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Cidades

Protestos na Bolívia preocupam estudantes de MS às vésperas das férias

Bloqueios já passam de 90 pontos, afetam deslocamentos e motivam alerta do Itamaraty

Por Anderson Viegas | 05/06/2026 10:57
Protestos na Bolívia preocupam estudantes de MS às vésperas das férias
Bolívia tem mais de 90 pontos de bloqueio e rodovia nesta sexta-feira (Foto: El Deber)

A onda de protestos iniciada em maio na Bolívia e transformada em bloqueios rodoviários espalhados por grande parte do país está deixando brasileiros que estudam em universidades bolivianas apreensivos em razão dos desdobramentos econômicos, políticos e sociais e também da possibilidade, com a proximidade das férias escolares, de ficarem impedidos de sair do país por conta das interdições nas estradas.

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Protestos e bloqueios rodoviários na Bolívia, iniciados em maio, já somam cerca de 90 interdições e afetam o abastecimento de alimentos, combustíveis e medicamentos, além de dificultar atendimentos médicos. Brasileiros que estudam no país, especialmente em Santa Cruz de la Sierra, temem ficar impedidos de deixar o território nas férias. O Itamaraty orientou evitar viagens a La Paz, Oruro e Potosí.

O estudante brasileiro Flávio Dias saiu de Camapuã e hoje é aluno do 9º semestre do curso de Medicina da Udabol (Universidad de Aquino Bolivia), em Santa Cruz de la Sierra, a 657 quilômetros de Corumbá (MS), na fronteira com o Brasil. Ele relatou que, apesar de as manifestações estarem concentradas na porção oeste do país, próximas à capital La Paz, o cenário preocupa.

“Em Santa Cruz de la Sierra, que está mais próxima ao Brasil, ainda está tranquilo. Nossa preocupação é que esses bloqueios, que já passam dos 90, comecem a ocorrer também para o lado de Santa Cruz. Como está perto das férias escolares, que começam em julho, ficamos um pouco apreensivos de acabar ficando presos aqui. Presos, no sentido de não conseguir passar e chegar até a fronteira com o Brasil.”

Flávio aponta que há pelo menos 10 mil estudantes brasileiros somente em Santa Cruz de la Sierra, a maioria matriculada em cursos de Medicina. “A maioria vai para o Brasil por Corumbá, que é a principal porta de entrada. Outros seguem para Campo Grande, onde pegam voos para outros estados. Então, existe um fluxo muito grande para Mato Grosso do Sul e também pela saída via Rondônia”, explica.

Segundo ele, os protestos também podem provocar escassez de alimentos e combustíveis, além de dificultar atendimentos médicos e operações de socorro. “Teve até um vídeo ontem que eu vi mostrando uma ambulância tentando passar. É uma coisa absurda, porque os manifestantes não deixam. Então, tem gente morrendo dentro de ambulâncias. Há também casos já registrados de hospitais enfrentando o risco de ficar sem oxigênio, porque não deixam passar os caminhões com a carga.”

Os protestos

Os protestos na Bolívia começaram em maio com reivindicações econômicas de sindicatos, professores, mineiros, organizações indígenas e movimentos sociais. As demandas iniciais incluíam reajustes salariais e questionamentos sobre políticas econômicas do governo, mas as mobilizações evoluíram para pedidos de renúncia do presidente Rodrigo Paz. Eleito em outubro, Paz assumiu o país em meio à escassez de combustíveis e dólares, inflação elevada e recessão econômica, adotando medidas de ajuste fiscal e mudanças nos subsídios aos combustíveis.

Na manhã desta sexta-feira (5), o mapa da ABC (Administradora Boliviana de Carreteras) apontava cerca de 90 pontos de bloqueio ou conflito social em rodovias bolivianas, concentrados principalmente nos departamentos de La Paz, Cochabamba, Oruro e Potosí. Os bloqueios afetam a circulação de pessoas e mercadorias, provocando dificuldades de abastecimento de combustíveis, alimentos e medicamentos em diversas regiões do país.

 Segundo o governo boliviano, a crise já está associada a dez mortes, incluindo sete pessoas que não teriam recebido atendimento médico em razão das interrupções nas estradas. Entidades empresariais estimam prejuízos bilionários para a economia, enquanto o sistema educacional também foi impactado, com grande parte dos estudantes de La Paz e El Alto migrando para aulas remotas. Desde o início da crise, três ministros deixaram o governo e as tentativas de negociação entre as partes ainda não produziram avanços concretos.

Protestos na Bolívia preocupam estudantes de MS às vésperas das férias
Na manhã desta sexta-feira (5), mapa da Administradora Boliviana de Carreteras (ABC) apontava cerca de 90 pontos de bloqueio ou conflito social em rodovias bolivianas (Foto: ABC)

Recomendação

O Ministério das Relações Exteriores emitiu um alerta consular recomendando que brasileiros evitem viagens aos departamentos de La Paz, Oruro e Potosí, na Bolívia, devido aos bloqueios de estradas registrados em diferentes regiões do país.

Segundo o Itamaraty, as interdições têm provocado interrupções significativas no tráfego rodoviário e afetado o acesso a importantes destinos turísticos, como o Salar de Uyuni e Copacabana, além de dificultar os deslocamentos para a região de La Paz e a partir dela. Em alguns casos, a saída dessas localidades tem sido possível apenas por via aérea.

O governo brasileiro destaca que a situação é dinâmica e que não há garantias de que os bloqueios permaneçam restritos às áreas atualmente afetadas, podendo se estender para outras regiões do território boliviano.

Protestos na Bolívia preocupam estudantes de MS às vésperas das férias
Alerta do Itamaraty sobre deslocamentos no oeste da Bolívia neste momento (Foto: Embaixada Brasileira em La Paz)

Para os brasileiros que já se encontram nas localidades atingidas, a orientação é evitar deslocamentos rodoviários não essenciais, especialmente nas áreas com registros de bloqueios. O Itamaraty também recomenda acompanhar as condições das estradas por meio do portal da Administradora Boliviana de Carreteras (ABC), manter contato frequente com familiares, informar a localização regularmente e seguir rigorosamente as orientações das autoridades locais.

O alerta ainda orienta os viajantes a não aceitar ajuda de desconhecidos, devido ao risco de golpes, furtos e roubos, além de buscar abrigo seguro e evitar caminhadas longas em áreas afetadas pelas manifestações.

O Itamaraty aponta que o atendimento consular brasileiro permanece disponível para situações de emergência. Em caso de necessidade, brasileiros em situação de risco devem procurar a repartição consular responsável pela região ou acionar os canais de plantão consular disponibilizados pelo governo brasileiro.