A cada 10 furtos registrados em Campo Grande, só 1 vira processo judicial
São 15 mil em um ano, mais de 40 por dia na Capital; como maioria não dá em nada, vítimas nem registram B.O
Em Campo Grande, registrar um furto raramente significa ver o caso chegar ao Judiciário. Os números oficiais mostram que, a cada ano, mais de 15 mil ocorrências são comunicadas à polícia, média de 41 por dia. Mas pouco mais de mil viram processos que de fato tramitam na Justiça. No meio do caminho, a maioria simplesmente desaparece do sistema.
RESUMO
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Em Campo Grande, a disparidade entre furtos registrados e casos que chegam à Justiça é alarmante. Dados da Secretaria Estadual de Justiça e Segurança Pública revelam mais de 15 mil ocorrências anuais, enquanto apenas cerca de mil processos são efetivamente judicializados. A situação gera descrença na população, que frequentemente deixa de registrar novos casos. No bairro Iracy Coelho, moradores relatam furtos constantes e investem em medidas preventivas, como câmeras de segurança e vigilância comunitária, diante da baixa resolução dos crimes.
Dados do Estatística Sigo, painel de ocorrências da Sejusp (Secretaria Estadual de Justiça e Segurança Pública), apontam que somente em 2025 foram registrados 15,7 mil furtos na Capital. Em 2024, foram 15,6 mil casos e, em 2023, 18 mil.
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No mesmo período, segundo o DataJud (Base Nacional de Dados do Poder Judiciário), público e disponibilizado pelo CNJ (Conselho Nacional de Justiça), apenas 1.351 novos processos por furto deram entrada no Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul em 2025. Em 2024, foram 1.333 ações e 2023, 1.440.
Na prática, isso significa que mais de 90% dos furtos registrados não chegam à Justiça.
Essa distância entre o boletim de ocorrência e o processo judicial ajuda a explicar a descrença relatada por moradores de bairros afetados pela repetição desse tipo de crime. No Iracy Coelho, na região sul da Capital, o furto virou rotina, segundo os próprios moradores.
João Victor, de 25 anos, teve a casa invadida durante a tarde, enquanto estava no trabalho. Saiu por volta das 7h e voltou às 18h. No intervalo, a residência foi revirada e a fechadura danificada. “Roubaram tudo que tinha para roubar. O vizinho viu o rapaz empurrando uma carriola com as coisas. A gente acaba desanimando, porque muitas vezes você registra e a pessoa logo está solta e volta a furtar,” relata.
O desânimo não é isolado. A confeiteira Silvia Graces, de 50 anos, também foi vítima de furto durante a construção do muro da casa, quando ferragens foram levadas. Em outra ocasião, flagrou um homem pulando o quintal durante a madrugada.
“Eu não fiz boletim. A gente acaba achando que não vai resolver”, admite. Hoje, ela mantém vários cachorros no imóvel, incluindo uma rottweiler, como forma de inibir novas invasões.
A aposentada Nelva Rodrigues Paredes, de 62 anos, teve o relógio de energia violado e fios furtados. O medo alterou a rotina. “Eles observam tudo. Se a casa está fechada, se tem gente. Evito sair”, conta. Ela também não registrou ocorrência.
Esse comportamento ajuda a alimentar outro problema apontado por lideranças comunitárias: a subnotificação. Com isso, moradores se mobilizaram após uma sequência de furtos e chegaram a acompanhar uma ação policial que terminou na prisão de um suspeito de 28 anos, encontrado em um matagal nos fundos da Avenida Guaicurus, na tarde de quarta-feira (4).
O presidente da associação de moradores do bairro, André Luiz Soares, afirma que o aumento dos furtos é recente, mas constante. “Nos últimos dois ou três meses aumentaram muito os pequenos furtos. A gente vê nas câmeras que são pessoas em situação de rua, muitas vezes para trocar por droga. A polícia prende, mas no dia seguinte já estão soltos”, afirma.
Diante da dificuldade de resposta depois do crime, os moradores passaram a investir na prevenção. A associação arrecadou recursos para instalar 15 câmeras de segurança e placas alertando sobre vigilância comunitária. “Depois que acontece, é muito difícil recuperar. Por isso a gente tenta evitar”, resume.
Apesar da descrença de parte da população, André reforça a orientação recebida da Polícia Militar. Sem boletim de ocorrência, não há histórico nem aumento de policiamento. A própria guarnição que atendeu a prisão no bairro informou à reportagem que o registro formal é essencial para que o suspeito permaneça detido e para subsidiar ações futuras.
A reportagem questionou a Sejusp e o Tribunal de Justiça sobre a diferença entre o volume de registros policiais e o número de processos, além do impacto da subnotificação. Até a publicação, não houve retorno. O espaço segue aberto.
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