Mais cargas nas estradas ajudam a redesenhar mapa dos acidentes em MS
Mapa revela quais são as estradas mais perigosas de Mato Grosso do Sul
A tragédia que tirou a vida de uma família e de uma cachorrinha no dia 7 de setembro, próximo a Rio Brilhante, expôs a rotina perigosa na BR-163, que corta Mato Grosso do Sul e liga o estado a Mato Grosso e ao Paraná. Considerada a via mais letal de MS, a rodovia já soma 532 acidentes, 40 mortes e 570 feridos em 2026, um aumento de 8,5% em comparação ao mesmo período de 2025.
RESUMO
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A BR-163, considerada a rodovia mais letal de Mato Grosso do Sul, registrou 532 acidentes, 40 mortes e 570 feridos em 2026, alta de 8,5% em relação a 2025. Nas estradas estaduais, a MS-306 lidera em acidentes, impulsionados por imprudência, excesso de velocidade e fadiga. As autoridades alertam que checar o veículo e fazer pausas a cada duas horas são medidas essenciais para reduzir os riscos nas rodovias.
Segundo levantamento da PRF (Polícia Rodoviária Federal), mesmo com o volume geral de sinistros apresentando relativa estabilidade no estado, a persistência de mortes na BR-163 reforça que a imprudência e o aumento do fluxo pesado, que se mistura com carros de passeio e veículos menores, continuam cobrando um preço alto demais dos motoristas que trafegam pelo trecho.
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Outra artéria fundamental para o estado, a BR-262, que cruza MS ligando São Paulo à fronteira com a Bolívia em Corumbá, revela um cenário que chama atenção. Mesmo com uma retração no volume geral de acidentes em relação a 2025, o total de feridos subiu 5,8%. Esse contraste evidencia o aumento da gravidade dos acidentes: colisões que envolvem múltiplos veículos e alta velocidade têm gerado impactos cada vez mais violentos.
Para o inspetor da PRF Fábio Sodré, as dinâmicas dos acidentes em Mato Grosso do Sul resultam de uma combinação complexa de fatores, dadas as características do estado, que experimenta a construção de novas indústrias e o aumento do fluxo nas estradas.
“É importante entendermos que um sinistro de trânsito pode ser influenciado por fatores diversos que estão relacionados com a via, com as condições do veículo, com o comportamento do condutor e as condições adversas”, explica.
Mudança no perfil econômico é influência - Das 11 rodovias federais que atravessam o território sul-mato-grossense, os maiores índices de ocorrências concentram-se nas principais artérias de integração regional: as BRs 163, 262, 267, 060, 158, 376 e 463. O inspetor Sodré destaca que esse adensamento de acidentes reflete a mudança no perfil econômico de Mato Grosso do Sul.
“Nosso estado vem passando por transformações, instalação de grandes indústrias, extração de minérios. Essas principais rodovias, por onde passa a maioria desses veículos, acabam tendo relação com o aumento dessa quantidade de ocorrências justamente nesses corredores”, destaca o inspetor.
Outro desafio estrutural está na configuração das vias. A maioria das rodovias federais no estado ainda é formada por pistas simples, que exigem atenção redobrada durante as ultrapassagens. Segundo o inspetor, embora as pistas duplas ofereçam menor risco nesse tipo de manobra, elas podem induzir ao aumento da velocidade, elevando o potencial de gravidade dos acidentes.
Essa é uma realidade observada na BR-163, que atualmente está sob concessão da empresa Motiva Pantanal. Segundo o especialista em relações institucionais da concessionária, Marcelo Tezani, os pontos mais vulneráveis da rodovia se concentram em perímetros urbanos, principalmente próximo a Campo Grande e Dourados. Apesar de existirem trechos duplicados e sinalizados, o tráfego local, que mistura veículos leves com o fluxo pesado de cargas de longa distância, representa uma combinação perigosa.
“O tráfego local é o que sai de um bairro e vai para o outro, vai na casa de alguém, no comércio, numa oficina. O de longa distância não: ele quer passar o mais rápido possível por aquele ponto e seguir a viagem dele. Então, normalmente, eles pegam percepções diferentes, tempos de reação diferentes, velocidades diferentes, e isso gera conflitos nesses pontos críticos que a gente chama, que são as travessias urbanas”, destaca Tezani.
