermo. Ela também mencionou a possibilidade de supressão de instância, termo usado quando um pedido é analisado por tribunal superior sem passar antes pela instância adequada, e observou que a defesa do traficante alegava doenças sem apresentar laudos médicos.

Na decisão, a ministra destacou que Divoncir teria tido acesso à petição inicial do habeas corpus antes da distribuição, situação considerada incomum na apuração. Para Gallotti, os indícios sugerem que o magistrado já sabia que o pedido seria apresentado, mesmo sem comprovação médica das doenças alegadas e apesar do histórico criminal de Palermo. A investigação também apontou que Divoncir apagou do celular as mensagens trocadas com o chefe de gabinete.

Além da tramitação interna do processo, a PF passou a seguir o rastro do dinheiro. A investigação suspeita que valores recebidos com a suposta venda de decisão tenham sido ocultados por meio de familiares. Um dos filhos do desembargador, Vânio Maran, foi apontado como possível operador financeiro do esquema. Ele movimentou R$ 1,074 milhão em nove meses, apesar de declarar renda mensal de R$ 7,6 mil no período, segundo dados citados na investigação.

Outro caminho investigado foi o uso de negócios rurais para dar aparência legal ao dinheiro. A PF levantou suspeita sobre operações chamadas de “boi de papel”, com simulações de compra e venda de gado para justificar recursos. A defesa de Vânio negou a acusação e afirmou que ele atua no ramo agropecuário.

Líder do PCC que levou à derrocada de desembargador, Palermo é preso na Bolívia
Divoncir e a esposa em foto na praia, postada nas redes sociais

A esposa de Maran, Viviane Alves Gomes de Paula, também aparece na investigação. Relatórios citam indícios de evolução patrimonial incompatível, tentativa de confundir a origem de bens do casal e pagamentos de altas quantias em dinheiro vivo durante a construção de uma mansão do casal em Campo Grande.

Em outra frente, mensagens analisadas pela PF indicam que ela teria tratado com assessores sobre processos do gabinete do marido, mesmo sendo servidora do TRE (Tribunal Regional Eleitoral).

No domingo, o Fantástico voltou ao caso, dois anos depois, lembrando de ligações interceptadas que reforçam a suspeita de lavagem de dinheiro.

A reportagem mostrou que a Polícia Federal indica que Viviane pagou em dinheiro vivo parte das despesas de uma casa de alto padrão construída em Campo Grande. O imóvel, erguido em condomínio de luxo, teria custado mais de R$ 2,1 milhões, segundo a investigação. As conversas analisadas indicam que ela combinava encontros presenciais com fornecedores e dizia preferir fazer os pagamentos em espécie.

Entre os serviços citados estão móveis planejados orçados em cerca de R$ 650 mil e compra de ferragens de aproximadamente R$ 40 mil. Em um dos diálogos, a forma de pagamento em dinheiro chamou a atenção do vendedor, que informou que a empresa só aceitava meios como cartão, Pix ou boleto. Para os investigadores, os repasses em espécie, alguns feitos dentro de veículos, podem indicar tentativa de evitar registros formais, já que a origem do dinheiro não foi identificada.

Desde o início das investigações, os advogados de Divoncir e de sua família negam qualquer participação em suposta venda de sentenças.

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