Sonho de adolescência vira 50 mil km de estrada com 'piano' a bordo
Aposentada transformou motorhome em casa e já cruzou 5 países levando música pelo caminho

Viver em um motorhome é o sonho de muita gente: atravessar países, seguir por estradas desconhecidas, conhecer paisagens nunca vistas e até aprender o básico de um novo idioma pelo caminho. Para Solange Mendes de Souza, subprocuradora-geral da República aposentada, essa vontade surgiu ainda na adolescência, mas precisou esperar algumas décadas para sair do papel.
RESUMO
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Solange Mendes de Souza, subprocuradora geral da República aposentada, realizou o sonho de viajar de motorhome para poder levar seu piano nas viagens. Batizado de Piano Nômade, o projeto já a levou por Brasil, Uruguai, Argentina, Paraguai, Chile e Peru, com quase 50 mil quilômetros percorridos. A próxima etapa prevista é a América do Norte, com passagens por Estados Unidos, México e Canadá.
A vida seguiu por outros caminhos. Solange estudou, trabalhou, casou cedo, teve 2 filhas e hoje tem 4 netos. Depois da aposentadoria, decidiu que era hora de viajar, mas de uma maneira diferente.
A aposentadoria veio antes do limite compulsório de 75 anos por uma escolha calculada: Solange queria tempo para realizar a aventura que imaginava havia anos. O motorhome entrou na história por uma necessidade pouco convencional. Mais do que uma casa sobre rodas, seria a maneira de levar o piano junto nas viagens. Ela uniu o antigo desejo de viajar a uma paixão que começava a cultivar: tocar piano.
“Se não fosse o piano, eu poderia estar com uma mochila nas costas viajando pelo mundo. Comecei a imaginar que o motorhome seria a forma de viabilizar o transporte do piano. Quando passei a conhecer esse universo, pelos perfis, YouTube, Instagram e feiras, vi que era uma coisa que me agradava”.
Assim surgiu o Piano Nômade, projeto que transformou um motorhome em casa, meio de transporte e espaço para a música. A ideia era poder viajar pelo mundo sem abandonar o instrumento. Desde então, Solange percorreu estradas do Brasil e de outros 5 países da América do Sul.
"Com o motorhome, fiz Uruguai, Argentina, Paraguai, Chile e Peru. A Argentina eu já fiz em vários momentos, quase toda", conta. A Antártica também entrou no roteiro de viagens, mas, por razões óbvias, sem a casa sobre rodas. O motorhome ficou em Ushuaia, no extremo sul argentino.
No Brasil, a viajante começou pelos 3 estados da Região Sul. Como já havia conhecido boa parte do País durante as férias ao longo da vida, inicialmente não pretendia percorrer outros estados com o veículo. Os planos, porém, mudaram após entrar novamente no território brasileiro pelo Acre.
Agora, passando pelo Centro-Oeste, Solange se aproxima de outra marca da aventura. Quando retornar à fábrica para realizar a revisão do motorhome, o hodômetro deverá registrar 50 mil quilômetros percorridos.
Na estrada - Depois do Uruguai, Solange decidiu ir mais longe. Cruzou o Paraguai e, em outubro do ano passado, partiu sem data para voltar. O destino seguinte foi a Patagônia, onde percorreu caminhos entre Argentina e Chile e realizou 12 travessias de fronteira.

“O Paraguai foi uma experiência muito positiva. Depois, fui para a Patagônia com a intenção de ficar todo o tempo possível. Fiz 12 passos fronteiriços entre Chile e Argentina, e são lugares lindíssimos”.
Antes do inverno, deixou o motorhome em Ushuaia e embarcou em um veleiro para passar um mês na Antártica. Atravessou a Passagem de Drake, mergulhou entre icebergs e encontrou uma paisagem que, muitas vezes, a fazia parar apenas para fotografar. Na estrada, porém, nem tudo é contemplação. Solange já atolou o veículo a ponto de precisar de um trator para retirá-lo e convive diariamente com pequenos reparos na casa sobre rodas.
“É uma vida muito plena e rica, mas também cheia de desafios e perrengues. Outro dia, contei aos meus netos que praticamente não ligava a televisão. Minha netinha perguntou por quê, e o outro respondeu: ‘Ora, quando ela quer ver pinguim, ela sai e vê o pinguim’. Tudo que quero ver, estou vendo na vida real”.
Viajar sozinha também exige atenção redobrada. Solange conta que observa constantemente os lugares por onde passa e avalia os riscos antes de decidir onde parar ou seguir viagem. Em contrapartida, diz ter encontrado receptividade pelo caminho, inclusive durante abordagens policiais, quando a presença de uma mulher viajando sozinha em um motorhome costuma despertar curiosidade.

“Eles perguntam: ‘Mas você está sozinha?’. Aí querem conversar e esquecem até de pedir a carteira de motorista e o documento do carro. Tem muita receptividade e acolhimento. As conexões pessoais são a grande surpresa, mas nós, mulheres, temos que estar sempre mapeando, cuidando e decodificando o ambiente ao qual estamos nos expondo".
Sem roteiro completamente fechado, a próxima etapa deve levar o Piano Nômade à América do Norte. Solange pretende percorrer Estados Unidos, México e Canadá, ajustando o caminho conforme o tempo disponível em cada país. Além das fronteiras e das regras de permanência, as condições das estradas e o clima entram no planejamento diário.
“Eu mudo de ideia muitas vezes porque não tenho compromisso. Vou monitorando as questões climáticas e tentando me desviar dos problemas. Na América do Norte, sabemos que há tornados, nevascas e outras situações. Então, vou acompanhar os lugares que quero visitar, o clima, o tempo de visto e o que faz sentido em termos de estrada. A logística é complexa e bastante desafiadora”.
Por dentro - O Piano Nômade foi preparado para dar autonomia a Solange durante as viagens. O motorhome tem placas solares, baterias de lítio, fogão a diesel e pode ser conectado à rede elétrica externa quando necessário. Para água, são 210 litros no reservatório principal e outros 50 litros destinados à água mineral.
“Eu me sinto em casa, feliz e confortável. A energia vem tanto das placas solares como do alternador do carro e também posso plugar na rede externa. Água é relativamente fácil de conseguir em postos, campings ou até pedindo em alguma casa pelo caminho.”
Solange prefere não revelar quanto pagou pelo veículo e diz que há motorhomes para diferentes orçamentos. Na rotina, o combustível é o gasto que mais pesa, enquanto a manutenção do veículo é feita periodicamente, com revisões a cada 10 mil quilômetros nos países por onde passa.
A passagem por Campo Grande não estava no roteiro original. Solange voltava do Peru para Porto Alegre, onde mantém sua base familiar, e pretendia seguir por Chile e Argentina. As condições climáticas, porém, mudaram os planos. Ela entrou no Brasil pelo Acre, passou por Rondônia e decidiu atravessar o Centro-Oeste, acrescentando cerca de 1,5 mil quilômetros e pelo menos 10 dias à viagem.
Quem quiser acompanhar os próximos quilômetros de Solange pode conferir os registros da viagem pelo Instagram, no perfil @pianonomade. Por lá, ela compartilha fotos, paisagens, bastidores da vida no motorhome e as aventuras que encontra pelo caminho.
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