Além das falhas humanas, a travessia de animais silvestres na pista representa outro fator de risco extremo em MS, o que levou ao mapeamento de até 50 pontos críticos de fauna para implantação de passagens ecológicas e sinalização ostensiva nos trechos destacados.
“A engenharia faz a parte dela mapeando esses corredores naturais e criando caminhos seguros para a fauna, mas a infraestrutura não atua sozinha. O respeito do condutor à sinalização ostensiva nesses 50 pontos é o fator determinante para transformarmos esse mapeamento em redução real de atropelamentos”, completa.
Rodovias estaduais - Nas estradas estaduais, o levantamento do BPMR (Batalhão da Polícia Militar Rodoviária) expõe que os trechos mais perigosos são aqueles que ligam os municípios do leste ao centro de MS. Apesar de relativamente curta, a MS-306, que liga Cassilândia à Costa Rica, concentra o maior número de acidentes, seguida da MS-040, que liga Brasilândia e Campo Grande, passando por Santa Rita do Rio Pardo.
Para o subcomandante do BPMR, capitão Kleber de Souza Oliveira, o alto índice de acidentes na MS-306 está diretamente ligado ao perfil do tráfego da região. A rodovia se consolidou como um grande corredor de escoamento da produção agroindustrial vinda do Mato Grosso com destino a São Paulo e Minas Gerais. Essa mistura entre o fluxo pesado de carretas de grande porte e veículos leves eleva consideravelmente o risco nas pistas.

“Como a rodovia se tornou esse corredor de escoamento da produção, os próprios veículos pesados se envolvem em sinistros e, muitas vezes, os veículos de passeio acabam envolvidos por causa dessa dinâmica. É uma soma de fatores: o condutor perde o controle do veículo, há imprudência, excesso de velocidade, ultrapassagens forçadas e até a própria fadiga ao volante”, destaca Kleber.
Além do volume de carga, o levantamento aponta que saídas de pista, capotamentos e colisões frontais são impulsionados por falhas humanas e comportamentais. A imprudência, as ultrapassagens em locais proibidos, o excesso de velocidade e o cansaço aparecem como os principais fatores de risco.
Nas operações de fiscalização, o BPMR identifica com frequência condutores não habilitados e veículos sem condições mínimas de trafegabilidade, como pneus carecas e falhas graves no sistema de iluminação.
A perda de controle do veículo lidera as estatísticas de acidentes nas vias estaduais, o que reforça o impacto do cansaço e das falhas mecânicas na rotina das estradas:
Capotamentos: 932 ocorrências;
Saídas de pista: 823 ocorrências;
Tombamentos: 689 ocorrências;
Colisões traseiras e laterais: 452 e 387 registros, respectivamente;
Colisões frontais: 356 ocorrências.
Os dados do Detran-MS (Departamento Estadual de Trânsito de Mato Grosso do Sul) confirmam o impacto direto do tráfego intenso e da movimentação nas estradas estaduais, que acumulam 5,4 mil sinistros registrados entre 2021 e 2026.
Esse aumento do fluxo é especialmente crítico em corredores de escoamento da produção, como a MS-040, com alto volume de acidentes nos trechos entre Campo Grande, Ribas do Rio Pardo e Santa Rita do Pardo, e a MS-112, que concentra expressivas ocorrências em Inocência e Três Lagoas.
Além disso, o levantamento detalha, ainda, que o fator humano é a principal causa dessas ocorrências nas pistas. A falta de atenção do condutor lidera isolada entre as causas conhecidas mapeadas pelo órgão, somando 189 casos em 2026 e 283 em 2025, seguida por presença de animais na pista, ultrapassagens indevidas e motoristas dormindo ao volante.
Diante desse cenário, o alerta das forças de segurança rodoviária é para que a prevenção comece antes de dar a partida. Checar freios, pneus e iluminação, além de programar pausas a cada duas horas em viagens longas, são medidas fundamentais de segurança.
“No trânsito, seja na área urbana, mas principalmente na rodovia, você precisa dirigir por você e pelo outro. O condutor não pode subestimar a estrada nem o seu próprio cansaço”, orienta o capitão Kleber.
“Manter a distância de segurança e respeitar o limite da via são atitudes decisivas para preservar vidas, porque a velocidade é diretamente proporcional ao seu tempo de reação”.



