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Arquitetura

Além dos bares, 46 prédios revelam passado escondido da 14 de Julho

Levantamento histórico encontrou o primeiro elevador, antigo centro da ditadura e detalhes arquitetônicos

Por Clayton Neves | 17/09/2026 06:37
Além dos bares, 46 prédios revelam passado escondido da 14 de Julho
Casarão construído em 1917 no cruzamento com a Rua Antônio Maria Coelho. (Foto: Renan Kubota)

Um levantamento histórico e arquitetônico de 46 imóveis da Rua 14 de Julho, do trecho entre a Rua 7 de Setembro e a Avenida Mato Grosso, revela prédios que guardam desde o primeiro elevador de Campo Grande até um antigo espaço utilizado na época do regime militar.

O projeto “Rota 14 – Levantamento Histórico e Arquitetônico dos Imóveis de Interesse de Preservação da Rua 14 de Julho” catalogou e elaborou um museu virtual para aproximar moradores das histórias e memórias que a rua conta. A pesquisa foi aprovada pelo Fundo Municipal de Investimentos Culturais em 2024, começou a ser executada no ano seguinte e foi lançada nesta quarta-feira.

A intenção foi justamente fazer com que a população enxergasse a rua para além do comércio e do movimento da área do Centro.

“Eu acho que é o principal objetivo do projeto, porque principalmente durante as visitas técnicas, quando a gente ia falando dos edifícios, muitos alunos olhavam para cima e ficavam maravilhados, como se nunca tivessem realmente reparado na característica daquele edifício”, conta a arquiteta Viviane Maria de Freitas, responsável pelo projeto.

Durante o trabalho, a equipe pesquisou jornais, revistas antigas e acervos históricos para descobrir a trajetória de cada imóvel. Além da pesquisa histórica, as fachadas foram desenhadas e analisadas, com informações sobre características arquitetônicas, estilo, estado de conservação, fundadores e construtores.

Além dos bares, 46 prédios revelam passado escondido da 14 de Julho
Edíficio José Abrão na Rua 14 de Julho esquina com a Marechal Rondon, foi tombado como patrimônio da cidade. (Foto: Arquivo)

Entre as descobertas está o prédio que abrigou o primeiro elevador de Campo Grande. Segundo o levantamento, o equipamento consumia praticamente toda a energia da quadra quando estava em funcionamento, mas, mesmo assim, virou uma novidade que chamou atenção na época.

Outro imóvel, localizado na esquina da 14 de Julho com a Afonso Pena, teve uma função ainda mais inusitada. O prédio funcionou como um centro utilizado pelo regime militar. “São várias histórias diferentes e que contribuem para que se conte a história da nossa cidade”, resume Vivi.

A pesquisa também encontrou a primeira linha telefônica de Campo Grande instalada na 14 de Julho, no trecho entre as ruas 7 de Setembro e 15 de Novembro.

Entre as construções analisadas está ainda um exemplo marcante da arquitetura local, como a edificação conhecida como Fruto do Ventre, destacada pela quantidade de ornamentos em sua fachada.

Um dos imóveis que ganhou destaque durante o desenvolvimento do projeto foi o Edifício José Abrão, que passou recentemente pelo processo de tombamento. A construção já vinha sendo analisada havia anos e acabou recebendo o reconhecimento durante o período em que o levantamento era realizado.

Além dos bares, 46 prédios revelam passado escondido da 14 de Julho
Rua 14 de Julho, na década de 1910, ainda com cara de vilarejo rural (Revista Arca Campo Grande Imagens da História)

Ao todo, o trabalho envolveu arquiteta, engenheiro civil, pesquisador, arte-educador, designer gráfica e intérprete de Libras, além de estudantes de Arquitetura e Urbanismo da Unigran Capital.

Os universitários participaram de levantamentos fotográficos e técnicos, medições e modelagem das fachadas. As imagens atuais dos imóveis usadas no projeto também foram produzidas pelos alunos.

O resultado é um roteiro cultural que permite percorrer a 14 de Julho acompanhando a história de cada uma das 46 edificações. O material foi produzido em PDF e também ganhou uma versão digital, mais interativa, na qual o usuário poderá clicar no mapa e acessar as informações de cada imóvel.

O site ainda estava nos últimos ajustes, mas o PDF reúne todo o conteúdo. O projeto também prevê a disponibilização de fotografias históricas, imagens de jornais e revistas e arquivos técnicos das fachadas, que poderão ser baixados por estudantes e profissionais.

“Para facilitar a compreensão, o roteiro tem um glossário com termos usados na arquitetura, explicando expressões e outros elementos presentes nas construções”, destaca Viviane.

Além da pesquisa, o projeto saiu do papel e foi levado para a rua. Uma das ações reuniu alunos do 9º ano de uma escola municipal em uma visita mediada pelo trecho pesquisado. A ideia era mostrar aos estudantes detalhes que normalmente passam despercebidos durante uma caminhada pelo Centro.

“Muitos desses edifícios têm segundo, terceiro, quarto pavimento e que muitas vezes as pessoas não conseguem olhar, não conseguem reparar”, explica a arquiteta.

Além dos bares, 46 prédios revelam passado escondido da 14 de Julho
Casa Glória está entre os patrimônios catalogados no projeto. (Foto: Arquivo/Marcos Ermínio)

O projeto também desenvolveu uma ação de extensão com estudantes de Arquitetura e Urbanismo da Capital, aproximando a pesquisa histórica da formação dos futuros profissionais.

A iniciativa nasceu em um momento de transformação da 14 de Julho. Depois do Reviva Centro, a rua passou por mudanças e, mais recentemente, ganhou ainda mais movimento com a chegada de bares e espaços frequentados pela juventude.

Mas, para a responsável pelo projeto, a nova ocupação não precisa apagar o que veio antes. “É muito importante tanto para preservação desses prédios, até porque depois do Reviva Centro teve todo esse cuidado para liberar essas fachadas para que elas ficassem visíveis”, afirma.

Com menos elementos escondendo as construções e com a fiação sendo reorganizada, a arquitetura histórica passou a ficar mais exposta. Agora, o desafio é fazer com que quem passa por ali realmente perceba.

“A gente queria fomentar um pouco mais, instigar essa curiosidade na população para olharem para cima, verem as fachadas históricas que existem, verem a 14 além do ponto comercial que ela é para a cidade, mas também verem ela como um ponto cultural”, pontua.

Agora, a equipe planeja continuar o trabalho com o chamado Rota Valdir, que pretende levantar a história e a arquitetura do Corredor Cultural Valdir de Santos Pereira, entre o Horto Florestal e a Rotunda.

O museu virtual ficará disponível na internet. (clique aqui)

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